Portugal continua a desempenhar, no espaço europeu, um papel pouco confortável: o de mercado de destino para automóveis usados que muitos países já não querem manter em circulação.
A ACAP (Associação Automóvel de Portugal) voltou a chamar a atenção para esta realidade, sublinhando o efeito direto que a importação de usados tem no envelhecimento do parque automóvel nacional. Em 2025, essa tendência atingiu um novo máximo histórico: nunca tinham entrado tantos veículos usados no país.
Em concreto, foram importados 120 787 ligeiros de passageiros usados (+13,7% face a 2024). Este volume equivale a 53,7% das vendas de automóveis novos (um total de 264 821 unidades). Para a ACAP, trata-se de um nível que não só interfere com o equilíbrio do mercado, como também dificulta qualquer plano consistente de renovação do parque automóvel em Portugal.
Importação de automóveis usados em Portugal: evolução e mistura energética
Nem todos os indicadores apontam no mesmo sentido. Em comparação com 2024, a procura por modelos com energias alternativas cresceu em 2025 e passou a representar a maior parcela, com 36% do total.
Dentro dessa fatia, 21% corresponde a veículos 100% elétricos (BEV) e 12% a automóveis com sistemas híbridos plug-in (PHEV). Já os híbridos convencionais (HEV), sem carregamento externo, têm um peso reduzido, ficando-se por 3% do conjunto.
Ainda assim, a ACAP alerta que esta melhoria não chega para neutralizar o efeito da idade média elevada dos veículos importados - atualmente nos 7,9 anos - nem para colmatar padrões de segurança que, em muitos casos, já não acompanham a evolução do mercado. A associação acrescenta que também não se pode ignorar o impacto ambiental acumulado destes automóveis ao longo de todo o seu ciclo de vida. E, apesar de 36% recorrerem a energias alternativas, a distribuição por motorizações mantém um peso significativo de combustão: 33% continuam a utilizar Diesel e 31% funcionam exclusivamente a gasolina.
Além das emissões, há ainda um fator frequentemente associado à circulação de usados mais antigos: a necessidade de manutenção mais frequente e a maior probabilidade de falhas em componentes críticos, o que reforça a importância de inspeções eficazes e de informação clara ao consumidor no momento da compra, sobretudo quando se trata de viaturas importadas.
Enquadramento ambiental e contributivo
A ACAP identifica também um problema estrutural no enquadramento ambiental e contributivo destes veículos. Ao contrário do que acontece com os automóveis novos vendidos em Portugal, muitos usados importados entram no mercado nacional sem assegurarem um contributo equivalente para os sistemas de gestão de resíduos automóveis, pneus e óleos usados.
Para eliminar esta diferença de tratamento, a associação defende que todos os veículos usados importados passem a ficar obrigatoriamente registados no Sistema Integrado de Registo Eletrónico de Resíduos (SIRER), garantindo assim o pagamento das contribuições ambientais aplicáveis.
Para que a medida produza efeitos reais, a ACAP propõe uma ligação direta entre o IMT e a Autoridade Tributária, permitindo o cruzamento de dados no momento da legalização. O objetivo é que nenhum veículo seja integrado no parque automóvel nacional sem cumprir as mesmas obrigações ambientais exigidas aos automóveis novos.
Em paralelo, uma maior harmonização de regras e de controlos pode ajudar a reduzir distorções concorrenciais: quando os custos ambientais não são equiparados, o mercado tende a favorecer a entrada de usados em detrimento da renovação por veículos mais recentes, com melhor desempenho em emissões e segurança.
Sem um reforço efetivo da regulação, a ACAP considera que Portugal continuará a funcionar como um “porto de abrigo” para viaturas que outros mercados preferem afastar das suas estradas, com impactos diretos: travão à renovação do parque, atraso na redução de emissões e uma concorrência desequilibrada face aos veículos novos.
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