As marinhas da China, da Rússia e do Irão concentraram-se em águas sul-africanas para participar no exercício multinacional “Will for Peace 2026”, um treino naval conjunto que decorre a partir do porto de Simon’s Town, na Cidade do Cabo, em coordenação com as Forças de Defesa Nacional Sul-Africanas (SANDF).
Segundo o Ministério da Defesa da África do Sul, a actividade teve início a 9 de Janeiro e prolonga-se até 16 de Janeiro, reunindo países do BRICS+. A liderança operacional cabe à China, enquanto a África do Sul assume o papel de país anfitrião.
Will for Peace 2026: objectivos de segurança marítima
De acordo com um comunicado do Ministério da Defesa sul-africano, o exercício - com a duração de uma semana - foi concebido como um programa intensivo de operações conjuntas de segurança marítima, exercícios de interoperabilidade e manobras de protecção marítima. As marinhas participantes acordaram como tema:
“Acções Conjuntas para Garantir a Segurança da Navegação e das Actividades Económicas Marítimas”.
No mesmo documento, as autoridades sul-africanas sublinharam que o tema traduz o compromisso colectivo de proteger as rotas comerciais marítimas, melhorar procedimentos operacionais partilhados e reforçar a cooperação no apoio a iniciativas pacíficas de segurança no mar.
O Ministério da Defesa da China acrescentou que, entre as actividades previstas, constam:
- operações de resgate antiterrorista
- ataques marítimos
- intercâmbios técnico-profissionais
- visitas a navios
Além do treino estritamente militar, exercícios deste género funcionam também como plataformas de coordenação de procedimentos, harmonizando comunicações, regras de segurança e rotinas de resposta a incidentes no mar - factores relevantes quando diferentes marinhas actuam lado a lado em missões de escolta, patrulhamento ou assistência.
Forças participantes e fases do exercício
O Ministério da Defesa da China indicou que o Will for Peace 2026 está organizado em duas fases principais:
9 a 12 de Janeiro (porto e actividades em terra)
- cerimónia de abertura
- visitas a navios
- intercâmbios profissionais
- eventos culturais e desportivos
- cerimónia de abertura
13 a 15 de Janeiro (fase no mar)
- exercícios de comunicações
- manobras em formação
- ataques marítimos
- resgate de embarcações sequestradas
- evacuação médica por helicóptero
- exercícios de comunicações
O encerramento formal está agendado para 16 de Janeiro de 2026.
A China participa com meios integrados na 48.ª Força-Tarefa de Escolta Naval, incluindo o contratorpedeiro CNS Tangshan (122) e o navio de apoio logístico CNS Taihu (889), além de um helicóptero embarcado e efectivos de operações especiais. Estas unidades largaram de Qingdao a 11 de Outubro, no âmbito de missões de escolta antipirataria no Golfo de Aden.
As SANDF divulgaram imagens da chegada a Simon’s Town dos navios CNS Tangshan, CNS Taihu e IRIS Makran (441), bem como da fragata sul-africana SAS Amatola (F145).
A comunicação social local noticiou ainda a presença da corveta iraniana IRIS Naghdi (82) e da base expedicionária IRIS Shahid Mahdavi (L110-3), pertencentes à Marinha do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica. Do lado russo, aportaram a corveta RFS Stoikiy (545) e o navio logístico Yelnya, ambos da Frota do Báltico. Estas embarcações iniciaram a viagem rumo a África em Outubro de 2025 e, durante a passagem por águas europeias, foram escoltadas por navios da NATO, incluindo o navio-patrulha britânico HMS Severn (P282).
Também foi avançado que a corveta Bani Yas (P110), da Marinha dos Emirados Árabes Unidos, participa nas manobras.
Simon’s Town, enquanto ponto de apoio naval no extremo sul de África, é frequentemente associado à vigilância de rotas que contornam o Cabo da Boa Esperança, um corredor marítimo com relevância para o comércio internacional. A realização de um exercício multinacional nesta zona reforça a dimensão simbólica e prática do treino orientado para segurança da navegação e protecção de actividades económicas no mar.
Contexto do exercício
O Will for Peace 2026 estava inicialmente planeado como MOSI III, a terceira edição da série bienal de exercícios navais organizada pela África do Sul, China e Rússia. Contudo, a actividade foi reagendada e renomeada, uma vez que a data inicialmente prevista coincidia com a cimeira do G20, realizada na África do Sul em Novembro de 2025. No final, foi decidido reaproveitar o formato como um exercício no quadro do BRICS Plus.
Importa recordar que as marinhas da China e da Rússia já tinham participado em treinos conjuntos com a África do Sul em Fevereiro de 2023 (Exercício MOSI II) e, mais tarde, em Março do mesmo ano, com o Irão no Golfo de Omã (Exercício Cinturão de Segurança 2023).
O grupo BRICS foi inicialmente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, tendo sido mais tarde alargado para integrar Egipto, Etiópia, Irão, Indonésia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Nesta edição do exercício, Brasil e Índia não participam.
Reacções políticas na África do Sul
A iniciativa gerou contestação interna. A Aliança Democrática, partido integrante da coligação governamental sul-africana, pediu a elaboração de um relatório parlamentar completo sobre a actividade. A formação política questionou a liderança chinesa do exercício e manifestou reservas quanto à presença da Rússia e do Irão, países sujeitos a sanções internacionais e envolvidos em conflitos em curso.
Num comunicado oficial à imprensa, o partido declarou:
“A entrada da África do Sul no BRICS teve fins puramente económicos e não visava desafiar ou minar a ordem internacional baseada em regras através de antagonismo armado flagrante provocado por exercícios militares desleais”.
Imagens obtidas junto das Forças de Defesa Nacional Sul-Africanas e da Embaixada da Rússia na África do Sul.
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