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Quando a vida não se esquece: TL e a **hipertimesia** (HSAM), a memória autobiográfica altamente superior

Jovem sentado em cadeira numa sala branca, a interagir com fotografias e objetos flutuantes ao seu redor.

Para a maioria de nós, as recordações da vida assemelham-se a grãos de areia: tentamos agarrar o máximo possível, mas acabam por escorrer entre os dedos. No entanto, em casos raríssimos, certos acontecimentos emocionais colam-se à mente como teias de aranha - e libertar-se deles torna-se muito mais difícil.

Um novo estudo de caso descreve uma pessoa com este perfil extraordinário: uma adolescente (identificada como TL para preservar o anonimato) capaz de evocar um número surpreendente de episódios pessoais ao longo da sua vida.

Estima-se que existam menos de 100 pessoas em todo o mundo com esta condição, conhecida como hipertimesia, ou memória autobiográfica altamente superior (HSAM).

A condição só foi descrita pela primeira vez em 2006, e a análise de TL é a primeira avaliação abrangente sobre a forma como indivíduos com hipertimesia recuperam acontecimentos pessoais do passado e, além disso, conseguem imaginar acontecimentos pessoais projectados no futuro.

A “viagem no tempo” mental e a identidade

A capacidade incomum de TL para “viajar no tempo” com a mente permite-lhe sentir que está a reviver o que já aconteceu e, de certa forma, a pré-viver o que ainda não ocorreu.

A história desta adolescente pode ajudar a ciência a compreender melhor como o cérebro humano codifica, recupera ou descarta memórias da nossa vida - e como, a partir desse processo, construímos um sentido de identidade e continuidade ao longo do tempo.

Valentina La Corte, neuropsicóloga da Universidade Paris Cité e autora principal do estudo de caso, explica que, nestas pessoas - por vezes designadas “hipertimésicas” - as memórias ficam meticulosamente indexadas por data.

Segundo La Corte, alguns indivíduos conseguem descrever com grande detalhe o que fizeram, por exemplo, a 6 de julho de 2002, voltando a sentir as emoções e as sensações físicas associadas a esse dia.

Hipertimesia (HSAM) desde a infância: quando os outros não acreditam

Desde criança, TL conseguia regressar mentalmente às suas memórias com uma nitidez impressionante, por vezes a partir de múltiplas perspectivas, como se estivesse presente em todo o cenário.

Foi aos 8 anos que partilhou esta capacidade com amigos. Como não conseguiam sequer imaginar o que ela descrevia, acusaram-na de estar a inventar.

Os autores do estudo relatam que TL se apercebeu cedo de que a sua mente funcionava de forma atípica e, com receio de parecer “estranha”, só voltou a falar do assunto no seio familiar quando tinha 16 anos.

Aos 17, decidiu contar a sua experiência a um público mais amplo.

Como foi avaliada a hipertimesia: testes de memória e resultados

Num teste de memória, La Corte e a sua equipa pediram a TL que recordasse quatro acontecimentos pessoalmente relevantes em cinco períodos diferentes da sua vida.

O seu desempenho na recordação de pormenores situou-se no topo do intervalo médio normativo, algo compatível com o diagnóstico actualmente aceite de hipertimesia.

De acordo com o relatório, as memórias de TL são “ricas em detalhe contextual e fenomenológico” e marcadas por uma “forte sensação de revivência”.

“Ver o futuro” também faz parte: imaginação e sensação de déjà vu

TL não se limita a regressar ao passado. Ela também consegue projectar-se mentalmente no futuro.

As suas antecipações mentais podem desencadear uma sensação intensa de que acontecimentos ainda não vividos pessoalmente já ocorreram - como se fossem familiares antes de acontecerem.

A arquitectura interna da memória: a sala branca, as “memórias negras” e as salas de fuga

Talvez o aspecto mais fascinante seja a forma como TL descreve o seu “mecanismo” de viagem mental.

Informações factuais e conhecimento académico que não lhe despertam emoção não ficam guardados com a mesma força, nem surgem associados a imagens vívidas. Para memorizar esse tipo de conteúdo, TL precisa de esforço e chama-lhe “memórias negras”.

Em contraste, as memórias pessoais carregadas de emoção são armazenadas com facilidade no seu “olho da mente” sob a forma de uma sala branca: um espaço rectangular, muito amplo, branco e com um tecto baixo.

Como se fosse uma biblioteca, essa sala mental contém os momentos da sua vida organizados por um sistema de catalogação complexo. Cada brinquedo que alguma vez teve aparece exposto, com uma etiqueta a indicar o nome do objecto e de quem e quando o recebeu.

TL consegue também folhear, dentro dessa sala branca, fotografias de família, porque memorizou cada detalhe das imagens. E, se lhe apetecer, pode “retirar” mentalmente um livro de que gosta muito de uma prateleira para o reler e procurar conforto.

As recordações estão dispostas por ordem cronológica, e a nitidez vai diminuindo quanto mais antigas forem.

O relatório resume esta capacidade da seguinte forma: TL distingue dias do último mês, meses dos dois anos anteriores e, para memórias mais antigas, apenas anos.

Memórias negativas e salas específicas: gelo, problemas e culpa

Ao contrário do que acontece com a maioria de nós, TL não consegue apagar com facilidade as recordações negativas. Para as conter, guarda-as num baú dentro da sala branca. É aí que mantém, por exemplo, a memória da morte do avô.

A sala branca liga-se ainda a outras divisões mentais para onde TL “foge” quando as emoções se intensificam:

  • Uma sala fria, a “sala do gelo”, para onde vai quando está zangada e quer acalmar.
  • Uma pequena sala vazia, a “sala dos problemas”, onde se isola para pensar sem distracções quando precisa de resolver algo.
  • Uma divisão desagradável povoada por soldados, que apareceu quando o pai saiu para seguir a carreira militar; TL tende a “cair” nessa sala quando se sente culpada.

O lado difícil da hipertimesia: um fluxo incessante de recordações

O estudo de caso de TL não aprofunda as dificuldades associadas a uma memória excepcional. Ainda assim, outras pessoas com HSAM descrevem um caudal de lembranças constante e excessivo, sentido como “ininterrupto, incontrolável e automático”.

Pouquíssimas pessoas com hipertimesia partilharam as suas vivências em artigos revistos por pares, o que limita as conclusões globais.

O que ainda falta saber sobre a memória autobiográfica altamente superior (HSAM)

La Corte sublinha que é complicado generalizar resultados sobre a hipertimesia porque dependem de um número reduzido de casos. Entre as perguntas em aberto, a investigadora aponta:

  • O envelhecimento altera as memórias destes indivíduos?
  • A capacidade de “viagem mental no tempo” varia com a idade?
  • Será possível aprender a controlar a acumulação de recordações?

Segundo a autora, há muitas questões por responder e permanece quase tudo por descobrir, abrindo-se uma linha de investigação particularmente promissora.

Um contexto mais amplo: por que estes casos interessam à ciência e à vida diária

Casos como o de TL ajudam a distinguir, de forma mais fina, diferentes componentes da memória: o que é factual e “neutro” (mais próximo do estudo escolar) e o que é autobiográfico e emocional (ligado à identidade e à sensação de continuidade). Esta separação pode ser útil para compreender por que razão algumas lembranças se consolidam com tanta força, enquanto outras se desvanecem rapidamente.

Ao mesmo tempo, compreender a hipertimesia pode ter implicações práticas para a saúde mental. Se certas memórias negativas forem difíceis de “silenciar”, estratégias de regulação emocional, rotinas de descanso e acompanhamento psicológico podem tornar-se especialmente relevantes - não para apagar o passado, mas para reduzir o impacto intrusivo das recordações no quotidiano.

O estudo foi publicado na revista científica Neurocase.

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