A União Europeia (UE) tem vindo a apontar um rumo claro: centros urbanos com ar mais respirável, menos emissões e, a médio prazo, a transição para o fim dos motores de combustão. Ainda assim, quando se olha para o que realmente circula nas estradas europeias, percebe-se que o parque automóvel está muito longe de acompanhar essa meta.
Em 2024, essa distância entre a ambição e a realidade tornou-se ainda mais evidente. A idade média dos automóveis na UE subiu para 12,7 anos, estabelecendo um novo máximo histórico. Em Portugal, a situação é ainda mais pesada: a idade média atingiu 14,1 anos e acumulam-se mais de 1,5 milhões de veículos com mais de 20 anos.
É precisamente a partir destes indicadores que começa o mais recente episódio do Auto Rádio, o podcast da Razão Automóvel com o apoio do Pisca Pisca. Com base nos dados mais recentes da ACEA (Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis), analisamos o que está a falhar nas políticas europeias e por que motivo o parque automóvel não só continua a aumentar, como também a envelhecer.
Um parque maior, apesar das restrições
Apesar de um quadro regulatório cada vez mais apertado, 2024 fechou com mais carros a circular. O número de automóveis em circulação na Europa cresceu 1,4%, alcançando cerca de 302 milhões de veículos. Comparando com 2020, isso representa mais 15 milhões de automóveis nas estradas europeias.
Este aumento acontece num contexto de medidas sucessivamente mais exigentes para o automóvel, incluindo: - limites de emissões mais restritivos; - inspeções técnicas mais rigorosas; - criação e expansão de zonas de baixas emissões; - regras mais apertadas para veículos em fim de vida.
Em números absolutos, Alemanha, Itália e França lideram naturalmente. No entanto, os maiores saltos percentuais surgem noutros países: Letónia (+9,2%), Irlanda (+4,8%), Croácia (+4,5%) e Roménia (+4,2%). Esta dinâmica levanta questões relevantes sobre o fluxo de automóveis usados dentro da Europa, até porque alguns destes mercados contam também com das idades médias mais elevadas do parque circulante.
Portugal não foge ao padrão: em 2024, o parque automóvel aumentou 3,8%, aproximando-se dos seis milhões de veículos (considerando apenas ligeiros de passageiros). Num único ano, entraram em circulação nas estradas portuguesas cerca de 220 mil automóveis.
Um dos ângulos que ajuda a explicar esta tendência é o facto de muitas famílias e empresas estarem a adiar a substituição do carro, quer por custo de aquisição, quer por incerteza sobre a tecnologia a escolher. Quando a renovação é adiada, o parque cresce menos “por substituição” e mais “por acumulação”, especialmente em agregados familiares com mais do que um veículo.
Também pesa a realidade prática da transição: a disponibilidade de carregamento, a previsibilidade do custo total de utilização e a diferença de preços entre novo e usado continuam a empurrar muitos condutores para o mercado de segunda mão - o que pode intensificar a circulação de veículos mais antigos entre países.
Envelhecimento do parque automóvel europeu: carros mais velhos, tecnologias mais antigas
O aumento do parque automóvel caminha lado a lado com o seu envelhecimento - e isso vê-se na tecnologia que domina a estrada. No conjunto europeu, os modelos a gasolina (49%) e a gasóleo (Diesel) (37,3%) continuam a representar a maioria esmagadora do parque circulante.
As soluções mais recentes, apesar do crescimento contínuo nas vendas, ainda têm um peso global relativamente reduzido: - elétricos (3,78%) - híbridos (4,32%) - híbridos plug-in (2,44%)
Neste episódio, olhamos para lá dos totais e das percentagens para perceber o que está por detrás deste desfasamento entre a ambição política e a vida real - sobretudo no impacto que pode ter nas contas das emissões reais, e não apenas nas que ficam registadas “no papel”.
Pode ler o relatório completo da ACEA aqui.
Encontro marcado no Auto Rádio para a próxima semana
Razões para acompanhar este tema não faltam. O Auto Rádio regressa na próxima semana às plataformas habituais: YouTube, Apple Podcasts e Spotify.
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