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Espanha vai enviar cinco mísseis Patriot PAC-2 para a Ucrânia, num contexto de escassez de interceptores

Dois soldados com uniformes camuflados apertam as mãos perto de veículos militares com lançadores de mísseis.

Espanha deverá transferir, nos próximos dias, apenas cinco mísseis superfície-ar Patriot PAC-2 para a Ucrânia, numa altura em que os stocks de interceptores estão sob forte pressão e aumenta a exigência internacional para manter a defesa aérea de Kyiv operacional. Esta remessa enquadra-se no esforço espanhol para reforçar a capacidade de intercepção ucraniana, num momento em que a procura mundial por sistemas Patriot continua elevada, alimentada tanto por ameaças associadas ao Irão como pelas necessidades operacionais geradas pela guerra em curso.

Mísseis PAC-2 do Exército espanhol e atrasos nas novas baterias Patriot

De acordo com notícias divulgadas por meios de comunicação espanhóis, os mísseis Patriot PAC-2 - avaliados entre 2,8 e 3,7 milhões de euros por unidade (valores aproximados, dependentes de contratos e configurações) - provêm de unidades de artilharia antiaérea do Exército de Terra. A transferência avança apesar de Espanha enfrentar constrangimentos de disponibilidade, agravados pelo adiamento da chegada de novas baterias Patriot adquiridas por Madrid: a entrega foi reprogramada para 2031, devido a limitações de produção.

Esta falta de margem não é nova. Em 2024, Espanha já tinha realizado entregas anteriores de interceptores, coordenadas com aliados no âmbito da NATO, o que contribuiu para reduzir o volume de munições prontas a emprego no inventário nacional.

Apoio militar de Espanha desde 2022: compromissos e financiamento

A entrega agora conhecida insere-se num quadro mais amplo de assistência militar que Espanha tem mantido com a Ucrânia desde Fevereiro de 2022. Numa reunião realizada a 18 de Março, em La Moncloa, o primeiro-ministro Pedro Sánchez anunciou, ao lado do seu homólogo ucraniano, Volodymyr Zelensky, um novo compromisso de 1 000 milhões de euros em financiamento adicional para 2026. Na ocasião, Sánchez afirmou: “Podem contar com o apoio de Espanha”, sublinhando a continuidade da cooperação bilateral no domínio da defesa.

Desde o início da invasão russa, a contribuição espanhola aproxima-se de 4 000 milhões de euros em diferentes pacotes de armamento e assistência técnica - um montante relevante, embora inferior ao de outros países europeus, de acordo com dados do Instituto de Kiel no seu Monitor de Apoio à Ucrânia.

Uma parte destes recursos deverá ser canalizada através do novo instrumento financeiro europeu SAFE (Acção de Segurança para a Europa), concebido para disponibilizar até 150 000 milhões de euros em empréstimos de longo prazo, com o objectivo de reforçar a base industrial de defesa do continente.

Zelensky, SAFE e a dependência do sistema Patriot (Phased Array Tracking Radar to Intercept on Target)

Zelensky destacou que Espanha está entre os primeiros países europeus a recorrer ao SAFE para apoiar o esforço militar de Kyiv e defendeu, em paralelo, a libertação de activos russos congelados para financiar a produção adicional de material defensivo.

O presidente ucraniano apontou ainda a necessidade de a Ucrânia reduzir a sua dependência do sistema Patriot de origem norte-americana - cujo nome é associado à expressão “Radar de varrimento faseado para seguir e interceptar no alvo” - num cenário em que a disponibilidade de interceptores se torna cada vez mais limitada, tanto por restrições industriais como pela intensidade do consumo operacional.

PAC-2 e PAC-3: o que está em causa com a disponibilidade de interceptores Patriot

Embora a discussão pública se foque muitas vezes no “Patriot” como um todo, a pressão recai sobre tipos específicos de munição. Os PAC-2 e os PAC-3 não são intercambiáveis em termos de emprego e stocks, e a gestão de reservas exige um equilíbrio constante entre: - Necessidades imediatas da Ucrânia para proteger infra-estruturas críticas e centros urbanos; - Capacidade de reposição das forças armadas doadoras; - Prazos industriais de produção, integração e entrega.

Este quadro ajuda a explicar porque é que remessas relativamente pequenas - como cinco mísseis - podem ter impacto táctico, mas ao mesmo tempo expõem a fragilidade de inventários europeus quando a procura é continuada.

Paralelo com a Alemanha: proposta de entrega de cinco PAC-3 condicionada a um pacote NATO

A situação espanhola tem eco na Alemanha. O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, indicou que Berlim está disposta a entregar cinco mísseis PAC-3 à Ucrânia, desde que outros membros da NATO completem um pacote conjunto de 30 interceptores. Pistorius afirmou, em substância: a Alemanha enviará mais cinco mísseis interceptores, conhecidos como PAC-3, caso outros países optem por doar um total de 30 PAC-3; trata-se de salvar vidas e é uma questão de dias, não de semanas ou meses. O responsável acrescentou manter-se “muito optimista” quanto à possibilidade de se alcançar esse acordo.

Estas declarações surgem no momento em que a Alemanha reconhece que o seu inventário de sistemas Patriot diminuiu cerca de um terço desde o início da guerra, reduzindo a margem para novas doações.

Stocks em queda e limites materiais dos aliados europeus

Informações provenientes de Kyiv indicam que Berlim já transferiu cinco sistemas completos e espera receber novas unidades dos Estados Unidos para reconstruir a sua própria defesa aérea. Em conjunto, os casos de Espanha e Alemanha ilustram as limitações materiais enfrentadas pelos aliados europeus para manter, de forma contínua, o fornecimento de capacidades de elevada procura como o Patriot.

Além da munição, há ainda um factor frequentemente subestimado: a sustentabilidade do apoio depende de cadeias logísticas, manutenção, formação e rotação de equipas. Mesmo quando os interceptores existem, a sua utilização eficaz requer integração com radares, procedimentos de comando e controlo e uma capacidade de reparação que acompanhe o desgaste acelerado em ambiente de combate.

Imagens meramente ilustrativas.

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