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Este país europeu desafia os EUA ao criar um míssil próprio para substituir o lendário Tomahawk.

Dois homens com coletes refletivos junto a um torpedo em oficina com cais e contentores ao fundo.

A Holanda colocou à sua indústria de defesa um desafio quase provocatório: conceber, em território nacional, um míssil de cruzeiro de longo alcance - depressa e com qualidade suficiente para começar a reduzir a dependência do país dos Tomahawk de fabrico norte-americano.

Relógio de seis meses: o arranque em Roterdão para um míssil de cruzeiro neerlandês

O ponto de partida foi dado em Roterdão, a 20 de novembro de 2025, durante a feira de indústria de defesa NEDS. Na ocasião, o Secretário de Estado da Defesa neerlandês, Gijs Tuinman, lançou publicamente o repto: apresentar em apenas seis meses um conceito credível de míssil de cruzeiro desenvolvido no país.

A intenção não passa por reproduzir o Tomahawk ao pormenor. O que os responsáveis neerlandeses procuram é uma solução mais leve na ambição tecnológica, mais simples de fabricar e mais barata de adquirir, mas que continue a oferecer alcance e precisão com credibilidade contra alvos valiosos ou fortificados, bem para lá da linha da frente.

Um míssil de cruzeiro nacional é apresentado menos como um capricho e mais como resposta a um mercado global saturado, onde países de dimensão média acabam, vezes demais, empurrados para o fim da fila.

Para tornar o convite irresistível, o Ministério da Defesa acenou com um incentivo de peso: qualquer empresa - ou consórcio - que entregue um desenho de conceito convincente dentro do prazo poderá beneficiar de encomendas plurianuais, assegurando o volume de produção necessário para tornar o programa financeiramente sustentável.

Porque é que Haia quer um míssil próprio

O mercado mundial de mísseis está sob forte pressão. A procura por armas de precisão de longo alcance disparou após a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, somando-se a sucessivas crises regionais no Médio Oriente e na Ásia. A oferta, por sua vez, tem tido dificuldade em acompanhar.

Neste contexto, os grandes atores - como os Estados Unidos e as principais potências europeias - tendem a garantir primeiro as vagas de produção. Aliados mais pequenos, incluindo a Holanda, ficam frequentemente a aguardar, ou acabam por reduzir objetivos. Esse desequilíbrio reforçou o interesse em capacidade industrial soberana.

A lógica neerlandesa é simples: produzir em casa, gerir stocks próprios e não ficar à mercê de decisões externas de exportação nem de linhas de produção congestionadas.

Além disso, um programa nacional cria efeitos indiretos relevantes: estimula competências em aerodinâmica, integração naval, eletrónica e testes, e pode consolidar uma cadeia de fornecimento local com utilidade para outros projetos de defesa. Ao mesmo tempo, implica escolhas difíceis sobre licenças, controlo de exportações e proteção de componentes críticos - sobretudo quando se pretende vender a terceiros.

O que se espera que o míssil neerlandês faça (ataque de precisão em profundidade)

O requisito descrito por Tuinman centra-se no que as forças armadas designam por ataque de precisão em profundidade: atingir alvos muito para lá da frente de combate, onde os drones podem falhar por limitações de alcance, sobrevivência ou resistência a interferências e bloqueio de sinais.

A arma imaginada deverá:

  • Atingir várias centenas de quilómetros, com potencial para chegar a 1 000 km
  • Recorrer a componentes de guiamento modernos, mas amplamente disponíveis
  • Ser robusta e fácil de produzir em quantidade
  • Integrar-se rapidamente nas plataformas navais neerlandesas já existentes
  • Manter um custo compatível com o uso nacional e com mercados de exportação

Os responsáveis descrevem o conceito como “rústico, mas letal”: não um palco para tecnologia de vanguarda por vaidade, mas um míssil “de trabalho” que se consiga fabricar em escala com tecnologias comerciais e militares já consolidadas.

Em vez de tentar replicar todas as funcionalidades de topo de um Tomahawk, a aposta neerlandesa aponta para uma espécie de versão “Volkswagen” do míssil de cruzeiro: fiável, com preço razoável e suficiente para a maioria das missões.

Tomahawk: continuam a comprar - por enquanto

Lançar um programa nacional não significa abandonar equipamento norte-americano. Em abril de 2025, a Holanda formalizou uma compra significativa aos EUA: 163 Tomahawk Block V e 12 Tomahawk Block IV, num total de cerca de 2,19 mil milhões de dólares.

Estes mísseis serão disparados a partir dos sistemas de lançamento vertical Mk 41 instalados nas fragatas classe De Zeven Provinciën da Marinha Real Neerlandesa. Um primeiro tiro de teste, realizado em março pela fragata Zr.Ms. De Ruyter em cooperação com a Marinha dos EUA, validou o conceito de integração.

Com um alcance superior a 1 500 km, os Tomahawk dão de imediato à Holanda uma capacidade de ataque naval de longo alcance, permitindo atingir alvos em terra a grande profundidade a partir de águas internacionais - uma dimensão de alcance que a frota neerlandesa não tinha, até aqui, nesta escala.

Há, porém, uma limitação relevante: os submarinos neerlandeses não os podem usar. A versão lançada de submarino, UGM‑109, já não está em produção, e reativar essa linha para um cliente relativamente pequeno seria extremamente dispendioso.

O plano para submarinos: uma solução norueguesa

Para os futuros submarinos classe Orka, a Holanda está a virar-se para a norueguesa Kongsberg e para o Joint Strike Missile – Submarine Launched (JSM‑SL), uma variante do JSM adaptada para disparo a partir de tubos lança-torpedos.

O JSM‑SL deverá oferecer voo a baixa altitude, com perfil rasante ao mar, alcance superior a 300 km e um pacote de guiamento multimodo que combina GPS, navegação inercial, imagem por infravermelhos e deteção passiva por radiofrequência. A integração nos novos submarinos neerlandeses é apontada para cerca de 2032.

Desta forma, a estratégia neerlandesa passa a organizar-se em três camadas:

  • Tomahawk: capacidade imediata e de topo de ataque naval a partir de navios de superfície
  • JSM‑SL: capacidade de médio prazo para submarinos
  • Míssil nacional: solução intermédia e flexível para reduzir dependência de importações

No conjunto, esta abordagem traduz uma mudança: de uma postura de comprador quase total para um modelo misto, combinando sistemas importados de topo com uma opção soberana “suficientemente boa” sob controlo neerlandês.

Tomahawk: a referência que os neerlandeses querem desafiar

Qualquer míssil neerlandês novo terá de conviver com a sombra do Tomahawk, uma das armas mais reconhecíveis da guerra moderna. Utilizado pela primeira vez na Guerra do Golfo de 1991, marcou presença em quase todas as grandes campanhas norte-americanas desde então, dos Balcãs ao Iraque, à Síria e à Líbia.

Um Tomahawk típico mede cerca de 5,5 metros e pesa aproximadamente 1,3 toneladas. É impulsionado por um pequeno motor turbofan, voando a cerca de 880 km/h, procurando seguir o relevo para se manter, quando possível, abaixo da cobertura radar. A ogiva, com cerca de 450 kg, permite atacar estruturas fortificadas ou centros de comando com elevada precisão.

O sistema de navegação combina várias camadas: GPS, navegação inercial, correspondência de contornos do terreno e comparação de imagem. Algumas versões conseguem permanecer em espera nas proximidades, alterar o objetivo em voo ou navegar com base em imagens pré-carregadas.

Esse nível de sofisticação também se reflete no preço. Um Tomahawk é frequentemente estimado em cerca de 2 milhões de euros, e as linhas de produção dos EUA estão muito solicitadas, sobretudo enquanto se reconstituem stocks.

Como poderá posicionar-se o conceito neerlandês

Tendo em conta as ambições divulgadas e as capacidades industriais atuais, é expectável que o futuro míssil neerlandês fique algures entre um Tomahawk e um JSM em complexidade e custo.

Modelo Origem Alcance aproximado Velocidade Guiamento provável Plataformas de lançamento Preço-alvo
Tomahawk Block V Estados Unidos ~1 600 km ~880 km/h GPS, inercial, correspondência de terreno e de imagem Células de lançamento vertical ~2 milhões de euros
JSM‑SL Noruega >300 km Subsónica GPS, INS, IV, RF passiva Tubos lança-torpedos de submarino ~1 milhão de euros
Futuro míssil neerlandês Holanda ~500–1 000 km (objetivo) Subsónica GPS, inercial, provavelmente sensor de imagem Modular (navios de superfície; possivelmente terrestre) ~0,5–1 milhão de euros (objetivo)

Este intervalo de preços poderá torná-lo especialmente apelativo para outros países europeus que pretendam uma capacidade de ataque de longo alcance compatível com a NATO, sem pagar valores típicos de Tomahawk ou do MdCN francês.

Um fator adicional será a integração: “rápido” não depende apenas do míssil, mas também de certificações, software de combate, segurança a bordo, logística e treino. Se o desenho for realmente modular, poderá facilitar a adaptação a células de lançamento vertical e, eventualmente, a lançadores terrestres - mas cada variante traz testes e validações próprias.

Aposta no mercado europeu de exportação

Tuinman tem sido explícito quanto ao objetivo de exportar. Se o míssil cumprir o desempenho esperado e mantiver um preço controlado, países como Bélgica, Alemanha, França, Itália ou Espanha poderão considerar a opção, já que todos enfrentam procura crescente por munições de longo alcance e orçamentos de defesa sob tensão.

Para a Holanda, tornar-se fornecedora - e não apenas compradora - tem relevância política e estratégica: aumenta influência nos debates europeus de defesa e reforça o controlo sobre os seus próprios stocks em cenário de crise.

Numa Europa em que as munições se tornaram um recurso escasso, deter uma linha de produção de uma arma-chave começa a funcionar como uma espécie de apólice de seguro.

Termos essenciais e o que significam

Para quem não acompanha estes temas de perto, há conceitos que estão no centro desta aposta neerlandesa:

  • Míssil de cruzeiro: arma guiada que voa como uma pequena aeronave, geralmente a baixa altitude, com propulsão durante todo o percurso. Distingue-se de um míssil balístico, que sobe numa trajetória alta e regressa depois em queda para o alvo.
  • Sistema de lançamento vertical (VLS): grelha de tubos verticais embutidos no convés de um navio de guerra, permitindo lançar diferentes mísseis na vertical antes de estes virarem em direção ao alvo.
  • Ataque em profundidade: capacidade de atingir alvos muito no interior do território inimigo - como bases aéreas, depósitos logísticos ou centros de comando - sobretudo nas fases iniciais de um conflito.

Como isto pode funcionar numa crise real

Imagine-se uma crise rápida no flanco leste da NATO. Fragatas neerlandesas no Mar do Norte ou no Báltico poderiam lançar Tomahawk contra nós críticos a mais de 1 000 km, mantendo em paralelo um stock mais pequeno de mísseis neerlandeses para alvos menos exigentes e mais próximos.

Se o fornecimento dos EUA abrandar, ou se um aliado maior priorizar as suas próprias necessidades, forças neerlandesas - e eventualmente outras europeias - poderiam apoiar-se com maior intensidade no míssil produzido localmente para sustentar operações. Esta combinação de sistemas importados de topo com armas regionais de “volume” lembra a forma como alguns países equilibram aviões de combate avançados com drones mais económicos.

Os riscos concentram-se no excesso de otimismo quanto a prazos e custos. Projetar, testar e certificar um novo míssil de cruzeiro é um processo complexo, envolvendo aerodinâmica, propulsão, guiamento, desenho de ogiva e normas de segurança. Seis meses para um primeiro conceito é um calendário agressivo, e a experiência mostra que programas deste tipo tendem a derrapar.

O ganho potencial, porém, pode ser significativo: um reajuste parcial da dependência europeia de um número reduzido de fornecedores. Se a Holanda conseguir transformar um discurso arrojado numa feira em Roterdão numa arma funcional e produzida em escala, poderá - discretamente - alterar quem define, no continente, a política de ataque de longo alcance.

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