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Este homem de 94 anos já não pode conduzir, mas continua a ter de pagar o leasing do carro.

Carro eléctrico cinza brilhante exposto em sala de showroom com janelas amplas e cadeiras modernas.

Um caso envolvendo um homem de 94 anos, residente no sul de França, está a reacender a discussão sobre contratos de leasing com pessoas muito idosas. A família só se apercebeu do problema quando começou a organizar a ida do senior para um lar: afinal, ele tinha assinado um leasing de um Citroën C4 já perto dos 92 anos, com vigência até 2027 e sem uma protecção efectiva para situações de doença, incapacidade ou morte.

Quando um contrato de leasing passa a dominar a vida de um senior muito idoso

O homem, a quem a imprensa francesa chama “Max”, vive actualmente num lar em Salon-de-Provence. Tem 94 anos, desloca-se em cadeira de rodas e, por motivos clínicos, já não pode conduzir. O problema é que o Citroën C4 continua parado e sem uso num parque de estacionamento, enquanto a prestação mensal, na ordem dos 700 €, continua a ser debitada.

Quando os familiares analisaram a documentação, o choque foi imediato. O neto, Philippe, acreditava que o avô tinha comprado o carro de forma tradicional. Em vez disso, encontrou um contrato de leasing relativo a um automóvel novo avaliado em mais de 34.000 €, celebrado quando o avô tinha 92 anos. Além do valor base, estavam associadas várias coberturas e serviços adicionais, que fizeram o custo total subir ainda mais.

Um homem de 94 anos continua a pagar perto de 700 € por mês por um carro que, por razões de saúde, não pode - nem está autorizado a - conduzir.

A pressão financeira tornou-se pesada: às despesas do lar e aos encargos correntes juntou-se uma prestação mensal que, na prática, se assemelha mais a um orçamento de viatura de empresa do que a uma gestão típica de reforma. Para a família, um negócio que parecia banal transformou-se num problema com impacto directo na estabilidade económica.

Contrato até 2027 e (quase) nenhuma protecção real

O que torna a situação ainda mais difícil é que as apólices adicionais contratadas pelo senior pouco resolvem. A família percebeu que não existia uma protecção robusta que permitisse terminar o contrato em caso de doença grave, incapacidade ou morte, ao contrário do que muitas pessoas assumem quando ouvem falar de “seguros” associados ao leasing.

Segundo Philippe, a obrigação de pagamento poderá manter-se mesmo em caso de falecimento do avô. Do lado das entidades envolvidas, a resposta remete para as cláusulas assinadas: em regra, as rendas do leasing são devidas até ao final do prazo, salvo se a família optar por uma liquidação antecipada através de um pagamento único elevado.

Entretanto, algumas coberturas extra conseguiram ser canceladas. No entanto, o contrato principal do automóvel permanece activo. Traduzindo em números: até 2027, continuam a vencer-se, mês após mês, várias centenas de euros por um veículo que se tornou, na prática, inutilizável.

Como funcionam, do ponto de vista legal, os contratos de leasing com seniores

Em termos jurídicos, estes casos tendem a situar-se numa zona complexa. Tanto em França como noutros países europeus, vigora um princípio-base: quem tem capacidade para contratar pode assinar contratos, independentemente da idade. Ou seja, à partida, a lei não trata de forma diferente um cliente de 25 anos e um de 92.

Ainda assim, um contrato pode ser contestado mais tarde se um tribunal concluir que, no momento da assinatura, existia incapacidade para compreender o alcance do compromisso (por exemplo, por défice cognitivo significativo) ou se houver fundamento para abuso de fragilidade - isto é, aproveitar-se de uma situação de vulnerabilidade. O problema é que, na prática, provar estas circunstâncias costuma ser difícil e exige elementos médicos, factuais e testemunhais consistentes.

Em paralelo, há também a lógica da não discriminação: um concessionário não pode recusar um cliente apenas por ser idoso. Foi precisamente este argumento que a sucursal da Citroën envolvida invocou: não teria legitimidade para negar o contrato a um homem de 92 anos se este aparentasse estar em condições de assinar e compreender o acto.

A família à procura de uma saída: negociação, provas médicas e impasse

Para Philippe e restantes familiares, a experiência é descrita como uma armadilha. Procuraram o concessionário por várias vezes e apresentaram atestados médicos que confirmam que Max não deve conduzir e necessita de cadeira de rodas.

O neto afirma ainda que o vendedor já teria conhecimento de problemas de saúde anteriores. Max seria cliente habitual e recorria com frequência à oficina por incidentes menores e pequenos toques. Por isso, a família considera moralmente discutível a venda, a alguém com mais de 90 anos, de um automóvel com 130 cv e um compromisso financeiro prolongado.

Para os familiares, o quadro parece quase “de manual”: preço elevado, prazo longo, protecção inadequada e um cliente com mais de 90 anos.

A resposta do concessionário é percepcionada como pouco flexível: ou a família continua a pagar até 2027, ou procede a uma compra antecipada do veículo por mais de 20.000 €. Em ambos os cenários, o esforço financeiro é difícil de suportar.

Possível processo judicial e o papel dos tribunais

Como as conversas apenas resultaram em promessas vagas de “soluções em avaliação”, a família admite avançar para tribunal com a alegação de abuso de fragilidade. Em contextos europeus, este tipo de acusação pode ter consequências no plano civil e, consoante o enquadramento, também no plano criminal.

Num litígio, caberia ao juiz avaliar se, no momento da assinatura, o senior conseguia perceber a dimensão do compromisso. Também seriam escrutinadas as práticas comerciais: houve minimização de riscos? O vendedor ignorou sinais de fragilidade cognitiva? O cliente foi encaminhado para produtos que não faziam sentido para a sua realidade?

Há ainda um factor prático: estes processos tendem a ser longos, dispendiosos e emocionalmente desgastantes. E, enquanto a justiça não decide, as prestações continuam a sair da conta.

Porque este caso pode acontecer noutros países europeus - e também em Portugal

Embora a história se passe em França, os mecanismos são semelhantes aos de vários mercados europeus. Leasing, subscrições automóvel e alugueres de longa duração têm crescido também entre particulares. Em simultâneo, aumenta o número de condutores muito idosos e, com isso, cresce o risco de uma mudança rápida de saúde tornar um compromisso de anos num fardo.

Na prática, continuam a existir poucos mecanismos específicos de protecção para seniores em contratos longos. Nem sempre há uma avaliação efectiva sobre se uma pessoa com mais de 85 anos conseguirá suportar prestações durante quatro, cinco ou seis anos - e a evolução clínica futura, por definição, é incerta.

  • Muitos contratos de leasing têm duração de 4 a 5 anos.
  • O estado de saúde em idade muito avançada pode deteriorar-se em poucos meses.
  • É frequente existir confiança no “concessionário de sempre”.
  • As famílias descobrem contratos tarde, muitas vezes apenas quando surge uma mudança para lar ou uma limitação clínica grave.

O resultado é conhecido: uma ida para um lar, uma queda séria ou a perda da aptidão para conduzir transforma a ideia de “carro novo” numa despesa contínua exactamente quando os custos de cuidados aumentam.

Parágrafo adicional (Portugal): Em Portugal, o risco agrava-se quando o senior gere sozinho a correspondência e os débitos directos. Um contrato pode ficar “invisível” para a família durante meses. Por isso, sempre que haja sinais de fragilidade (falhas de memória, quedas, medicação pesada), faz sentido reforçar rotinas simples: confirmar débitos mensais, rever contratos activos e combinar quem acompanha decisões financeiras relevantes.

Riscos típicos do leasing em idade avançada (seniores)

Risco Consequência
Agravamento do estado de saúde O carro deixa de poder ser utilizado, mas o contrato mantém-se activo
Seguros inexistentes ou com lacunas Ausência de saída efectiva em caso de doença, incapacidade ou morte
Prazos longos com prestações elevadas Pressão sobre poupanças, reforma e, em alguns casos, sobre herdeiros
Pouca participação da família A família só toma conhecimento quando já é difícil reverter

Parágrafo adicional (gestão do contrato): Quando um contrato já está em vigor, algumas famílias conseguem reduzir perdas ao explorar alternativas como transferência de posição contratual (quando permitida), venda do veículo para liquidar parte do valor em dívida, ou renegociação do plano financeiro. Nem sempre é possível - e depende das cláusulas -, mas pode ser útil pedir por escrito: (i) simulação de liquidação antecipada, (ii) opções de entrega e acerto de contas, (iii) impacto do cancelamento de serviços adicionais.

O que as famílias podem fazer, de forma prática

O caso de Max sublinha a importância de conversas atempadas dentro da família. Quem acompanha pais ou avós que ainda conduzem deve, com tacto, perguntar sobre contratos e compromissos financeiros, sobretudo quando há sinais de compra ou troca por veículo novo.

Medidas concretas:

  • Rever periodicamente, em conjunto, extractos bancários e pastas de contratos.
  • Tratar cedo de procurações e, quando adequado, mecanismos de apoio/representação para actos patrimoniais.
  • Em cada aquisição automóvel, comparar se compra (eventualmente de usado) faz mais sentido do que leasing.
  • Ler com atenção condições de rescisão, encargos por término antecipado e exclusões de seguros.
  • Em caso de dúvida, recorrer a apoio especializado (por exemplo, DECO e aconselhamento jurídico).

Quando a memória começa a falhar, falar de dinheiro pode ser delicado. Ainda assim, evitar o tema tende a aumentar a probabilidade de, mais tarde, a família ficar perante factos consumados e pouco reversíveis.

Conceitos que costumam ser decisivos nestes casos

O abuso de fragilidade descreve situações em que uma empresa (ou uma pessoa) tira partido de uma vulnerabilidade física ou psicológica do consumidor para obter a assinatura de um contrato. Em tribunal, analisa-se se existia um equilíbrio normal entre as partes e se a vontade do consumidor foi formada de modo livre e esclarecido.

Outro conceito-chave é a capacidade para contratar: a aptidão de compreender o significado e as consequências legais do que se assina. Em casos de demência avançada, essa capacidade pode não existir. Contudo, sem avaliação prévia e sem medidas formais de protecção, a prova posterior recai muitas vezes sobre a família - um caminho exigente, tanto em termos emocionais como documentais.

E se um senior tivesse feito leasing na Alemanha?

É fácil imaginar um cenário semelhante numa cidade média da Baviera ou da Renânia do Norte–Vestefália. Um homem de 91 anos entrega o antigo utilitário e, no concessionário, é convencido a escolher um SUV com caixa automática. Conhece o vendedor há anos, o ambiente parece familiar e o argumento é sedutor: “mais conforto na idade”.

A prestação mensal, no fim das contas, pode ficar nos 600 € a 700 €. O reformado concorda e assina. Dois anos depois, ocorre uma queda, parte a anca e, por razões médicas, deixa de conduzir. O contrato, porém, continua a correr.

Também aí a família teria de perceber se existe uma forma realista de terminar o contrato antes do prazo. Em muitos casos, as condições são penalizadoras. Sem uma cobertura adicional verdadeiramente eficaz, sobra negociar - ou procurar apoio jurídico e de entidades de defesa do consumidor. A pressão psicológica seria muito semelhante à do caso francês, apenas com papel timbrado diferente.

Entre o sonho do carro e a realidade do lar: uma questão de prioridades

No fundo, chocam duas realidades: a vontade dos mais velhos de manter mobilidade e autonomia e a lógica económica de modelos de leasing com prazos longos. Para o concessionário, cada contrato conta. Para a família, cada euro faz falta quando entram em cena cuidados, acompanhamento e custos de lar.

A história de Max mostra como a vida pode mudar rapidamente em idade muito avançada. Um contrato que, no dia da assinatura, pode parecer aceitável, pode rebentar com qualquer planeamento pouco tempo depois. E a discussão vai além de um automóvel: que responsabilidade deve recair sobre o vendedor? Onde começam deveres de protecção do legislador? E até que ponto as famílias devem acompanhar, mais cedo, decisões financeiras relevantes dos seus seniores?

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