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Carrinhos de compras abandonados causam mais problemas do que imagina.

Pessoa a empurrar carrinho de compras num parque de estacionamento ao pôr do sol.

Carrinhos de compras abandonados - empurrados para sebes, atirados para rios ou deixados ao abandono em plena via pública - tornaram-se um retrato de poluição e desperdício. Um novo estudo quantifica, com detalhe, o verdadeiro peso ambiental deste hábito e mostra até que ponto prejudica o planeta.

Carrinhos de compras abandonados: dimensão do problema no Reino Unido

A investigação foi realizada no Reino Unido, onde estes carrinhos de supermercado são frequentemente designados por trolleys. Estima-se que, todos os anos, cerca de 520 000 carrinhos fiquem desertados. Recolher, reparar ou substituir estes carrinhos degradados implica um custo ambiental considerável.

“Todos os anos são comunicados milhares de carrinhos de compras abandonados no Reino Unido”, afirma Neill Raath, engenheiro de materiais da Universidade de Warwick. “Quando se multiplica a pegada de carbono associada à recolha de cada um, o resultado torna-se simultaneamente relevante e preocupante.”

O custo em CO₂ da recolha e da reparação

Neill Raath e o seu colega Darren Hughes, também engenheiro de materiais na Universidade de Warwick, calcularam que o gasóleo consumido por carrinhas na recuperação de todos estes carrinhos totaliza 343 toneladas métricas de dióxido de carbono (equivalente a 378 toneladas curtas). Este valor é comparável às emissões geradas por 80 automóveis a gasolina ao longo de um ano.

Os autores estimam ainda que, se apenas 10% desses cerca de meio milhão de carrinhos necessitassem de revestimento de zinco (para travar a corrosão), as emissões de carbono associadas quase duplicariam. Ainda assim, recuperar e recondicionar carrinhos pode reduzir drasticamente o impacto ambiental face à substituição por novos - uma diminuição na ordem dos 92% a 99%.

Análise do ciclo de vida em Coventry (e o que cada carrinho “custa”)

Para tornar o cálculo mais concreto, a equipa centrou-se numa zona suburbana da cidade de Coventry, estimando o “preço” ambiental de cada carrinho ao longo de todo o seu ciclo de vida. Nessa área, são recuperados cerca de 30 carrinhos por semana, e aproximadamente 100 por ano precisam de recondicionamento.

De acordo com as contas do estudo:

  • Fabricar um carrinho tem um impacto de aquecimento global equivalente a 65,14 kg de CO₂.
  • Recolher e devolver um carrinho equivale a 0,69 kg de CO₂.
  • Transportar e recondicionar um carrinho corresponde a 5,50 kg de CO₂.

“Concluímos que um carrinho teria de ser recolhido 93 vezes por uma carrinha a gasóleo para atingir o mesmo impacto ambiental que fabricar um carrinho novo”, refere Raath.

Melhor do que recuperar: evitar que o carrinho seja abandonado

Embora recolher e reparar carrinhos seja claramente vantajoso do ponto de vista ambiental, a solução mais eficaz é simples: garantir que os carrinhos são devolvidos ao local certo logo após o uso - um aspecto a ter em conta na próxima ida às compras.

Importa sublinhar que este fenómeno não se limita ao Reino Unido. O estudo cita também relatos da Austrália e da África do Sul, reforçando que a ausência de devolução dos carrinhos aos seus pontos próprios tem impactos ambientais e operacionais relevantes em diferentes países.

Impactos para além do carbono: segurança, água e espaço público

Estas estimativas de dióxido de carbono são apenas uma parte do problema. Carrinhos abandonados:

  • representam riscos de segurança para peões e condutores;
  • contribuem para poluição e acumulação de resíduos em linhas de água;
  • degradam a qualidade do espaço urbano, transformando áreas públicas em focos de degradação visual.

O que pode ser feito: prevenção, dissuasão e melhoria de materiais

Os investigadores defendem que é necessário intensificar medidas para reduzir o número de carrinhos de compras abandonados - por exemplo, com maior utilização de videovigilância e com barreiras físicas que dificultem a saída dos carrinhos das zonas comerciais. Pedem também mais investigação sobre materiais e processos de fabrico e manutenção que sejam menos agressivos para o ambiente.

Além destas medidas, há outras abordagens que podem complementar a estratégia: sistemas de caução (devolvida quando o carrinho é regressado), limites de circulação com bloqueio por perímetro, e programas de cooperação entre superfícies comerciais e municípios para recolhas mais eficientes, reduzindo quilómetros percorridos e consumo de combustível.

Também a sensibilização pública pode ter um efeito directo: campanhas locais, sinalética nos parques de estacionamento e canais simples de reporte podem diminuir o abandono e encurtar o tempo de exposição dos carrinhos a vandalismo, corrosão e deslocações para linhas de água.

“Embora seja improvável conseguirmos eliminar totalmente o abandono de carrinhos, esperamos que, da próxima vez que alguém vir um carrinho numa rua estreita ou num arbusto de um parque, pense no impacto ambiental de o deixar ali inutilizado”, diz Raath.

A investigação foi publicada na revista científica Sustentabilidade.

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