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Porque muitos pais modernos se arrependem de ter filhos: “Se soubesse quão solitário seria, não teria feito”. Um desabafo que divide famílias, amigos e a internet.

Mulher segurando babá eletrónica, olhando pela janela numa sala com brinquedos de bebé no chão.

Numa terça-feira à noite, numa rua sem saída tranquila, o último baloiço do parque range no escuro. Dentro das moradias de tijolo, acendem-se luzes de cozinha, vibram tablets, roncam máquinas de lavar. Numa dessas casas, a Emma, 37 anos, escreve no telemóvel “arrependimento da maternidade” e desliza por resultados, enquanto a filha canta para a Peppa Pig no quarto ao lado. Apaga a pesquisa, volta a escrevê-la e, ao ouvir passinhos no corredor, bloqueia o ecrã num instante.

O marido acha que é só cansaço. As amigas, a publicar fotografias “#abençoada” em família, dão por garantido que está tudo impecável. A mãe repete que estes são “os melhores anos” e que um dia ela “vai ter saudades”.

A Emma adora a filha. E, mesmo assim, uma ideia instalou-se em silêncio e recusa-se a sair.

“Se eu soubesse o quão solitário isto ia ser, não tinha feito isto.”

O arrependimento silencioso que ninguém quer nomear

Há uma frase proibida a pairar sobre muitas cozinhas e bancos de parque: alguns pais e mães, em segredo, arrependem-se de ter filhos. Não das crianças enquanto pessoas - mas da vida que se dissolveu de um dia para o outro. O sono, a carreira, o dinheiro, o corpo, o casal, os laços sociais. Tudo trocado por um amor que, em certos dias, parece não chegar para compensar.

O que mudou não foi a existência do arrependimento. O que mudou foi o sítio onde ele finalmente aparece. Em vez de ser engolido no brunch ou no grupo de WhatsApp da família, escapa-se em threads no Reddit, grupos privados no Facebook e podcasts anónimos. O ecrã torna-se o lugar onde se sussurra aquilo que, cara a cara, soa impossível.

E quando alguém o diz sem rodeios, a sociedade divide-se.

Basta perder cinco minutos no TikTok ou no X para encontrar um adulto exausto a falar para a câmara, quase a pedir desculpa: “Se pudesse voltar atrás, não teria filhos.” As respostas disparam: há quem os chame monstros; há quem agradeça por, finalmente, alguém ter posto em palavras o que carregam sozinhos há anos.

Uma publicação viral de uma mãe no Reino Unido resumia assim: “Amo o meu filho acima de tudo. Arrependo-me de ter sido mãe. As duas coisas são verdade.” Vieram dezenas de milhares de gostos, milhares de respostas indignadas e centenas de mensagens privadas com um “igual”.

A investigação também está a acompanhar o fenómeno. Um inquérito de 2023 na Alemanha concluiu que cerca de 8–10% dos pais e mães dizem que, se pudessem decidir outra vez, escolheriam não ter filhos. Não é uma minoria residual: é, aproximadamente, uma em cada dez pessoas à porta da escola.

Da fantasia ao quotidiano: o choque que alimenta o arrependimento parental

Parte do escândalo nasce do embate entre a promessa e a realidade. Durante décadas, vendeu-se a parentalidade como destino, plenitude, a peça em falta para uma vida adulta “completa”. O Instagram acrescenta filtros brilhantes, as marcas empilham listas de “indispensáveis do bebé”, e até os governos reforçam uma pressão moral sobre natalidade e “futuros contribuintes”.

Depois chega o dia a dia: creches que custam mais do que uma renda em muitas cidades, culturas de escritório que elogiam “flexibilidade” mas penalizam cada chamada por doença, avós a três horas de distância, parceiros a sair tarde, amizades a esmorecer. Para muita gente, criar filhos hoje parece uma maratona a solo - com uma multidão à volta a gritar conselhos do passeio.

Se formos francos, quase ninguém atravessa isto, dia após dia, sem em algum momento imaginar como teria sido a vida noutra versão.

Um parêntesis necessário: arrependimento, exaustão e saúde mental no pós-parto

Vale a pena separar conceitos que muitas vezes se misturam. O arrependimento parental pode coexistir com depressão pós-parto, ansiedade, burnout, privação de sono e até luto por perda de identidade - mas não é automaticamente “o mesmo” que uma doença. Para algumas pessoas, tratar a depressão e regular o sono reduz o arrependimento; para outras, o sentimento persiste porque está ligado às condições concretas (falta de apoio, sobrecarga, instabilidade financeira).

Em Portugal, onde muitas famílias dependem de redes informais e onde nem sempre é fácil aceder a psicoterapia a preços comportáveis, este ponto é crucial: pedir ajuda não é dramatizar. É ajustar o peso que está a ser carregado por uma só pessoa.

Porque é que a solidão é a emoção para a qual ninguém os preparou

Quando se pergunta a pais e mães o que mais os surpreendeu, muitos não falam de fraldas nem de birras. Falam de solidão. Da sensação de estar rodeado de barulho e obrigações e, ainda assim, sentir-se apagado enquanto pessoa. Dá para estar com um bebé ao colo, online o tempo todo, em três grupos de conversa, e mesmo assim sentir que se desapareceu da própria vida.

A solidão na parentalidade não costuma ter fogos-de-artifício. É discreta. Aparece como scroll infinito às escuras enquanto a casa dorme. Como um encontro de brincadeira em que a conversa parece sempre a mesma. Como dois adultos no sofá, cada um no seu telemóvel, demasiado drenados para perguntar “como estás mesmo?”.

Não era isto que os cartões do baby shower prometiam.

O Malik, 34 anos, tornou-se pai durante a pandemia. O filho nasceu entre confinamentos, as visitas ao hospital foram apressadas, e os familiares quase sempre vistos através de ecrãs. Passou de cervejas depois do trabalho e futebol de 5 para esterilizar biberões às 2 da manhã e discutir com os Recursos Humanos dias de trabalho remoto. Adora o miúdo. Ainda assim, a embalar o berço à noite, há momentos em que deseja apenas sair pela porta e não ser necessário.

A Sara, num apartamento pequeno, viu as amigas deixarem de a convidar para jantares tardios “porque deves estar ocupada”. Observou a vida delas a expandir-se, enquanto a dela encolhia entre idas à escola e ciclos de roupa. Sempre que tentava dizer que estava a afundar-se, alguém devolvia: “Mas tu querias isto.”

A solidão alimenta o arrependimento da mesma forma que o silêncio alimenta o ressentimento.

E a arquitectura da vida moderna não ajuda. Muitas famílias criam crianças longe da família alargada, em cidades onde os vizinhos mal trocam nomes. Os horários esticam, as deslocações arrastam-se, as rendas sobem. As listas de espera para creche parecem intermináveis. Aquilo que antes era distribuído por avós, tios e irmãos mais velhos concentra-se agora em um ou dois adultos, sob o mesmo tecto - muitas vezes pequeno.

Some-se a isto a obrigação de ser um pai/mãe perfeito e eternamente agradecido. Admitir saudades da vida anterior pode soar a traição à criança, sobretudo quando há pessoas com infertilidade a ler as mesmas publicações. A vergonha entra em cena. E, por isso, engole-se o que se sente e sorri-se nas fotografias.

A distância entre o pai/mãe que nos disseram que seríamos e o pai/mãe que sentimos que somos pode ser brutal.

Um caminho possível: reconstruir rede (não apenas “aguentar”)

Um aspecto pouco falado é que a solidão não se resolve só com força de vontade. Muitas vezes, resolve-se com estrutura: combinar trocas de babysitting com outra família, criar rotinas de “pausa” com o parceiro (mesmo que seja 45 minutos por semana), ou procurar um grupo de pais local - na escola, na junta, num centro comunitário. Nem tudo substitui a aldeia antiga, mas quase tudo é melhor do que o isolamento total.

Como alguns pais e mães estão a aprender a viver com o pensamento “Se eu soubesse, não tinha feito isto”

Não existe uma frase mágica que apague o arrependimento. O que algumas pessoas estão a conseguir - devagar e com tropeços - é separar o sentimento da decisão e, sobretudo, da criança. Um ponto de partida útil é transformar “arrependo-me do meu filho” em “tenho saudades da vida que perdi” ou “odeio as condições em que estou a criar”. A nuance é pequena; o efeito pode ser enorme.

No terreno, isto passa por deixar cair pratos. A casa sempre impecável, as refeições elaboradas feitas do zero, o calendário sem fim de actividades “enriquecedoras”. Uma mãe com quem falei disse que a decisão mais libertadora foi adoptar como regra a parentalidade “suficientemente boa” e usar a energia poupada para mandar mensagem a uma amiga, dar uma caminhada sozinha ou simplesmente estar em silêncio.

O arrependimento tende a encolher quando a realidade fica, nem que seja, 10% mais humana.

Outro passo é arriscar falar com uma pessoa segura. Não a tia mais julgadora. Não o colega para quem os filhos são “tudo”. Alguém capaz de suportar ambivalência sem entrar em pânico. Muita gente começa no anonimato online e, com o tempo, leva o tema para conversas reais.

O maior erro é acreditar que ter este pensamento faz de alguém um pai/mãe perigoso ou sem amor. Os pensamentos são meteorologia; as acções são clima. Dá para, num pico de raiva, pensar “queria a minha vida antiga de volta” e, mesmo assim, levantar-se no dia seguinte, preparar a lancheira, ler a história antes de dormir e lutar por um encaminhamento para terapia. Muitas vezes, o amor está escondido nas tarefas aborrecidas e repetitivas - não na ausência de pensamentos escuros.

Não é obrigatório “consertar” sentimentos para ser um bom pai/mãe. É necessário apoio para conseguir carregá-los.

“Acham que arrependimento significa que eu não mereço a minha filha”, diz a Ana, 39 anos. “Mas o meu arrependimento tem mais a ver com uma cultura que me vendeu a maternidade como caminho para a completude e depois me deixou sozinha com um bebé cheio de cólicas e sem creche. Queria que alguém me tivesse avisado que eu podia perder partes de mim. E queria que alguém me dissesse também que tenho direito a reconstruir.”

  • Encontre um espaço honesto - terapeuta, grupo de apoio ou uma pessoa amiga - onde consiga dizer a frase exacta que lhe passa pela cabeça, sem a polir.
  • Dê nome ao que, de facto, lamenta: perda de liberdade, falta de suporte, pressão financeira, mudanças na relação, impactos na saúde mental.
  • Altere uma condição pequena mas concreta que mais lhe dói: uma hora semanal a sós, troca de tarefas com o parceiro, uma conversa séria com a chefia.
  • Deixe de seguir três contas que o/a fazem sentir um falhanço e substitua-as por vozes mais cruas, reais e gentis.
  • Lembre-se: arrependimento pode coexistir com cuidado; castigar-se pelo sentimento costuma torná-lo mais alto, não mais baixo.

Quando um sentimento privado se transforma numa falha pública

A frase “Se eu soubesse o quão solitário isto ia ser, não tinha feito isto” soa de forma diferente conforme quem a ouve. Para um filho já adulto, pode doer como uma lâmina - mesmo que não seja “sobre ele”. Para um amigo que quer muito ter um bebé e não consegue, pode ferir de outra maneira. Para alguns parceiros, activa pânico: “Arrepende-te de nós?”

E, no entanto, empurrar estas conversas para debaixo do tapete não protegeu ninguém. Só deixou milhares de pais e mães convencidos de que estão estragados de forma única. Em público, aplaudem-se anúncios de gravidez; em privado, alguns recém-pais choram no duche e perguntam-se se arruinaram a vida.

Se o arrependimento puder ser dito sem virar arma, talvez se transforme noutra coisa: um mapa das zonas onde famílias e sociedades estão a falhar com quem cria a próxima geração.

Os sentimentos não são o escândalo. O silêncio à volta deles é.

Ponto-chave Detalhe Valor para o/a leitor/a
O arrependimento costuma ser do contexto, não da criança Muitos pais e mães lamentam a perda de liberdade, de apoio ou de estabilidade, mais do que o filho/filha enquanto pessoa. Alivia a vergonha e abre espaço para perguntar o que pode mudar à sua volta, em vez de se atacar.
A solidão é um motor central A parentalidade moderna é isolada: menos “aldeia”, mais ecrãs, muita pressão laboral e pouco apoio presencial. Ajuda a perceber a dor como um problema estrutural - não como falha individual.
Pequenos passos honestos contam Uma conversa segura, um limite mínimo no trabalho ou uma hora semanal de autonomia podem amaciar o arrependimento com o tempo. Oferece caminhos concretos e realistas para sentir menos prisão, sem exigir uma revolução total de vida.

Perguntas frequentes

  • É normal, às vezes, desejar não ter tido filhos?
    É mais comum do que se admite. Raios rápidos de “queria a minha vida antiga de volta” são uma resposta típica ao stress, sobretudo com privação de sono ou falta de apoio. O que importa é o que faz com esses pensamentos, não o facto de existirem.

  • Arrepender-me da parentalidade significa que não amo o meu filho?
    Não necessariamente. Há pais e mães que amam profundamente os filhos e, ao mesmo tempo, fazem luto da vida anterior. As duas experiências podem coexistir, de forma desconfortável mas honesta.

  • Devo dizer ao meu filho que me arrependo de ter sido pai/mãe?
    Partilhar dificuldades não é o mesmo que colocar a palavra “arrependimento” nos ombros dele. Pode falar de cansaço, necessidade de ajuda ou de como a sociedade devia apoiar melhor as famílias - sem o fazer sentir que foi um erro.

  • E se o meu parceiro não compreender o que eu sinto?
    Tente descrever o que lhe faz falta e o que dói, em vez de ficar só no “arrependo-me”. Proponha mudanças específicas - divisão de tarefas, tempo a sós, terapia - para que a outra pessoa veja formas de apoiar, em vez de ouvir apenas culpa.

  • Como decidir ter filhos se tenho medo de me arrepender?
    Ouça histórias de vários tipos de pais e mães, incluindo os ambivalentes. Avalie a sua rede de apoio, a saúde mental, os seus valores. Não existe escolha sem risco - existe a escolha mais informada, ajustada à vida real que tem, e não à vida vendida em anúncios.

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