E se o fim dos carros térmicos na Europa, apontado para 2035, afinal não avançasse tal como está previsto? Com a indústria a admitir que não consegue cumprir o calendário, Bruxelas prepara novas conversações em dezembro para ponderar um eventual alívio das regras e, sobretudo, ajustes nos prazos.
A decisão, formalizada em março de 2023, estabelece a interdição da venda de carros térmicos novos - incluindo híbridos - em 2035. Trata-se de uma das medidas centrais do Pacto Ecológico Europeu, com um objetivo claro: alcançar a neutralidade carbónica até 2050 e acelerar a redução das emissões de gases com efeito de estufa no setor automóvel, responsável por cerca de 15 % das emissões de CO₂ na Europa.
2035 e o fim dos carros térmicos: pressão política e pedidos de flexibilidade
Perante esta transformação profunda, a pressão dos fabricantes e de vários grandes Estados-membros intensificou-se. Alemanha, França e Itália, com indústrias automóveis simultaneamente muito fortes e particularmente expostas à transição, têm reforçado os apelos à flexibilidade. Entre as exigências do setor destacam-se:
- mais tempo para adaptar produção e cadeias de fornecimento;
- derrogações para determinados combustíveis alternativos;
- a possibilidade de continuar a comercializar híbridos plug-in;
- a manutenção de veículos elétricos com prolongador de autonomia.
Comissão Europeia prepara ajustes ao calendário dos carros térmicos
Para dar resposta a estes pedidos, a Comissão Europeia, sob a coordenação do comissário Stéphane Séjourné, deverá anunciar em dezembro novos ajustamentos. A data de 2035 poderá manter-se como referência, mas com medidas de maior flexibilidade em cima da mesa. Entre as opções discutidas estão:
- uma cláusula de revisão antecipada (inicialmente prevista para 2026);
- créditos de emissões de carbono para os construtores;
- facilitação da produção local de baterias e de tecnologias limpas no espaço europeu.
A indústria automóvel ainda não está pronta
Os construtores alertam para um conjunto de riscos: perda de competitividade, impacto no emprego e aumento significativo dos preços dos veículos elétricos. Apesar do impulso regulatório, as vendas de elétricos continuam limitadas a cerca de 15 % das novas matrículas, muito aquém de um cenário de mercado 100 % elétrico em pouco mais de uma década.
Neste contexto, vários fatores tornam-se determinantes para o sucesso da mudança:
- expansão e fiabilidade da infraestrutura de carregamento;
- redução dos custos de produção;
- aceleração da inovação tecnológica;
- manutenção de um apoio público robusto e previsível.
Estratégias divergentes na Europa: acelerar vs. alternativas
As abordagens nacionais não são homogéneas. França e Alemanha, tal como vários países nórdicos, seguem estratégias que nem sempre convergem. Enquanto alguns defendem um calendário ainda mais rápido - como Suécia, Países Baixos e Noruega, que aponta para 2025 -, outros insistem na inclusão de soluções adicionais, como:
- hidrogénio;
- biocombustíveis;
- e-fuel neutro em carbono.
O consumidor europeu no centro da mudança
O impacto no quotidiano dos cidadãos será considerável. Para além do efeito nos preços e na oferta disponível, o consumidor terá de se adaptar a novas normas, a rotinas diferentes de manutenção e a um enquadramento legal que pode evoluir rapidamente se a Comissão Europeia acolher as recomendações de construtores e Estados-membros. As próximas comunicações de Bruxelas, previstas para 10 de dezembro, deverão clarificar os contornos deste momento decisivo para o setor.
A transição também terá efeitos no mercado de usados: se a venda de novos modelos térmicos for restringida, é provável que aumente a procura por veículos de segunda mão, pelo menos durante um período de adaptação. Isso pode influenciar valores residuais, seguros e decisões de financiamento, sobretudo em países onde a renovação do parque automóvel é mais lenta.
Em paralelo, a implementação bem-sucedida dependerá de condições muito concretas no terreno - desde a capacidade da rede elétrica até à disponibilidade de carregamento em condomínios e zonas de elevada densidade urbana. No caso de Portugal, por exemplo, a cobertura de carregamento tem vindo a crescer, mas a experiência do utilizador (preços, interoperabilidade, fiabilidade e simplicidade de pagamento) será determinante para que a mudança seja aceite em massa e não apenas por quem já tem facilidade de acesso a carregamento doméstico.
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