A forma como as pressões de selecção actuam sobre os seres humanos poderá ter sofrido uma mudança profunda, colocando-nos perante um ponto de viragem importante no nosso percurso evolutivo.
Várias equipas de cientistas defendem que a cultura humana - tecnologia, medicina e uma capacidade invulgar de colaboração e resolução colectiva de problemas - pode hoje estar a moldar a evolução humana de modo mais determinante do que as pressões ambientais e as limitações do nosso corpo.
Evolução humana entre genes e cultura: uma transição em curso
Grande parte das soluções que criamos para facilitar a vida, desde o aquecimento central até às lentes de contacto, resolve desafios biológicos a uma velocidade muito superior àquela a que a evolução genética consegue responder. Ao fazê-lo, estas soluções reduzem a necessidade de adaptações herdadas geneticamente, porque atenuam - ou mesmo removem - as pressões que antes penalizavam a sobrevivência e a reprodução.
O investigador em evolução cultural Tim Waring, da University of Maine, co-autor de um estudo sobre o tema publicado em Setembro de 2025, descreveu o momento actual como uma mudança de “andamento”:
“A evolução humana parece estar a mudar de velocidade. Quando aprendemos uns com os outros competências úteis, instituições ou tecnologias, estamos a herdar práticas culturais adaptativas. Ao revermos a evidência, vemos que a cultura resolve problemas muito mais rapidamente do que a evolução genética. Isto sugere que a nossa espécie está a meio de uma grande transição evolutiva.”
Como a evolução costuma funcionar (e exemplos clássicos)
A evolução - o processo pelo qual os organismos se transformam gradualmente através de variação genética herdável - tende a ser lenta e a desenrolar-se ao longo de muitas gerações. Em regra, é o ambiente que impõe pressões de selecção, favorecendo os genes que aumentam a probabilidade de sobrevivência e de transmissão à descendência.
Um exemplo conhecido em humanos envolve a malária. Em regiões tropicais onde a doença é frequente, também é mais comum encontrar genes associados à anemia falciforme. Isso acontece porque pessoas com uma única cópia do gene falciforme tendem a ter maior protecção contra a malária, o que aumenta a sua probabilidade de sobreviver e de transmitir esse gene aos filhos.
A cultura também selecciona - mas agora pode dominar
Ao longo da história humana conhecida, a cultura não foi neutra do ponto de vista evolutivo: também criou condições que alteraram quais as características mais vantajosas.
A capacidade de digerir lactose na idade adulta, por exemplo, terá provavelmente surgido e sido favorecida em culturas pastorícias iniciais, onde o consumo de leite trazia vantagens nutricionais. Noutro caso, numa população francesa-canadiana isolada da Île aux Coudres, a idade a que as mulheres têm o primeiro filho diminuiu ao longo de 140 anos - uma mudança evolutiva que se reflecte ao nível genético.
Waring e o seu co-autor, o ecólogo evolutivo Zachary Wood (também da University of Maine), sublinham que os humanos continuam a evoluir e que as pressões ambientais ainda moldam grande parte desse processo. A diferença, argumentam, é que a cultura passou a ser o factor dominante na forma como essas pressões se expressam.
Wood resumiu esta ideia de forma provocadora: a evolução cultural ultrapassa largamente a evolução genética - a diferença, diz ele, nem sequer é próxima.
Quando a tecnologia não cria adaptações - mas retira pressões
Isto não significa necessariamente que a cultura esteja a gerar novas adaptações genéticas. Em muitos contextos, o que a cultura faz é reduzir a mortalidade e outras desvantagens que, noutros tempos, encurtariam a vida ou diminuiriam a probabilidade de ter descendência.
No passado, em casos em que o bebé era demasiado grande para o canal de parto, a mãe poderia morrer durante o parto. Hoje, uma cesariana pode permitir que a mãe sobreviva e até venha a ter outros bebés grandes no futuro.
Também existem curas para doenças como a peste, embora a pandemia que devastou a Europa no século XIV tenha deixado marcas que ainda podem ser detectadas nos genomas dos descendentes de sobreviventes - um lembrete de como eventos históricos podem exercer selecção genética intensa quando não há “amortecedores” culturais e médicos.
Uma teoria mensurável: cultura mais rápida do que genes
Para além de defenderem a tese, Waring e Wood propuseram uma teoria testável: como a cultura evolui muito mais depressa do que os genes, poderá estar a conduzir uma mudança gradual na forma como os traços humanos são moldados. Com base nisso, desenvolveram métodos quantitativos para estimar a rapidez com que esta transição pode estar a acontecer.
Os resultados obtidos pelos autores sugerem que a transição já pode estar em curso - e que poderá mesmo estar a acelerar.
Waring propôs uma pergunta simples para ilustrar o fenómeno: para os resultados da sua vida, o que pesa mais - os genes com que nasceu, ou o país onde vive?
Na sua leitura, o bem-estar e as oportunidades de cada pessoa são, cada vez mais, definidos por sistemas culturais à sua volta - a comunidade, o Estado, as infra-estruturas, as tecnologias - e cada vez menos apenas pela biologia individual. Além disso, a influência cultural tende a aumentar ao longo do tempo, porque a cultura acumula soluções adaptativas com maior rapidez.
Consequências possíveis: selecção natural relaxada e dependência cultural
Alguns investigadores consideram que esta mudança pode ter implicações mais profundas. Se a tecnologia continuar a proteger os humanos contra efeitos que, noutros tempos, seriam filtrados pela selecção natural, o próprio funcionamento da evolução a longo prazo poderá alterar-se.
Um artigo publicado em Junho de 2025, de uma equipa internacional liderada pelo microbiologista Arthur Saniotis, da Cihan University-Erbil (Iraque), sustenta que a humanidade foi tão eficaz a reduzir pressões externas de selecção que poderá ter enfraquecido a sua própria trajectória evolutiva.
Saniotis e colegas sugerem que poderão vir a ser necessários diversos melhoramentos médicos e tecnológicos para compensar aquilo que descrevem como efeitos prejudiciais nos fenótipos humanos resultantes do relaxamento da selecção natural. Em termos práticos, a ideia é que, ao melhorarmos as condições de vida por via cultural e tecnológica, podemos ter criado um ciclo em que precisamos de continuar a recorrer a essas ferramentas para manter a sobrevivência e a saúde ao nível actual.
Esta hipótese é polémica, por tocar em conceitos que ecoam a história inquietante da eugenia e por levantar questões difíceis sobre até onde deve ir o uso de tecnologia para moldar a biologia humana. Ainda assim, nem todos os caminhos apontam para mais “intervenção” biotecnológica.
O papel das sociedades: cooperação como vantagem evolutiva
Waring destaca que a organização cultural pode tornar os grupos mais cooperativos e eficazes. Se a herança cultural continuar a sobrepor-se à herança genética no peso que tem sobre a sobrevivência e o sucesso, então o destino individual - e o futuro da espécie - poderá depender cada vez mais da robustez, adaptabilidade e qualidade das nossas instituições e sociedades.
Em termos práticos, isto também implica que factores como educação, acesso a cuidados de saúde, confiança social e capacidade de resposta colectiva a crises (por exemplo, epidemias, conflitos ou alterações climáticas) passam a funcionar como “motores” de resultados biológicos e demográficos. A cultura, neste sentido, não é apenas um contexto: torna-se um mecanismo activo que selecciona comportamentos, oportunidades e riscos.
Por outro lado, a força desta influência cultural não é distribuída de forma igual. Desigualdades no acesso a tecnologia e medicina podem fazer com que diferentes populações experienciem pressões de selecção distintas, mesmo num mundo globalizado - o que sugere que a evolução humana pode tornar-se mais heterogénea, não por climas diferentes, mas por sistemas sociais diferentes.
O artigo de Waring e Wood foi publicado na revista Bioscience.
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