Saltar para o conteúdo

VCBR na América do Sul: evolução do conceito, programas em curso e panoramas nacionais

Quatro militares em uniforme observam um veículo militar blindado verde durante exercício em terreno seco e montanhoso.

Nos últimos anos, os vários exércitos sul-americanos têm evidenciado um interesse crescente em reequipar as suas unidades com novas plataformas blindadas conhecidas, no nosso meio, como Veículos de Combate Blindados a Roda (VCBR). Historicamente, estes sistemas nasceram a partir da ideia de blindados orientados sobretudo para o transporte de tropas, mas foram-se transformando ao longo do tempo - tanto em termos técnicos como operacionais - para oferecer um leque mais amplo de opções aos decisores e planeadores.

Segue-se, assim, um repasso sintético (mas completo) do conceito de VCBR, das realidades actuais destes sistemas nos principais países da região, das suas origens, capacidades e também dos programas de modernização em andamento.

Sentar as bases: o que é, afinal, um VCBR?

Antes de entrar em casos concretos, é útil clarificar o que se entende por VCBR, distinguindo-os de outras plataformas terrestres presentes nos inventários nacionais. Em termos gerais, trata-se de um blindado sobre rodas, normalmente em configurações 6×6 e 8×8, capaz de desempenhar múltiplas missões.

Embora a função de transporte de tropas seja a mais associada ao conceito, um VCBR pode igualmente ser empregue em: - reconhecimento; - apoio de fogo a unidades de infantaria; - evacuação médica de emergência; - postos de comando e controlo no terreno.

A opção por rodas confere, em regra, vantagens relevantes face a plataformas de lagartas no que toca a velocidade, flexibilidade e logística. Isto traduz-se em maior capacidade de deslocação e menores exigências de manutenção ao longo do ciclo de vida - factores com peso nas decisões de investimento na região.

Em contrapartida, estes veículos tendem a ter menor estabilidade do que os equivalentes de lagartas, o que pode afectar a operação de armamento de grande calibre em acções ofensivas. Ainda assim, o conceito VCBR já demonstrou amplamente a sua aptidão para integrar armamento muito diverso, mantendo-se como alternativa versátil: desde canhões principais de 120 mm, passando por torres de 30 mm e 25 mm, até metralhadoras de 7,62 mm, entre várias outras configurações.

Dois factores muitas vezes decisivos: sustentabilidade e interoperabilidade

Para além do desempenho táctico, há dois aspectos que frequentemente moldam a escolha de um VCBR: a sustentabilidade (cadeia logística, disponibilidade de peças, custo de operação) e a interoperabilidade (doutrina, comunicações e compatibilidade com aliados e parceiros). Em muitos países sul-americanos, a pressão para reduzir custos de manutenção e acelerar a prontidão operacional leva a dar prioridade a plataformas com ecossistemas maduros, pacotes de apoio bem definidos e historial de utilização em operações reais.

Protecção e modularidade: tendências que ganham peso

Outro ponto que tem vindo a ganhar importância é a protecção contra minas e engenhos explosivos improvisados (IED), bem como a possibilidade de crescimento modular (kits de blindagem adicionais, sensores, estações de armamento e melhorias de comunicações). Mesmo quando o veículo não é, à partida, o mais moderno do mercado, a capacidade de receber incrementos - por exemplo, através de blindagem complementar, sensores térmicos e estações de armas remotamente operadas - pode alterar significativamente o valor operacional do sistema.

Argentina: novos VCBR e o caminho para uma Brigada Mecanizada a Roda

No caso da Argentina, o Exército Argentino avançou com a sua aquisição mais recente: os M1126 Stryker 8×8, comprados aos Estados Unidos após um processo prolongado, com avanços e recuos, muitas vezes influenciados por mudanças de orientação política relativamente aos países proponentes - algo também observado noutros programas de reequipamento nacionais.

Durante esse percurso foram considerados, entre outros: - os VN-1 (ZBL-09) da empresa chinesa Norinco; - o Pandur II de Excalibur/GDELS, promovido por Israel; - os Iveco Guaraní produzidos no Brasil, tendo o governo argentino chegado, inclusive, a assinar uma Carta de Intenção.

A incorporação ainda decorre. As primeiras quatro unidades foram recebidas em Dezembro passado (quase cinco anos após o pedido ao Departamento de Estado), e servirão de base para iniciar a formação da desejada Brigada Mecanizada a Roda, com a ambição de alcançar mais de 200 viaturas. O contexto político - com um alinhamento explícito da administração actual com os EUA - também pesou de forma determinante na selecção.

Apesar de não serem necessariamente os VCBR mais recentes do mercado, os Stryker são plataformas reconhecidamente capazes e com eficácia comprovada em combate, tendo sido empregues em teatros como Afeganistão, Síria e Iraque, entre outros. O desenho deu origem a uma família de 27 variantes desde o seu lançamento; as unidades recebidas pela Argentina correspondem à versão M1126 ICV 8×8 (Infantry Carrier Vehicle), orientada para transporte de tropas.

Características referidas para esta variante incluem: - capacidade para transportar equipas até nove pessoas (com equipamento); - motor Caterpillar C7 de 350 hp; - suspensão hidropneumática independente; - blindagem em aço de elevada dureza, com protecção integral contra munições 7,62 mm e protecção frontal contra 14,5 mm; - possibilidade de reforço com placas cerâmicas MEXAS 2C; - protecção NBQ.

No que toca a sensores e armamento, é conhecido que o veículo integra um visor térmico AN/VAS-5 para o condutor, em complemento aos três periscópios M-17. O comandante opera a estação de armamento remotamente controlada Protector da série M151, equipada com módulo de imagem térmica. Esta estação é compatível com: - metralhadora M2 de 12,7 mm; - FN MAG/M240; - lançador de granadas automático MK19 de 40 mm.

Em mobilidade estratégica, cada viatura pode atingir cerca de 101 km/h em estrada, com autonomia na ordem dos 450 a 500 km (também em estrada). Em dimensões, o Stryker apresenta aproximadamente 7,31 m de comprimento, 2,87 m de largura e 2,69 m de altura, com capacidade de vau em torno de 1,3 m.

Brasil: capacidades robustas e VCBR com dimensão industrial estratégica

O Brasil destaca-se como o país com maiores capacidades em matéria de VCBR na região, apoiando-se sobretudo em dois modelos para equipar as unidades blindadas do Exército Brasileiro: os Centauro II BR 8×8, produzidos pelo consórcio italiano Iveco–Oto Melara, e os já referidos Iveco Guaraní.

Centauro II BR 8×8: poder de fogo e substituição do EE-9 Cascavel

No caso do Centauro II BR, é inevitável sublinhar o seu elevado poder de fogo, materializado no canhão estabilizado L45 de 120 mm. A recepção das primeiras unidades pelo Exército Brasileiro começou em 2024, quando Brasília avançou com um lote inicial de duas viaturas para avaliações técnico-operacionais, visando validar o desempenho indicado pelo fabricante. Esse passo abriu caminho à compra de uma frota de 96 unidades adicionais, com recepções a partir de Maio de 2025 pelo 6.º Esquadrão de Cavalaria Mecanizada.

Com isto, o Exército Brasileiro iniciou o processo de substituição dos já envelhecidos EE-9 Cascavel, em serviço desde a década de 1970.

Para além do canhão de 120 mm (com alcance referido até 4 km), é indicado que o sistema inclui: - duas metralhadoras de 7,62 mm (uma coaxial e outra antiaérea); - lançadores de granadas; - sistemas avançados de pontaria, controlo de tiro e comunicações; - sistema de controlo da pressão dos pneus, favorecendo a mobilidade em diferentes terrenos; - autonomia situada em cerca de 800 km.

Iveco Guaraní: escala, protecção e impacto na indústria brasileira

O Iveco Guaraní começou a entrar ao serviço no Brasil a partir de 2012, com o objectivo de substituir os EE-11 Urutu e EE-9 Cascavel. Até ao presente, a frota ultrapassa as 700 unidades entregues.

Entre as suas características e opções de integração, destaca-se: - possibilidade de equipar metralhadoras em estação remotamente operada de 7,62 mm ou 12,7 mm; - integração de lançador de granadas de 40 mm; - progressos no desenvolvimento e incorporação da torre UT-30BR com canhão ATK Bushmaster MK44 de 30 mm; - casco com desenho em “V”, melhorando a protecção contra minas terrestres.

Para além do plano técnico, o Guaraní consolidou-se como um trunfo estratégico para a indústria militar brasileira, contribuindo para emprego, receitas de exportação e reforço de competências nacionais. Um exemplo ilustrativo é o caso das Filipinas, que adquiriram 28 unidades apesar de um veto alemão relacionado com denúncias de violações de direitos humanos; perante esse cenário, o Brasil trabalhou na substituição de componentes através de acordos com a indústria local.

Chile: LAV III para a Armada e a urgência de substituir os Mowag Piraña

O Chile apresenta uma particularidade relevante: a aquisição de um lote de VCBR destinado especificamente à Armada. Trata-se do LAV III, anteriormente operado pelas Forças Armadas da Nova Zelândia. Por cerca de 19,85 milhões de dólares (USD), um lote de 22 viaturas - proveniente de uma frota originalmente composta por 105 - passou a equipar a Infantaria de Marinha chilena.

Estes veículos foram incorporados pelo utilizador original a partir de 2003, passando a ser designados NZLAV. A produção ocorreu no Canadá, em instalações da General Dynamics Land Systems. O fabricante descreve uma configuração com torre armada com: - canhão M242 Bushmaster de 25 mm (armamento principal); - metralhadora coaxial MAG-58 de 7,62 mm; - dois lançadores de granadas de fumo de 76 mm.

Também é referida a sua experiência em combate, sobretudo nas operações da Nova Zelândia no Afeganistão, onde se registou a perda de uma unidade e várias outras foram atingidas por explosivos improvisados.

A passagem destes meios para o Chile foi viabilizada por uma avaliação feita pelo governo neozelandês em 2012, que concluiu que o número de VCBR ao serviço excedia as necessidades estratégicas definidas - abrindo a possibilidade de venda a parceiros interessados. Na altura, estimou-se que cerca de 20 viaturas se enquadrariam nessa medida, número que foi depois ampliado em mais 10 por volta de 2019.

Exército do Chile: Mowag Piraña I 6×6 e programas de modernização

Em paralelo, o Exército do Chile opera a sua própria frota de VCBR, composta pelos Mowag Piraña I 6×6. Estes veículos foram fabricados localmente sob licença pelas empresas Cardoen e FAMAE, totalizando mais de 200 unidades distribuídas pelos vários Regimentos de Cavalaria Blindada.

Ao longo de mais de quatro décadas de serviço - o que torna premente pensar num substituto a curto prazo - o Piraña I foi utilizado em múltiplas funções, incluindo: - transporte de tropas; - porta-morteiros (com sistemas de 120 mm); - defesa antiaérea (com dois canhões de 20 mm); - função anti-blindado (com canhão Oerlikon de 25 mm); - ambulância; - posto de comando.

Para prolongar a vida útil, os Mowag Piraña I foram abrangidos por iniciativas de modernização como o programa Huracán III, onde a remotorização de unidades foi uma das vertentes centrais.

Colômbia: VCBR LAV III 8×8 num processo marcado por polémica

Tal como sucede noutros casos regionais, a aquisição de novos sistemas pode ganhar destaque tanto - ou mais - pela controvérsia gerada do que pelo impacto nas capacidades de defesa. Isso aconteceu com os VCBR LAV III 8×8 actualmente operados pelo Exército Colombiano, cujo processo contratual foi iniciado em 30 de Dezembro de 2022.

Com um investimento superior a 300 milhões de dólares (USD), a operação foi alvo de uma investigação extensa por parte da Procuradoria-Geral da Nação, com diferentes relatos a apontarem sobrecustos e falta de transparência no processo de selecção. Entre os argumentos surgia a possibilidade de, com o mesmo montante, adquirir um maior número de VCBR ou optar por modelos com capacidades tecnológicas superiores. Em termos práticos, isto originou várias convocatórias do então ministro da Defesa, Iván Velásquez, e de um conjunto alargado de responsáveis ministeriais ligados ao projecto.

Entre os pontos citados à época, recorda-se que as viaturas foram compradas por um custo unitário de 5,54 milhões de dólares, valor que contrastava com LAV III incorporados pouco mais de uma década antes, então referidos em 2,62 milhões de dólares por unidade. A reforçar as suspeitas, foi também comparada a compra chilena de viaturas em segunda mão, com um valor aproximado de 900 mil dólares por unidade, leitura que em Bogotá foi vista como potencialmente questionável quanto ao uso dos recursos.

A discussão torna-se ainda mais complexa ao considerar que a Colômbia dispõe de uma frota de Textron M1117 4×4, um transporte de tropas com prestações similares ao LAV III no que respeita ao número de militares transportados, nível de blindagem e experiência real de combate. Trata-se de um modelo adquirido inicialmente em 2011, com 67 unidades entregues até 2016, às quais se juntaram 145 viaturas usadas compradas aos EUA por valores significativamente inferiores.

Além disso, dado o emprego dos VCBR em combate contra grupos insurgentes, a controvérsia intensifica-se quando se referem alternativas mais económicas e, do ponto de vista técnico, também adequadas. Em particular, deve considerar-se a produção local das famílias Hunter e Titán, já testadas no Exército Colombiano, com custo indicado de cerca de 500 mil dólares por unidade - parcialmente compensado pelo impulso à indústria nacional. Em termos simples, isto foi apresentado como significando que um LAV III implicava praticamente a mesma despesa que 10 Titán.

Peru: VCBR e a proximidade estratégica com a Coreia do Sul

No caso peruano, ganha forma uma aquisição relevante de VCBR junto daquele que se tem afirmado como o seu principal parceiro na venda de armamento: a Coreia do Sul. Em concreto, Lima fechou um acordo-quadro com a Hyundai Rotem para preparar a incorporação de 141 VCBR K808 White Tiger, além de 54 novos carros de combate K2 Black Panther para reforçar ainda mais o Exército. Para Seul, esta poderá ser a maior venda de blindados a um cliente regional, evidenciando a proximidade entre os dois países.

Apesar de a aquisição ainda não estar concretizada, ela deve ser lida não apenas pelo prisma técnico, mas também pelo seu componente industrial. A empresa sul-coreana já manifestou disponibilidade para instalar uma unidade de montagem em território peruano, durante o fórum “A Indústria da Defesa como Política de Estado”, o que permitiria também assegurar a manutenção dos blindados adquiridos e criar novos postos de trabalho por mais de uma década.

Capacidades actuais: LAV II 8×8 Caimán na Infantaria de Marinha

Quanto aos meios já existentes, o Peru possui uma frota de VCBR LAV II 8×8 Caimán ao serviço das unidades de Infantaria de Marinha. As duas primeiras viaturas foram entregues à Brigada Expedicionária Anfíbia em 2015, iniciando um ciclo de entregas até 32 unidades, adquiridas à Canadian Commercial Corporation por um valor global em torno de 67 milhões de dólares. Desde então, estes blindados têm tido participação activa em diversas actividades, incluindo os exercícios RIMPAC e UNITAS, entre outros.

Este lote corresponde à variante APC, caracterizada por permitir o transporte de equipas com até oito militares, além dos dois tripulantes necessários à operação do veículo. No momento da compra, o acordo estabeleceu a divisão das 32 viaturas em dois grupos: - 24 equipadas com metralhadoras M-2HB QCB de 12,7 mm; - 8 equipadas com lançadores de granadas MK-19 de 40 mm.

BMR-600: frota reduzida e emprego em preparação para missão da ONU

Por fim, importa referir a existência de uma frota já reduzida de BMR-600 no inventário da Marinha de Guerra do Peru, incorporada a partir da década de 1980 até perfazer 24 unidades. Com o passar dos anos, relatos indicaram uma redução para cerca de 16 viaturas em 2014, registando-se também doações de unidades à Polícia Nacional. Em 2023, nos trabalhos de preparação para envio para a missão de paz das Nações Unidas na República Centro-Africana (MINUSCA), apenas 6 unidades foram abrangidas.

Imagens utilizadas apenas a título ilustrativo.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário