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Estudo revela que o trânsito afeta de forma curiosa o campo elétrico da atmosfera.

Homem com bata branca mede poluição do ar numa rua movimentada numa cidade ao pôr do sol.

As medições detalhadas realizadas na área metropolitana de Telavive, em Israel, mostraram de que forma o sobe e desce do tráfego ao longo da semana altera o campo elétrico atmosférico gerado pela atmosfera da Terra.

Como se forma o campo elétrico atmosférico (e porque pode variar)

O campo elétrico atmosférico resulta de diferenças naturais de carga entre a superfície terrestre e as camadas superiores da atmosfera. Esse “circuito” planetário é alimentado, em grande medida, pelas correntes e separações de carga associadas às tempestades.

Ainda assim, este circuito não é estático: sofre influência de múltiplos fatores, desde oscilações do tempo local até poluição do ar. Embora já existam medições semelhantes noutras regiões do mundo, algumas zonas - como partes do Mediterrâneo ocidental - continuam por analisar com o mesmo nível de detalhe.

Tráfego em Telavive e o campo elétrico atmosférico: o que foi medido em Holon

O trabalho foi liderado por investigadores da Universidade Hebraica de Jerusalém (Israel). Em 2024, a equipa instalou um medidor de campo elétrico (um equipamento do tipo field mill) na cidade de Holon e comparou os seus registos com dados de qualidade do ar durante sete meses.

Para reduzir “ruído” nos resultados, só foram considerados dias de bom tempo, excluindo-se situações em que chuva e tempestades poderiam introduzir interferência nas medições.

Poluentes acompanhados: gases, partículas e compostos secundários

O estudo acompanhou vários poluentes específicos, incluindo: - Gases e partículas associados aos gases de escape; - Partículas provenientes do desgaste dos pneus; - Compostos adicionais formados por reações químicas na atmosfera a partir de outros gases.

Segundo os autores, ao cruzarem os registos do campo elétrico com dados locais de qualidade do ar e meteorologia, avaliaram como as partículas finas (PM2.5) e os óxidos de azoto (NOx) - dois dos principais poluentes urbanos - influenciam o Gradiente de Potencial (PG), um indicador usado como aproximação do campo elétrico atmosférico perto do solo.

Picos de NOx, horas de ponta e resposta quase imediata do Gradiente de Potencial (PG)

Os dados indicaram que a poluição associada ao tráfego em Telavive tem um efeito rápido no campo elétrico atmosférico da região. Em particular, os NOx e a congestão automóvel atingiram máximos nos mesmos períodos: as horas de ponta no início e no fim do dia de trabalho.

O geocientista Roy Yaniv, da Universidade Hebraica de Jerusalém, resume a ligação observada como um mecanismo físico direto entre picos de emissões e variabilidade elétrica. Na sua explicação, os óxidos de azoto reduzem a condutividade atmosférica de forma muito rápida, pelo que o campo elétrico reage quase instantaneamente durante as horas de maior tráfego.

PM2.5: ligação ao campo elétrico, mas com atraso de cerca de 2,5 horas

Também foi encontrada uma associação entre as PM2.5 e o campo elétrico, mas com um atraso de aproximadamente duas horas e meia. A equipa atribui esta diferença a características distintas destas partículas, como: - o tamanho; - a composição química; - o tempo de permanência na atmosfera.

Efeito de fim de semana: menos poluição, campo elétrico mais fraco

O estudo identificou ainda um efeito de fim de semana: reduções marcadas na poluição de tráfego coincidiram com um enfraquecimento do campo elétrico. Para os investigadores, esta correspondência reforça que a relação entre tráfego e eletricidade atmosférica não é casual.

Porque é que a poluição muda a eletricidade do ar: o papel dos iões

A explicação para o efeito passa pelos iões, partículas com carga elétrica presentes no ar. Certos poluentes conseguem capturar iões, diminuindo a condutividade do ar. Quando a condutividade baixa, ocorre um efeito compensatório: o campo elétrico junto ao solo tende a intensificar-se.

Estudos anteriores já tinham mostrado que o fumo urbano pode perturbar o campo elétrico à nossa volta; aqui, os autores apresentam evidência robusta de que a poluição do tráfego também consegue produzir alterações mensuráveis.

Isto é perigoso? E o que pode servir para a saúde pública?

Estas variações não são consideradas perigosas, tal como o próprio campo elétrico atmosférico não representa, por si, um risco. As mudanças observadas são relativamente pequenas e não seriam suficientes para desorganizar sistemas meteorológicos nem para interferir com equipamentos eletrónicos.

O ponto mais relevante poderá ser a utilidade prática: medições do Gradiente de Potencial (PG) e do campo elétrico atmosférico podem tornar-se uma ferramenta complementar para monitorizar a poluição do ar nas cidades, acrescentando informação sobre a exposição a fumos de tráfego e os potenciais impactos na saúde.

Numa perspetiva de gestão urbana, integrar este tipo de dados com redes de monitorização tradicionais pode ajudar a identificar padrões horários e semanais de emissões, avaliar medidas de redução de tráfego e melhorar a leitura do que acontece em zonas densamente povoadas, onde as influências humanas são especialmente fortes.

Os autores concluem que os resultados aprofundam a compreensão da interação entre poluição urbana e campo elétrico local, sublinhando a importância de incorporar dados de qualidade do ar em estudos de eletricidade atmosférica - com implicações para a saúde pública.

A investigação foi publicada na revista Investigação Atmosférica.

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