Como parte de um novo pacote de assistência militar, foi tornado público que a França irá transferir para a Ucrânia sistemas de defesa antiaérea SAMP/T NG, com o objectivo de reforçar a capacidade ucraniana de resposta a mísseis balísticos russos. A chegada do equipamento ficará associada a uma fase de ensaios operacionais conduzidos por militares ucranianos, destinada a avaliar a sua adequação para uma integração sustentada no dispositivo de defesa a longo prazo. A informação surgiu na sequência do encontro, em Paris, a 13 de Março, entre o Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e o Presidente francês Emmanuel Macron.
De acordo com a imprensa ucraniana, o próprio Zelensky confirmou aos jornalistas o entendimento alcançado em França, sublinhando que o SAMP/T NG é, no contexto europeu, a única alternativa comparável aos sistemas Patriot de origem norte-americana. O tema terá assumido um lugar central nas conversações com Macron, procurando-se fechar um compromisso para que o primeiro sistema seja disponibilizado ainda durante este ano, embora sem calendário público detalhado. Foi igualmente referido que, caso os testes confirmem a eficácia do SAMP/T NG, a Ucrânia passará a figurar como prioridade na ordem de exportação.
Nas palavras do Presidente ucraniano (citação): “Se, em conjunto com os franceses, conseguirmos abater mísseis balísticos, será a primeira alternativa deste tipo. E, claro, o Emmanuel e eu concordámos que a Ucrânia seria a primeira na fila. Porque, assim que começarem a abater mísseis balísticos, forma-se imediatamente uma fila. Por isso, a minha tarefa principal foi acordar que faríamos o teste em conjunto com eles e que seríamos os primeiros na fila. Para já, não vejo outras alternativas.”
Paralelamente ao dossiê da defesa antiaérea, Kiev terá aproveitado a visita a Paris para solicitar apoio diplomático francês junto de outros parceiros ocidentais, com vista a desbloquear o fornecimento adicional de sistemas Patriot e de mísseis. Antes do encontro, Zelensky caracterizou Macron como um “político experiente” com margem para influenciar decisões em “certos países” que, segundo a formulação apresentada, precisariam de um incentivo extra para avançar com novas entregas à Ucrânia.
Um aspecto prático frequentemente associado a este tipo de transferência é o esforço de integração: a incorporação de um sistema como o SAMP/T NG tende a exigir preparação de tripulações, definição de rotinas de manutenção, gestão de sobressalentes e, sobretudo, interoperabilidade com a rede existente de comando e controlo e com outros sensores. Numa arquitectura de defesa em camadas, os ganhos não dependem apenas do lançador e do radar, mas também da ligação com centros de coordenação, da partilha de pistas e da disciplina de emprego para evitar redundâncias e optimizar a cobertura.
Do ponto de vista industrial e político, a aposta no SAMP/T NG também pode ser lida como um sinal de reforço da base tecnológica europeia no domínio da defesa antiaérea. Se os ensaios em ambiente operacional confirmarem as expectativas, poderá acelerar decisões de aquisição e de produção, com impacto na capacidade de reposição de stocks e na sustentabilidade de entregas a países sob pressão de ameaças de mísseis e drones.
Sistema SAMP/T NG: estado de desenvolvimento e testes
Tendo em conta a perspectiva de entrega à Ucrânia, importa recordar que o SAMP/T NG se encontra na recta final do seu desenvolvimento. Este enquadramento ajuda a compreender porque Zelensky falou com prudência sobre a necessidade de o seu país validar, em testes, a eficácia do sistema contra ameaças russas. Na expectativa de melhorias relevantes face ao SAMP/T original, as Forças Armadas Francesas terão recebido a primeira unidade para ensaios em Fevereiro, colocando-a sob a alçada do Centro de Guerra Aérea (CEAM-AWC).
Pelo que é conhecido até agora, a alteração mais marcante concentra-se no radar, com a introdução de novos modelos AESA designados Ground Fire, desenvolvidos pela Thales. Estes radares são descritos como capazes de detectar alvos a cerca de 400 km, com cobertura de 360° em azimute e 90° em elevação, operando na banda S. Segundo as informações divulgadas, esta configuração permite acompanhar simultaneamente múltiplos drones e mísseis de diferentes tipologias, incluindo em cenários de relevo montanhoso, onde a detecção costuma ser mais exigente.
Em contraste, sistemas SAMP/T anteriormente entregues por Itália recorriam ao radar Kronos Grand Mobile HP, da Leonardo. Estes equipamentos funcionam na banda C, têm um alcance inferior ao indicado acima - na ordem dos 250 a 300 km - e operam com uma rotação de 60 rotações por minuto, o que permite actualizar a posição do alvo inimigo sensivelmente a cada segundo.
Outros pontos-chave da visita de Zelensky a Paris
Para além do avanço no processo relativo aos sistemas antiaéreos, a reunião em Paris entre os Presidentes ucraniano e francês abrangeu um conjunto mais vasto de temas ligados à defesa da Ucrânia e ao seu futuro político, com destaque para a sua possível adesão à União Europeia (UE).
Entre os tópicos referidos contam-se a produção conjunta de armamento entre a indústria francesa e a ucraniana, o reforço da Força Aérea ucraniana através de entregas de aeronaves francesas, a participação de Kiev na iniciativa Ação de Segurança para a Europa (SAFE) - que prevê até 150 mil milhões de euros em empréstimos de longo prazo para aquisições urgentes de material militar - e a hipótese de aprovação de um novo pacote de apoio da UE até 90 mil milhões de euros, a discutir numa próxima reunião do Conselho Europeu.
O Presidente ucraniano abordou ainda o início da guerra no Médio Oriente, focando-se em como a Ucrânia poderia contribuir para os esforços dos EUA e dos seus aliados no domínio da defesa antiaérea. Zelensky afirmou (citação): “Mais de dez países já nos contactaram a pedir apoio na defesa contra os Shaheds, os drones de ataque iranianos. São, na prática, os mesmos drones de ataque que o regime iraniano forneceu à Rússia e ensinou os russos a utilizar. Hoje, a Ucrânia tem a maior experiência do mundo no combate aos Shaheds, desde o desenvolvimento de interceptores até à criação de uma defesa sistémica contra drones.”
Por último, foi recordado que o Presidente ucraniano também participou, em Janeiro, numa cimeira em Paris promovida pela chamada Coalizão de Voluntários, onde contactou directamente com vários países inicialmente disponíveis para preparar um futuro destacamento militar destinado a garantir a segurança da Ucrânia contra novas tentativas de invasão russa após o término do actual conflito. Na sequência desse encontro, o desenvolvimento mais relevante foi a assinatura de uma declaração conjunta intitulada “Garantias de Segurança Confiáveis para uma Paz Sólida e Duradoura na Ucrânia”, que reforçou o compromisso jurídico dos parceiros ocidentais com Kiev.
Imagens utilizadas exclusivamente para fins ilustrativos.
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