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O que é a biofobia? Descubra esta experiência oculta que afeta milhões de pessoas.

Homem abre porta de vidro de casa para jardim verde num ambiente calmo e acolhedor.

Passa-nos a vida a ouvir que estar em contacto com a natureza faz bem tanto ao corpo como à mente. E a evidência científica é vasta: a proximidade com ambientes naturais associa-se a menos stress, a um sistema imunitário mais robusto e até a melhores resultados académicos nas crianças.

Apesar disso, estes benefícios não chegam a toda a gente. Há quem sinta medo, antipatia ou até repulsa por animais e pelo meio natural. Este fenómeno, conhecido como biofobia, tem sido relativamente negligenciado nos estudos sobre a relação entre seres humanos e natureza.

A consequência é clara: o conceito continua mal compreendido. Ainda não é totalmente certo o que o desencadeia, nem quais as abordagens mais eficazes para o atenuar. Para agravar, existem indícios de que poderá estar a aumentar.

No meu novo trabalho, desenvolvido com colegas, procurámos clarificar a biofobia de duas formas: primeiro, ao propor uma estrutura conceptual para enquadrar as relações negativas com a natureza aplicável a várias disciplinas científicas; segundo, ao rever de forma sistemática todos os estudos publicados sobre o tema.

O “lado oposto” da biofobia chama-se biofilia - uma afinidade inata pela natureza. Ambos os termos têm origem na psicologia evolutiva, que inicialmente interpretava respostas positivas e negativas ao mundo natural como mecanismos adaptativos perante recursos e ameaças.

Hoje, a biofobia é entendida de forma mais ampla como uma aversão à natureza, capaz de gerar relações negativas com o mundo natural.

Estas relações podem manifestar-se de muitas maneiras, mas têm um efeito central: reduzem a exposição aos benefícios para a saúde associados à natureza e, simultaneamente, enfraquecem esforços de conservação. Por isso, é essencial compreender todo o espectro das relações humano-natureza - da afinidade à aversão.

No total, identificámos 196 estudos sobre biofobia. Estão distribuídos globalmente, embora com alguma predominância de países ocidentais. Mesmo sendo muito menos numerosos do que os estudos focados em relações positivas com a natureza, verificámos um crescimento rápido do interesse científico pelo tema.

Notámos também que a investigação está dispersa por áreas muito distintas, como a conservação, as ciências sociais e a psicologia. Um dos resultados mais marcantes foi a existência de “silos” fortes entre disciplinas, com enviesamentos evidentes quanto ao tipo de natureza que cada área tende a investigar.

Biofobia: múltiplas causas e factores de risco

Concluímos que a biofobia resulta de vários factores, que em geral podem ser agrupados em externos e internos.

Entre os factores externos contam-se o ambiente físico - por exemplo, o grau de exposição a diferentes espécies. As atitudes sociais também são um factor externo importante e incluem narrativas mediáticas sobre a natureza. Basta pensar no impacto do filme Tubarão, que ajudou a alimentar um medo generalizado de tubarões.

Já os factores internos dizem respeito a características individuais. Aqui entram variáveis como o conhecimento e a idade, que podem influenciar a forma como sentimos a natureza. Por exemplo, um bom conhecimento de espécies e uma compreensão do funcionamento dos ecossistemas diminuem o risco de desenvolver relações negativas com o meio natural. Em sentido inverso, sentir-se frágil ou com problemas de saúde associa-se a um medo mais elevado de grandes carnívoros.

Importa sublinhar, porém, que estes factores não actuam isoladamente: podem interagir e entrelaçar-se de modo complexo. Além disso, as próprias atitudes, interacções e comportamentos em relação à natureza também são influenciados pela biofobia.

Um exemplo: pessoas biofóbicas podem evitar locais onde acreditam existir espécies que temem. E esse afastamento pode traduzir-se num maior apoio a medidas de controlo letal (abate) de animais como lobos, ursos e tubarões.

Os animais mais frequentemente percepcionados como ameaças - serpentes, aranhas e carnívoros - são os mais estudados. Ainda assim, a biofobia pode dirigir-se também a espécies inofensivas ou até benéficas perto de nós, como certas espécies nativas de rãs.

Um ponto adicional a considerar é o papel do contexto urbano moderno. À medida que a vida quotidiana se torna mais citadina e menos exposta a fauna e flora, muitas pessoas passam a ter menos oportunidades para experiências positivas e informadas com a natureza. Este afastamento pode facilitar o crescimento de medos aprendidos, sobretudo quando a informação chega quase só por via de relatos alarmistas.

Tratamentos e abordagens para reduzir a biofobia

Tendo em conta as vantagens de estar ao ar livre, coloca-se a pergunta: é possível tratar a biofobia? Definimos categorias gerais de intervenção, embora não exista uma solução única que funcione para todas as pessoas.

Uma linha de intervenção é a exposição. Pode ir desde a simples habituação a passar mais tempo em ambientes naturais até abordagens clínicas. Por exemplo, quem tem medo de aranhas pode ultrapassar essa fobia com apoio profissional, começando por observar imagens e reformulando a forma como interpreta esses animais.

Outra via é a educação. Pode variar entre o ensino formal sobre o mundo natural e medidas práticas, como painéis informativos em reservas e parques, que ajudam a perceber o que nos rodeia, que espécies existem na zona e como se comportam.

Por fim, existe a mitigação de conflitos. Aqui, a ideia é reduzir experiências negativas ou compensar más experiências passadas. É importante reconhecer que a natureza pode ser perigosa e que, dependendo do contexto, sentimentos negativos podem ser plenamente racionais. Um exemplo: agricultores podem ter razões concretas para reagir negativamente quando animais selvagens destroem culturas. A mitigação de conflitos propõe estratégias para reduzir esse tipo de dano.

Uma dimensão muitas vezes decisiva é a confiança na gestão do território. Quando as pessoas sentem que existem medidas eficazes - informação clara, sinalização adequada, planos de prevenção e respostas rápidas a incidentes - tendem a encarar a presença de vida selvagem com menos ansiedade e menos hostilidade.

O que falta na investigação sobre biofobia

A literatura que analisámos, sobretudo oriunda da psicologia e das ciências sociais, concentra-se nos efeitos sobre as pessoas, mas frequentemente define “natureza” de forma demasiado abrangente ou, pelo contrário, excessivamente estreita.

Já as ciências ambientais privilegiam os impactos na conservação, mas muitas vezes simplificam em demasia os contextos sociais e os factores psicológicos. Para nós, é evidente que é necessário unir estas duas perspectivas complementares sobre a biofobia para a compreender melhor e, em última instância, a reduzir.

Se sente alegria e relaxamento ao ar livre, faz parte da maioria. Ainda assim, os estudos sugerem que as taxas de biofobia estão a aumentar.

À medida que nos afastamos da natureza - vivendo em ambientes urbanos onde plantas e animais selvagens se tornam um eco distante - torna-se ainda mais importante preservar o gosto pela natureza, sobretudo se queremos manter os benefícios para a saúde e garantir ecossistemas estáveis.

Em última análise, reconhecer a nossa aversão à natureza é essencial para inverter a tendência de relações negativas com o mundo natural.

Johan Kjellberg Jensen, Investigador visitante em Ciências Ambientais, Universidade de Lund

Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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