À medida que a guerra na Ucrânia se arrasta e as alianças se desgastam, um grupo de democratas seniores dos EUA ruma a Munique com um recado directo para a Europa. Em vez de tentarem suavizar as tensões transatlânticas na Conferência de Segurança de Munique, querem pressionar os líderes europeus a deixarem de acomodar os choques de política externa de Donald Trump e a prepararem-se para os enfrentar de forma frontal.
Democratas chegam à Conferência de Segurança de Munique com um aviso - não com garantias
A delegação democrata norte-americana deste ano em Munique destaca-se por ser, ao mesmo tempo, mais mediática e mais combativa do que é habitual. Entre os participantes estão o governador da Califórnia, Gavin Newsom, a congressista de Nova Iorque Alexandria Ocasio-Cortez, o senador do Arizona Ruben Gallego e a governadora do Michigan Gretchen Whitmer - figuras associadas a algumas das críticas mais duras a Trump no plano interno.
Tradicionalmente, o encontro em Munique serve para projectar unidade entre Washington e as capitais europeias. Desta vez, a expectativa é outra: os democratas deverão defender que a Europa deixe de tentar seduzir Trump para obter cooperação e passe a construir capacidade de pressão face a ameaças relacionadas com comércio, Nato e Ucrânia.
Os democratas querem que a Europa deixe de tratar Trump como uma tempestade imprevisível e passe a encará-lo como uma realidade política que exige estratégia.
Newsom já testou esta linha noutros palcos. Em Davos, ridicularizou a tendência europeia para “apaziguar” Trump, argumentando que isso faz os aliados dos EUA parecerem frágeis e desesperados. Gallego foi ainda mais longe, acusando Trump de corroer a credibilidade externa dos Estados Unidos e de colocar em risco o peso económico do país “por razões mesquinhas”. Em Munique, estas mensagens deverão ser dirigidas tanto a ministros europeus apreensivos como ao próprio ex-presidente.
Marco Rubio lidera a delegação oficial, mas a clivagem está à vista
Em termos formais, a delegação norte-americana é chefiada pelo secretário de Estado Marco Rubio, empenhado em tranquilizar governos europeus de que Washington continua a valorizar a Nato e a União Europeia. Em paralelo, porém, o grupo democrata planeia a sua própria sequência de reuniões com responsáveis europeus, centros de reflexão e organizações da sociedade civil.
Até aqui, era comum políticos norte-americanos, de ambos os partidos, evitarem expor em Munique as disputas domésticas. Desta vez, a divisão interna passa a ser o tema central. Os democratas deverão dizer, com uma franqueza pouco habitual, que a Europa não deve contar com um regresso rápido ao antigo padrão transatlântico - porque esse regresso pode simplesmente não acontecer.
Por detrás desta posição está um cálculo em Washington: a descida de Trump nas sondagens e as crescentes rebeliões republicanas sobre tarifas podem não bastar para impedir um segundo mandato, ou pelo menos mais dois anos de incerteza. Os democratas sabem que muitas capitais europeias esperam silenciosamente um “regresso à normalidade”; a sua tese é que esperar por esse desfecho, por si só, já constitui um risco de segurança.
Europa dividida perante Donald Trump: resistir ou manter a ligação?
A Europa chega a Munique com a sua própria fratura sobre a melhor forma de lidar com Trump. Dois campos estão a consolidar-se e a endurecer posições.
| Abordagem | Voz principal | Ideia central |
|---|---|---|
| Diplomacia desafiante | Emmanuel Macron | Responder em público, reforçar o poder europeu, deixar de ceder a pressão dos EUA. |
| Atlanticismo conciliador | Mark Rutte (Nato) | Manter Trump envolvido, evitar ruturas, a Europa não se consegue defender sozinha. |
O presidente francês Emmanuel Macron qualificou a administração Trump como “abertamente anti-europeia” e acusou-a de procurar “desmembrar” a UE. Aponta as ameaças tarifárias associadas à tentativa de Trump de se apropriar da Gronelândia como um ponto de viragem: quando a Europa sinalizou uma retaliação económica séria, Trump recuou. Para Macron, isso demonstrou que a Europa tem mais influência do que imagina - se optar por a utilizar.
No campo oposto, o secretário-geral da Nato, Mark Rutte, alerta que a narrativa de “ir sozinho” é ilusória. Defende que a defesa europeia - sobretudo face à Rússia - continua a depender fortemente de logística, informações e dissuasão nuclear norte-americanas. Na sua leitura, hostilizar Trump pode afastar ainda mais Washington da segurança europeia exactamente quando o futuro da Ucrânia está em jogo.
Um diplomata báltico resumiu o dilema quotidiano: tornar o seu país mais relevante para Washington e, ao mesmo tempo, preparar-se para o dia em que Washington se afasta.
A discussão não é apenas estratégica; é também industrial. Mesmo com orçamentos de defesa a subir, a capacidade de produzir munições, sistemas de defesa aérea e componentes críticos continua limitada por cadeias de fornecimento, prazos de fabrico e licenciamento. Em várias capitais, ganha força a ideia de que reforçar a base industrial de defesa europeia é tão importante como aumentar percentagens do PIB.
Há ainda um factor político interno: os governos europeus têm de sustentar, perante eleitorados cansados, o custo de energia, defesa e apoio à Ucrânia. A gestão de Trump torna-se, assim, um tema que cruza política externa com coesão social - e com o risco de forças populistas explorarem qualquer sensação de vulnerabilidade.
Um mundo a deslizar de regras para acordos
A reunião em Munique decorre num contexto mais amplo de reavaliação do sistema global. Líderes ocidentais, de Londres a Otava, falam cada vez mais como se a antiga ordem baseada em regras já tivesse cedido lugar a uma era mais dura e transaccional.
O primeiro-ministro canadiano Mark Carney captou esse ambiente em Davos ao defender que o quadro pós-Guerra Fria, assente em tratados e instituições, está irremediavelmente quebrado. Em vez de o lamentarem, afirmou, potências médias - como os Estados europeus - deveriam começar a moldar um novo sistema capaz de resistir à pressão simultânea de Washington e de Pequim.
Esta sensação de “interregno” atravessa a agenda de Munique. O chanceler alemão Friedrich Merz, o primeiro-ministro do Reino Unido Keir Starmer, a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen e Macron deverão apresentar versões de uma política externa europeia mais autónoma. A mensagem democrata encaixa directamente nessa conversa: se os EUA sob Trump actuarem como apenas mais uma grande potência, a Europa precisa de um plano coerente próprio - não de nostalgia.
Ucrânia, China e o caminho longo para a defesa europeia
A Ucrânia continua a prender o destino europeu às decisões de Trump. Trump exige um acordo de paz rápido, em termos amplamente alinhados com Vladimir Putin, posição repetida pelo vice-presidente JD Vance, que insiste que o conflito “não é a nossa guerra”. Qualquer alteração no apoio militar ou financeiro dos EUA afectaria Kiev em poucas semanas e obrigaria a Europa a decidir até onde está disposta - e capaz - de preencher o vazio.
Starmer tem sublinhado que, mesmo com garantias de segurança europeias ambiciosas para a Ucrânia, persistem dependências de capacidades norte-americanas, sobretudo poder aéreo e mísseis de longo alcance. Os orçamentos de defesa no continente estão a aumentar, mas um rearmamento a sério demora uma década, não apenas um ciclo orçamental.
Em paralelo, a Europa aproxima-se de uma linha mais independente em relação à China. Líderes como Carney, Starmer e Macron tentaram reduzir tensões com Pequim, sinalizando preferência por redução de risco nas cadeias de abastecimento, em vez de uma separação total. A China, ao observar Trump a desmantelar estruturas multilaterais de comércio, vê oportunidades crescentes para atrair indústria e financiamento europeus para a sua órbita.
- A Ucrânia mantém a Europa militarmente ligada a Washington.
- A China prende a Europa a uma relação económica complexa.
- As tarifas e sanções de Trump ameaçam as duas frentes em simultâneo.
Este triângulo força governos da UE a gerir pressões contraditórias: alinhar com Washington na segurança, preservar acesso a mercados chineses e manter apoio interno a custos mais altos de defesa e energia.
Recusas simbólicas e movimentos discretos de afastamento de Washington
Já surgem sinais de um desacoplamento lento em relação a Washington sob Trump. Itália e Polónia - tradicionalmente próximas de administrações norte-americanas - recusaram recentemente integrar o “Conselho da Paz” de Trump, uma iniciativa que críticos descrevem como um projecto de vaidade destinado a colocar Trump no centro de qualquer processo de paz relevante, marginalizando as Nações Unidas.
Para os democratas, estas recusas são um sinal positivo: sugerem que alguns governos europeus começam a ponderar o dano de longo prazo de alimentar o teatro político de Trump. A delegação democrata deverá incentivar mais respostas colectivas deste tipo, argumentando que reacções fragmentadas apenas encorajam Trump a testar cada Estado individualmente, um a um.
Os enviados democratas querem que a Europa use em conjunto o seu peso económico, o seu poder regulatório e a sua influência diplomática, em vez de esperar por uma mudança de personalidade em Washington.
Como pode ser, na prática, “fazer frente a Trump”
Por detrás da retórica, vários responsáveis europeus em Munique estão a desenhar cenários com discrição. Fazer frente a Trump não implica necessariamente romper com os EUA; pode significar definir linhas vermelhas mais claras e preparar respostas automáticas quando essas linhas forem ultrapassadas.
Exemplos frequentemente discutidos em círculos de políticas públicas incluem:
- Pacotes tarifários coordenados que entrem em vigor caso os EUA visem sectores europeus específicos.
- Um fundo de segurança liderado pela Europa para a Ucrânia, capaz de manter o fluxo de armas mesmo se a ajuda norte-americana for interrompida.
- Declarações conjuntas de aliados da UE e não-UE (como Reino Unido e Noruega) recusando reconhecer qualquer acordo para a Ucrânia imposto em termos russos.
- Mecanismos acelerados para deslocar cadeias de abastecimento para fora de países que instrumentalizam a política comercial, incluindo os EUA quando recorrem a sanções extraterritoriais para ganhos políticos internos.
Nenhuma destas medidas cortaria relações com Washington, mas mudaria o registo: de suplicante para parceiro com capacidade de pressão. É essa postura que os democratas dizem querer ver, também porque reduziria a margem de manobra de Trump no plano interno. Um presidente dos EUA perante respostas europeias coordenadas e credíveis tem menos espaço para transformar a política externa em espectáculo de campanha.
Conceitos-chave que os europeus ponderam em Munique sobre Donald Trump
Vários termos técnicos reaparecem em conversas de corredor e painéis paralelos. Compreendê-los ajuda a perceber o que está realmente em causa.
Autonomia estratégica é a capacidade da Europa actuar segundo os seus próprios interesses de segurança sem depender dos EUA. Não implica independência total, mas exige capacidade militar, económica e tecnológica suficiente para dizer não quando exigências americanas ou chinesas colidem com objectivos europeus.
Garantias de segurança para a Ucrânia tendem a incluir compromissos de longo prazo em armamento, treino e informações, bem como consequências claras se a Rússia violar qualquer futuro acordo. Sem participação dos EUA, estas garantias tornam-se menos credíveis - razão pela qual líderes europeus continuam a invocar a Nato mesmo quando avançam com novos quadros de defesa da UE.
Ordem baseada em acordos descreve um sistema em que grandes potências fazem entendimentos pontuais em vez de seguirem regras estáveis. Nesse ambiente, países pequenos e médios ganham segurança não apenas através de tratados, mas por via de coligações, acordos sobrepostos e capacidade de reagir rapidamente quando as condições mudam. Em Munique, os democratas estão, na prática, a defender que a Europa tem de se ajustar a este mundo - porque Trump o personifica.
Se esta transição se consolidar, os próximos encontros em Munique poderão mudar de foco. Em vez de se discutir como “reparar” a relação transatlântica, o debate poderá centrar-se em como dois centros de poder - uma Europa mais auto-suficiente e uns EUA mais transaccionais - ainda conseguem cooperar sob pressão da Rússia, da China e de crises globais, independentemente de quem ocupa o Salão Oval.
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