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Adeus às redes sociais: decidi fazer desmame durante 7 dias. Missão cumprida?

Mulher a alongar-se enquanto estuda à mesa com caderno, calendário, telemóvel e chá quente numa cozinha iluminada.

Há várias semanas que tenho vivido uma experiência cada vez mais “desligada”. De cada vez, tento ir um pouco mais longe e puxar por mim, para perceber até onde consigo ir sem me esconder atrás do ecrã. Depois de passar uma noite sem telemóvel e, mais tarde, um fim de semana inteiro, resolvi atacar o que mais me prende quando pego no smartphone: as redes sociais.

Basta um toque para ver “stories”, fazer scroll sem pensar no X (ex-Twitter) porque no metro não me apetece fazer mais nada (ou não tenho vontade), ou abrir o TikTok ao chegar a casa para “desligar” do trabalho. Mesmo quando tento impor limites, a verdade é que estas plataformas continuam a infiltrar-se em tudo. Por isso, decidi: parar redes sociais. Pelo menos, durante uma semana.

Quando contei o desafio, a resposta foi sempre a mesma: “Mas como é que vais conseguir?” Eu limitava-me a encolher os ombros: “Logo se vê… uma semana passa num instante, não?” A confiança não era muita, mas a motivação estava lá - por mais difícil que parecesse.

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O que é, afinal, uma rede social? (e o que entra nesta digital detox)

Chega segunda-feira e é hora de cortar acessos. Enquanto configuro o telemóvel para bloquear aplicações, surge uma dúvida inesperada: o que conta, concretamente, como rede social? O que é que devo “congelar” de verdade?

Há escolhas óbvias: TikTok, X (ex-Twitter) e Instagram - que eu já tentava limitar durante o horário de trabalho para não me dispersar. Mas outras deixaram-me a hesitar: e o WhatsApp? E o YouTube?

Depois de falar com pessoas à minha volta e de levar o tema para a redação (onde isto virou debate), ficou decidido: WhatsApp e Messenger passam por pouco, mas o YouTube vai para o mesmo “castigo”.

No fundo, uma rede social é uma plataforma online onde é possível criar um perfil, publicar conteúdos e interagir com outras pessoas através de gostos, comentários, subscrições/seguimentos e mensagens - construindo uma rede. Duas ideias são essenciais: interação e comunidade. Por esta lógica, o YouTube encaixa, mesmo que eu o use quase sempre apenas como entretenimento. Se toda a gente concorda, então é oficial: também me despeço dele.

Quanto às apps de mensagens instantâneas, a questão é mais cinzenta. Tecnicamente, o WhatsApp pode ser rede social dependendo do uso. Na prática, para mim é ferramenta de comunicação pessoal e profissional. Fica mesmo no limite - mas foi aceite. Ainda bem.

Durante 7 dias, fiquei sem acesso a:

  • TikTok
  • X (ex-Twitter)
  • Instagram
  • BeReal
  • Facebook
  • LinkedIn
  • Bluesky
  • YouTube
  • Twitch
  • Snapchat

A pasta “Redes sociais” no meu smartphone ficou toda a cinzento. A experiência podia começar.

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Dificuldades inesperadas (e hábitos mais automáticos do que eu pensava)

Nem passaram 30 minutos desde o início oficial da semana sem redes sociais e eu já estava a fazer o mesmo gesto de sempre: desbloquear o telemóvel e abrir a pasta “Redes sociais”, pronta para carregar no Instagram ou no X (ex-Twitter). Reflexo de transportes públicos - sabem como é.

Fiquei ali, meio parva, a olhar para as apps bloqueadas. Pensei em sacar do meu leitor digital, mas não me apetecia ler; além disso, estava no fundo do saco tote, e eu ia “em sanduíche” numa carruagem cheia, na linha 11. Desisti: música nos auriculares e olhar à volta. Percebi logo que não ia ser tão simples como “é só uma semana”.

Quando cheguei à redação, quis mostrar um café giro que tinha visto… no Instagram. Enfim. E, a meio da manhã, naquele momento em que se quer fazer uma pausa entre dois artigos, deu-me vontade de desligar o cérebro - só que o meu “brainrot” (aquela distração vazia que nos anestesia) estava proibido. Abri o Chess.com. Não é propriamente descanso mental, mas ao menos era uma pausa… e quase dá para chamar “útil”.

Apesar destes automatismos do primeiro dia, não senti propriamente abstinência. E a primeira noite ajudou: estava tão preenchida que nem tive grande tempo para pensar no assunto.

O primeiro instante em que a proibição me irritou a sério veio na segunda noite. Depois de um dia longo de trabalho, ainda por cima a terminar num evento profissional, só queria uma coisa: deitar-me e ver um vídeo no YouTube antes de dormir. E aí, claro, bati na parede. Cansada demais para ler ou jogar, escolhi algo que me limpasse a cabeça como 10 minutos de scroll no TikTok: um episódio de Love Is Blind na Netflix. Pronto - estava encontrado o meu “brainrot” alternativo da semana.

Com os dias, instalei um novo hábito: quando me aborrecia nos transportes ou precisava de uma pausa no trabalho, fazia puzzles de xadrez ou jogava online (ou contra um bot). No fim de contas, a ausência das redes sociais quase não mexeu comigo. Não fiquei a pensar nas BeReals perdidas nem nas “stories” dos amigos que não vi. O que me fez mesmo falta, de forma clara, foi o YouTube.

Um detalhe que eu não previ: aprender coisas sem YouTube e TikTok

Na terceira noite, decidi começar uma atividade nova: bordado. Tinham-me oferecido recentemente um kit completo - parecia a oportunidade ideal. Só que, sem YouTube e TikTok, fiquei sem acesso àquela avalanche de tutoriais em vídeo que, para quem começa do zero, são ouro.

Mesmo com a ajuda do ChatGPT, percebi rapidamente que não ia muito longe sem ver alguém a fazer. Respirei fundo e aguentei a frustração. Felizmente, colegas com mais experiência ofereceram-se para me ensinar no dia seguinte. Acabou por ser o momento mais irritante desta semana - e eu nunca diria que o “calcanhar de Aquiles” da minha digital detox seria a fome de tutoriais para uma noite de bordado. Ainda assim, visto de longe, teve um lado bom: obrigou-me a partilhar a aprendizagem com outras pessoas. Ponto para a semana sem redes sociais.

Dois ajustes que tornaram esta semana mais sustentável (e que eu não tinha planeado)

Uma coisa que descobri pelo caminho foi que “cortar redes sociais” não resolve tudo se o resto do telemóvel continuar a puxar por nós. Por isso, acabei por mexer noutros detalhes: reduzi notificações não essenciais e reorganizei o ecrã inicial para não ter atalhos tentadores à vista. Não é uma transformação milagrosa, mas ajuda a quebrar o piloto automático.

Também notei uma diferença nas relações: sem o ritual de “ver o que toda a gente anda a fazer”, dei por mim a enviar mais mensagens diretas e a combinar coisas com mais intenção. É menos imediato e mais trabalhoso, sim - mas também mais real.

A exceção que não estragou a experiência

Apesar de não sentir grande falta das redes sociais, acabei por furar o jejum - mas por um motivo legítimo. Uma das minhas colegas de casa ia sair e o tempo apertava para encontrar alguém para ocupar o quarto. Com a urgência em cima, não me pareceu justo dizer à outra colega que eu “não podia” publicar a informação numa story do Instagram.

Assim, quebrei a pausa apenas para:

  • publicar a story de procura no Instagram;
  • ver, ao longo do dia, as mensagens relacionadas com isso na app.

Tentei ao máximo não abrir outras conversas privadas nem stories de amigos que não tivessem ligação ao tema. Mas tenho de admitir: a vontade estava lá. Há hábitos que não desaparecem só porque nós queremos.

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Veredicto: limitar faz bem

Ao fim de uma semana sem redes sociais, senti-me… bem. Melhorei no xadrez, comecei a bordar, avancei a sério no meu novo videojogo (vale a pena espreitar Tiny Bookshop na Switch - é mesmo excelente) e ainda entrei no comboio do Love Is Blind de que toda a gente falava. O saldo foi claramente positivo.

A restrição terminou, mas optei por não “descongelar” já as redes sociais - com uma exceção: o BeReal, porque a lógica da app não assenta no scroll infinito.

Claro que voltei a permitir-me alguns momentos no Instagram, TikTok e X (ex-Twitter), mas gostei desta versão mais equilibrada. Resta saber se consigo manter uma utilização mais controlada no dia a dia ou se acabo por ceder e voltar aos velhos padrões.

Falta-me só uma etapa para fechar este caminho mais desconectado. Há meses que tenho vindo a esticar os meus limites para reaprender a viver com o smartphone sem ficar presa às suas garras - sem andar a mendigar a dopamina que ele promete com bolinhas vermelhas e notificações.

Para terminar esta digital detox, falta o mais duro: largar o smartphone durante 1 mês e voltar ao essencial com um *dumbphone. Mas será que consigo? Quando o telemóvel manda em praticamente tudo e nos dá um conforto enorme por ter “tudo à mão”, este mês promete ser intenso. O veredicto chega em breve, no último episódio de *REBOOT**.

Os outros episódios da série REBOOT

  • Sobrevivi 1 semana sem redes sociais (Ep. 4/5)
  • Fui passar um fim de semana sem smartphone: a pior ideia da minha vida? (Ep. 3/5)
  • Paguei para passar uma noite sem o meu smartphone (Ep. 2/5)
  • Digital detox: necessidade real ou apenas uma tendência? (Ep. 1/5)

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