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A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos importam biliões em água potável por ano, mesmo com grandes projetos de dessalinização.

Homem a abrir uma garrafa na cozinha com vista para a praia e edifícios em dia soalheiro.

Na autoestrada entre o Dubai e Abu Dhabi, a luz do deserto bate no para-brisas com tanta força que parece existir um segundo sol. Lá fora, quase não há nada além de dunas bege e ondulações de calor. Cá dentro, a mão do condutor volta e meia desliza na direcção do suporte de copos, os dedos a fecharem-se em torno de uma garrafa de plástico húmida, cheia de água importada dos Alpes.

Ele ri-se quando se aponta para o rótulo. “Sabe melhor do que a da torneira”, encolhe os ombros. “Esta viajou mais do que eu alguma vez viajei.”

Ao longe, por trás da miragem, algumas das maiores centrais de dessalinização do mundo trabalham sem parar, dia e noite, a transformar água do mar em vida. Ainda assim, as prateleiras dos supermercados brilham com marcas estrangeiras, e os navios de carga chegam pesados com um líquido de que, tecnicamente, o Golfo não deveria precisar.

Há aqui qualquer coisa que não bate certo.

Viver num “deserto rico em água”: o paradoxo à vista desarmada

Existe uma dissonância difícil de ignorar quando se vêem fontes coreografadas à porta de centros comerciais de luxo num território que depende de “chuva fabricada”. À superfície, o Golfo Pérsico parece abundante: relvados verdes, esplanadas com névoa artificial, centros comerciais refrigerados, piscinas a brilhar em todos os cartazes imobiliários.

Logo abaixo dessa imagem, porém, vive-se com a noção - sobretudo entre planeadores e engenheiros - de que a almofada é fina. Se faltar electricidade durante algumas horas, as unidades param. Se houver um choque nas cadeias logísticas, os carregamentos de garrafas atrasam-se. Se uma onda de calor disparar a procura, o sistema range um pouco mais alto.

E isto não é apenas uma história do Golfo. À medida que as alterações climáticas secam partes do Mediterrâneo, regiões dos Estados Unidos e zonas da Ásia, mais países olham para a dessalinização e para a importação de água como “plano B”. O que hoje parece extremo em Riade ou no Dubai pode ser rotina em Barcelona ou Los Angeles amanhã. A pergunta deixa de ser só “como arranjar mais água?” e passa a ser “como viver com o que existe sem empurrar o problema para os rios de outra pessoa?”

Nações do deserto a nadar em dessalinização… e ainda assim a comprar lá fora

A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos gostam de apresentar as suas centrais de dessalinização como maravilhas da engenharia contemporânea. Ao longo da costa do Golfo, surgem complexos gigantescos - um verdadeiro bosque industrial de tubagens e depósitos - que engolem água do mar e devolvem milhões de litros de água potável por hora. Em números, estes países figuram entre os que mais produzem água dessalinizada per capita no mundo.

Mas entra-se num centro comercial em Riade ou num hipermercado no Dubai e surge outra realidade: filas de água engarrafada de França, Itália, Turquia e até Eslovénia, empilhadas acima da altura de uma pessoa.

Em 2023, só os Emirados Árabes Unidos importaram água engarrafada no valor de centenas de milhões de dólares, grande parte rotulada como “premium” ou “de nascente natural”. A Arábia Saudita, com uma população muito maior, gasta anualmente milhares de milhões a obter água fresca numa forma ou noutra - em garrafa, em grandes volumes, ou disfarçada nas importações alimentares.

Há um momento quase irreal em que se observam trabalhadores no porto de Jebel Ali a descarregar paletes de garrafas de vidro com montanhas europeias cobertas de neve no rótulo, enquanto, poucos quilómetros mais adiante, uma central de dessalinização queima gás para empurrar água do mar através de membranas. Para cada slogan sobre “origens intocadas”, existe uma conduta a zumbir discretamente no calor.

À primeira vista, isto soa a absurdo. Se é possível tirar água do mar, por que motivo importar água?

A explicação está num emaranhado de paladar, estatuto, custos e gestão de risco. A dessalinização consome muita energia, fica directamente presa ao preço do petróleo e do gás, e a água produzida costuma ser canalizada para cidades e indústrias muito antes de chegar a uma garrafa. A água engarrafada importada preenche outra função: marca, confiança e uma sensação - nem sempre racional - de pureza.

Há ainda uma camada estratégica: os governos do Golfo sabem que as centrais de dessalinização são vulneráveis a falhas de energia, ciberataques ou conflitos. Manter várias origens de abastecimento, incluindo fontes estrangeiras, funciona como uma apólice de seguro que nenhum líder num deserto quer dispensar.

Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos: o custo social da “água de marca”

Também pesa um factor cultural pouco falado: a água engarrafada, sobretudo a importada, tornou-se sinal de cuidado, higiene e até prestígio. Em hotéis, lounges de aeroportos e reuniões de negócios, a garrafa “bonita” transmite uma mensagem imediata. E, quando a confiança na infraestrutura varia (canalizações antigas em alguns edifícios, depósitos mal mantidos, ou simplesmente hábitos enraizados), a escolha por uma marca estrangeira ganha força - mesmo que a água da torneira seja oficialmente tratada e monitorizada.

Como os Estados do Golfo “importam” água sem dizerem que importam água

O transporte físico de água engarrafada é apenas a parte mais visível. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos importam também aquilo a que muitos investigadores chamam “água virtual” - a água escondida que foi necessária para produzir alimentos e criar animais noutros países, e que chega sob a forma de bens.

Um quilograma de carne de vaca pode representar mais de 15 000 litros de água usados numa pastagem distante. Um saco de arroz pode trazer consigo a “sombra” de milhares de litros vindos de um rio indiano ou de um campo tailandês alimentado pela monção. Quando as cidades do Golfo reabastecem as prateleiras, estão, na prática, a comprar rios, chuva e aquíferos de outras nações.

A Arábia Saudita aprendeu isto de forma dura. Nas décadas de 1980 e 1990, o reino tentou produzir o seu próprio trigo no deserto. Projectos de rega em grande escala bombeavam “água fóssil” de aquíferos subterrâneos antiquíssimos - reservas que não se repõem à escala de uma vida humana. Durante algum tempo, resultou: em imagens de satélite apareciam círculos verdes de campos de trigo, como marcas geométricas na areia.

Depois, os furos começaram a perder força. Já na década de 2010, Riade abandonou essa política de forma discreta e regressou aos mercados globais. Hoje, o país compra a maior parte dos cereais no estrangeiro, importando, na prática, a chuva que já não se atreve a extrair das suas próprias profundezas.

É por isso que, quando se diz que a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos importam milhares de milhões em água todos os anos, normalmente fala-se de várias camadas ao mesmo tempo: o negócio óbvio das garrafas, reluzente em hotéis e aeroportos; a água em grandes volumes para usos específicos; e a avalanche de água incorporada nos alimentos importados.

A dessalinização, por maior que seja, não substitui tudo isto de forma simples nem barata. Os megaprojectos mantêm as cidades de pé e as torneiras a correr, mas não anulam a matemática básica de viver onde a chuva é rara e a população cresce depressa. A região não está apenas a comprar água: está a comprar tempo.

Um ângulo adicional: regulação, saúde pública e confiança do consumidor

Um ponto muitas vezes ignorado é que a confiança não depende apenas da qualidade real, mas da perceção e da fiscalização visível. Normas claras para depósitos prediais, auditorias regulares às redes internas de edifícios e comunicação pública transparente (por exemplo, relatórios de qualidade acessíveis e fáceis de interpretar) têm um efeito directo na vontade de beber água da torneira. Quando essa confiança aumenta, reduz-se a pressão sobre a dessalinização e sobre as importações - sem exigir que as pessoas “mudarem de vida” de um dia para o outro.

O que isto significa no dia-a-dia: hábitos, riscos e pequenas escolhas que somam

Para quem vive no Dubai, em Abu Dhabi, em Jeddah ou em Riade, o sistema é quase invisível. Abre-se a torneira e a água aparece. Pede-se uma garrafa num café e uma marca estrangeira aterra na mesa sem grande reflexão. Há um momento comum - aquele impulso de escolher a garrafa “mais fina” só porque o rótulo parece mais limpo e europeu.

Mas por trás desse gesto existe uma rota de transporte, uma fábrica e uma central de dessalinização a consumir combustível para manter a cidade a funcionar. Pequenos hábitos diários alimentam um equilíbrio frágil entre produção doméstica e redes de segurança importadas.

Uma mudança discreta, já visível tanto na Arábia Saudita como nos Emirados Árabes Unidos, é o esforço para aumentar a confiança na água tratada localmente. Em edifícios mais recentes, surgem sistemas avançados de filtração. E alguns restaurantes de gama alta começam a servir água filtrada da torneira em jarros, em vez de garrafas importadas.

Sejamos realistas: quase ninguém cumpre isto todos os dias, sem falhas. Ainda assim, cada litro que não se desperdiça é um litro que não precisa de passar por um processo energético intensivo de dessalinização - nem de viajar milhares de quilómetros como “água de marca”. Multiplicado por milhões de pessoas, o que parece simbólico torna-se estratégia.

Ao nível oficial, os decisores do Golfo falam hoje de forma mais directa sobre a armadilha energia–água em que vivem. Como descreveu um especialista saudita em água, numa conversa em Riade:

“Construímos uma máquina extraordinária que transforma petróleo e gás em água e ar fresco. A questão é durante quanto tempo conseguimos alimentá-la antes de a factura - ambiental, financeira e política - ficar alta demais.”

Para aliviar a pressão, tanto a Arábia Saudita como os Emirados Árabes Unidos procuram:

  • Reduzir o consumo de água na agricultura interna e deslocar parte da produção alimentar para o exterior
  • Construir centrais de dessalinização alimentadas a energia solar para cortar emissões e custos de combustível
  • Uniformizar e modernizar as redes de distribuição para perder menos água em fugas
  • Incentivar as indústrias a reciclar e reutilizar água em vez de a descartarem
  • Promover marcas locais de água engarrafada que dependam de dessalinização, e não de nascentes distantes

Nada disto chama a atenção num corredor de centro comercial ou no átrio de um hotel. Mas, numa folha de cálculo ministerial, cada melhoria pequena é uma linha de risco futuro apagada.

O paradoxo dos reinos do deserto “ricos em água”: conforto, estatuto e sobrevivência

Para quem lê isto de fora, pode parecer um problema distante, reservado a Estados ricos em petróleo. No entanto, a garrafa na sua mão, a fruta fora de época no frigorífico, ou a carne no prato podem fazer parte do mesmo comércio invisível de água doce.

O paradoxo do Golfo - megaprojectos na costa, importações no porto, aspersores ao sol - é apenas uma versão mais ruidosa de uma pergunta que todos os países acabam por enfrentar: como equilibrar conforto, estatuto, segurança e sobrevivência quando o ingrediente mais básico da vida tem de ser fabricado, transportado ou “emprestado” a outro lugar?

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A dessalinização tem limites A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos operam enormes centrais de dessalinização, mas continuam dependentes de fontes externas de água Ajuda a perceber por que motivo a tecnologia, por si só, não “resolve” a escassez hídrica
A água é muitas vezes importada de forma invisível A “água virtual” chega incorporada nos alimentos e noutros bens Muda a forma como se pensa sobre escolhas no supermercado e comércio global
Hábitos do quotidiano pesam num sistema frágil Poupança local, confiança na água tratada e mudanças de política ajustam a procura Mostra onde o comportamento individual e as decisões públicas se cruzam de facto

Perguntas frequentes (FAQ)

  1. Pergunta 1: Por que motivo a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos importam água se têm centrais de dessalinização?
    A dessalinização cobre necessidades domésticas e urbanas, mas consome muita energia, é cara e vulnerável a interrupções. As importações - tanto de água engarrafada como de água incorporada nos alimentos (“água virtual”) - distribuem o risco, respondem a preferências de sabor e de marca e reduzem pressão sobre recursos internos.

  2. Pergunta 2: Estes países correm mesmo o risco de ficar sem água?
    Não é provável que “fiquem sem água” de um dia para o outro, mas vivem perto do limite. A segurança depende de energia estável, de centrais de dessalinização a funcionar e de rotas comerciais abertas para alimentos e água engarrafada.

  3. Pergunta 3: É seguro beber água da torneira no Golfo?
    Oficialmente, sim. A água da torneira é tratada e monitorizada, sobretudo nas grandes cidades. Ainda assim, muitas pessoas preferem água engarrafada por causa do sabor, de infraestruturas mais antigas em algumas zonas ou simplesmente por hábito.

  4. Pergunta 4: Importar água engarrafada prejudica o ambiente?
    Acrescenta emissões de transporte e resíduos de embalagem à pegada ambiental da dessalinização. Por isso, governos e algumas empresas pressionam por melhores sistemas de torneira, recargas (refill) e engarrafamento local.

  5. Pergunta 5: Que lições podem outros países retirar desta situação?
    Que apostar em soluções hídricas muito dependentes de energia, sem ajustar a procura, é arriscado. Diversificar origens, proteger água doce natural e ser transparente quanto às compensações é crucial antes de a escassez se transformar em crise.

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