A administração Trump estará a analisar com seriedade a hipótese de lançar uma operação militar para assumir o controlo da ilha de Kharg, o principal nó petrolífero do Irão. Uma decisão deste tipo seria uma escalada de grande dimensão, com potencial para transformar o conflito em curso numa crise de alcance global.
De acordo com informações divulgadas pelo Axios, Washington terá colocado em cima da mesa a possibilidade de se apoderar deste território no golfo Pérsico, situado a cerca de 25 quilómetros da costa iraniana. Apesar de pouco conhecida fora dos círculos estratégicos e energéticos, a ilha funciona como um verdadeiro centro de gravidade da economia iraniana.
Não é, aliás, a primeira vez que esta zona entra no radar dos Estados Unidos. Já em 1979, durante a crise dos reféns, foram delineados cenários para a sua tomada. Mais tarde, na guerra Irão–Iraque (1980–1988), a ilha - fortemente defendida - resistiu a sucessivos bombardeamentos, mantendo, ainda assim, a capacidade de escoar crude. Agora, volta a surgir como alvo prioritário de uma estratégia de pressão e demonstração de força.
A ilha de Kharg como alavanca para asfixiar o Irão e pressionar a China
O interesse não é por acaso: a ilha de Kharg alberga o terminal por onde passam cerca de 90% das exportações de crude iraniano. Para Donald Trump, controlar este ponto equivaleria a cortar o principal “pulmão” financeiro de Teerão, deixando o regime economicamente estrangulado e, por consequência, com menor margem para sustentar o esforço de guerra ou financiar o seu programa nuclear.
O impacto, porém, não se ficaria pelas fronteiras iranianas. Ao controlar Kharg, os Estados Unidos estariam também a atingir, de forma indirecta, outro actor central: a China. Pequim é actualmente o maior beneficiário do petróleo iraniano, comprando-o em grandes volumes apesar das sanções internacionais. Ao reduzir o acesso chinês a essa fonte de energia, Washington procuraria reafirmar a sua capacidade de moldar o tabuleiro estratégico - com o risco de provocar um agravamento sério das tensões com a segunda maior potência mundial.
Há ainda um componente operacional frequentemente subestimado: a gestão efectiva de uma infra-estrutura energética sob controlo militar exige segurança marítima contínua, capacidade de defesa antiaérea e protecção contra sabotagem. Mesmo que a tomada fosse rápida, manter o terminal funcional e protegido seria uma operação prolongada, cara e vulnerável a ataques assimétricos.
Choque nos mercados e subida do preço do barril?
As repercussões económicas podem ser imediatas. A implementação desta estratégia teria grande probabilidade de fazer disparar o preço do barril, que já se encontra pressionado pelo contexto de guerra e pela incerteza nos fluxos energéticos. Num mercado tenso, analistas antecipam volatilidade extrema, possível nervosismo nas bolsas e uma subida acentuada - potencialmente histórica - dos preços nos postos de combustível para consumidores ocidentais.
Para a Europa, incluindo Portugal, um salto prolongado nos preços da energia tende a traduzir-se em inflação importada, maior custo de transporte e pressão sobre empresas intensivas em energia. Mesmo com diversificação de fornecedores, o petróleo é um mercado global: quando a oferta é ameaçada, o impacto espalha-se por toda a cadeia.
Uma “linha vermelha” para Teerão e o risco do estreito de Ormuz
Do ponto de vista iraniano, a ilha de Kharg é uma autêntica “linha vermelha”. O regime já terá sinalizado que qualquer tentativa de ocupação desencadearia uma retaliação total, podendo incluir o bloqueio do estreito de Ormuz - passagem crítica para o comércio energético mundial.
Neste braço-de-ferro, a administração americana estaria a jogar uma carta de risco elevado: cada passo pode gerar respostas em cadeia, elevar a probabilidade de confrontos regionais alargados e empurrar o sistema internacional para uma zona de incerteza onde um incidente, por menor que seja, pode ter consequências desproporcionadas.
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