O Maserati GT2 Stradale recupera uma ideia que já quase não se vê: um supercarro feito à antiga, só a combustão - e sem eletrificação para adoçar a experiência.
O GT2 Stradale não é simplesmente um MCPura mais rápido. É o resultado de a Maserati decidir cortar peso, subir a fasquia da potência e transformar um supercarro num instrumento de condução mais afiado, ali na fronteira entre a estrada e a competição. Percebe-se mal nos sentamos ao volante e ouvimos o V6 biturbo Nettuno acordar. Sem artifícios, sem dramatismos.
É direto, cru e muito presente… sobretudo quando há espaço para deixar respirar os seus 640 cv, sem qualquer ajuda elétrica. Tive oportunidade de o conduzir em estrada e de o pilotar no circuito onde nasceu, o Autódromo di Modena, em Itália.
Neste vídeo, tento colocar por palavras tudo aquilo que o Maserati GT2 Stradale tentou transmitir-me. As sensações ao volante, acelerações e travagens no limite são uma linguagem universal:
Da competição para a estrada
A frase acima é um lugar comum, mas a verdade é que o GT2 Stradale nasce de um contexto muito concreto. A Maserati regressou à competição, venceu e decidiu lançar uma versão que evoca esses sucessos recentes nas pistas. Há uma ligação direta entre o programa GT2 de corrida e aquilo que podem, literalmente, levar para a garagem.
O motor continua a ser o V6 Nettuno de 3,0 litros biturbo, aqui com 640 cv. Nos dias que correm, é um número que já não impressiona por si só. Mas quem gosta verdadeiramente deste tipo de versões sabe que potência não é tudo. Veja-se o caso do Porsche 911 GT3 RS que “apenas” excede marginalmente os 500 cv…
O contexto não engana. O GT2 Stradale é a materialização desta nova era da Maserati na competição. Voltaram ao GT2, venceram logo no primeiro ano e decidiram transportar esse know-how para a estrada.
Produzido em série limitada a 914 unidades (referência ao ano de fundação da marca, 1914), o GT2 Stradale promete tornar-se um dos modelos mais puristas e exclusivos da marca em décadas.
Menos peso, mais intenção
O peso anunciado é de 1365 kg a seco, o que representa um corte significativo face aos valores reais do MC20 standard, que foi sempre criticado pelo peso excessivo.
A receita passou por retirar massa e acrescentar componentes de competição. A Maserati aponta para uma poupança de 60 kg face ao MC20 base. Cada banco de carbono desenvolvido com a Sabelt permite reduzir 20 kg e a consola central também foi redesenhada com o mesmo objetivo. A suspensão está mais firme, a rigidez estrutural aumentou e o habitáculo foi simplificado. Os tapetes passam a ser opcionais.
Mais importante do que o número é o carácter. A resposta ao acelerador é imediata, a entrega de binário é forte desde cedo e a progressão mantém-se constante. Não há picos artificiais nem suavizações desnecessárias. A sensação é sempre mecânica e muito física. A ligação entre o pedal direito e o eixo traseiro é nítida e sem filtros.
Em estrada é pouco… GT2
Em estrada, nas imediações de Modena, o GT2 Stradale deixa relativamente claro ao que vem. Tive oportunidade de testar durante alguns quilómetros um MC20 Cielo no mesmo percurso, o que permitiu uma comparação direta entre ambos. Ou seja, entre os extremos da gama MC20 (agora MCPura).
A suspensão é mais firme, mas, apesar do escape mais audível, é confortável e intimida menos do que eu esperava em estradas mais degradadas. E em Itália, nas montanhas perto do Circuito de Modena, a circular entre pequenas vilas com um asfalto pouco recomendável a quem tem problemas de costas, não senti que estivesse a pedir uma ida ao meu osteopata.
Quando o ritmo sobe, o chassis assenta, o carro ganha fluidez e tudo passa a fazer ainda mais sentido. A frente é mais precisa e a traseira acompanha. É um carro que, em qualquer estrada pública, está claramente aquém das suas capacidades.
Tal como no MCPura, a posição do sistema de infoentretenimento continua a não ser a melhor, mas, honestamente, aqui não é uma prioridade. E quando saio da estrada para ir para a pista, esqueço estas «frescuras» do dia a dia, para libertar este animal italiano onde ele deve viver feliz.
Um animal em pista
Em pista, em Modena, o GT2 Stradale mostra a sua verdadeira natureza. A aerodinâmica revista começa a fazer o seu trabalho a sério, sobretudo em apoio rápido e nas zonas de travagem. A estabilidade é muito mais elevada, a frente mantém-se sólida e a traseira dá imensa confiança mesmo quando chegamos perto do limite.
Não é um carro traiçoeiro. Visualmente, o GT2 Stradale pode intimidar, mas está longe de ser difícil de dominar. Não quero com isto dizer que os nossos erros em pista sejam disfarçados, mas as ações certas são recompensadas.
A leitura dos limites é clara e progressiva, o que permite ganhar ritmo volta após volta, sem surpresas. Por mim ainda lá estava…
O trabalho feito na redução de peso e no aumento de rigidez estrutural sente-se em cada transição. Há menos inércia, respostas mais rápidas e uma sensação de precisão constante. A travagem é forte e consistente, a caixa reage com rapidez e todo o conjunto transmite sempre a ideia de estar preparado para mais uma volta. Na verdade, foram oito voltas ao circuito de Modena sem levantar o pé.
Não é para todos (e ainda bem)
O GT2 Stradale não tenta ser tudo para todos; para esses, o Maserati MCPura é a melhor opção. Este GT2 quer ser fiel a uma ideia muito específica de supercarro. Um carro construído em torno de um motor de combustão, de um chassis afinado sem concessões e de uma ligação direta entre máquina e condutor. Nos dias que correm, é quase um manifesto.
É italiano no sentido certo e, no fim, feitas as contas, não fica na memória pelos números. Fica porque obriga o condutor a estar presente, envolvido e comprometido. E isso continua a ser, para mim, a verdadeira medida de um grande supercarro.
Em Portugal, o Maserati GT2 Stradale tem preços a começar nos 355 454 euros - um valor que o coloca em linha com a referência Porsche 911 GT3 RS -, mas este valor pode subir rapidamente para perto de meio milhão de euros, selecionando algumas opções.
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