Em bazares e salas discretas de Teerão, voltou a circular o mesmo trio de temas: sanções, urânio e o risco concreto de uma nova guerra no Médio Oriente.
Com navios de guerra norte-americanos a concentrarem-se no Golfo e com os protestos ainda a ferver no plano interno, um alto responsável iraniano garante que o seu Governo admite ceder em pontos-chave do dossier nuclear - mas apenas se Washington der sinais claros de que está, de facto, disposto a levantar sanções.
O acordo nuclear do Irão: sinais de flexibilidade condicionados ao alívio de sanções
O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Majid Takht-Ravanchi, disse à BBC, em Teerão, que o país está preparado para aceitar compromissos com vista a um novo acordo nuclear com os Estados Unidos.
Teerão afirma que aceita discutir limites às suas actividades nucleares se Washington estiver genuinamente disponível para aliviar a pressão económica que asfixia a economia iraniana.
Do lado norte-americano, há muito que responsáveis em Washington defendem que é o Irão quem arrasta as negociações, sustentando que os maiores entraves se encontram em Teerão e não na capital dos EUA.
A linha da administração Biden mantém-se alinhada com posições anteriores: disponibilidade para continuar a falar, mas com forte cepticismo relativamente às intenções e ao comportamento do Irão, dentro e fora do país.
Takht-Ravanchi rejeitou essa leitura e foi taxativo ao afirmar que “a bola está do lado da América”, desafiando Washington a demonstrar que procura um entendimento - e não apenas aumentar a sua margem de pressão.
Porque é que o alívio de sanções é tão determinante para Teerão
Para o Irão, as sanções não são apenas uma moeda negocial: são um aperto diário e palpável.
Medidas dos EUA e da Europa reduziram drasticamente as exportações de petróleo do Irão, limitaram o seu sector bancário e afastaram empresas estrangeiras de operações no país. O resultado, segundo o próprio Teerão, traduz-se em inflação elevada, desemprego e falhas no acesso a medicamentos importados e a componentes industriais.
Na prática, qualquer acordo nuclear com peso político no Irão terá de responder a três perguntas interligadas:
- Quanto petróleo poderá vender legalmente - e em que condições
- Com que facilidade conseguirá movimentar dinheiro além-fronteiras
- Até que ponto investidores estrangeiros poderão regressar aos sectores da energia e da indústria transformadora
Sem avanços nestes pilares, responsáveis iranianos admitem que será difícil justificar concessões perante a opinião pública interna, onde a desconfiança em relação às promessas norte-americanas continua elevada desde o colapso do acordo de 2015.
O dossier nuclear: urânio, linhas vermelhas e margem de manobra
Proposta para diluir a reserva de urânio enriquecido a 60%
O coração das conversações é a crescente reserva iraniana de urânio enriquecido a 60%, um nível próximo do grau adequado para armamento.
O Irão insiste que o seu programa é pacífico; ainda assim, a quantidade acumulada e o nível de enriquecimento acionaram alertas em capitais ocidentais e em Israel.
Takht-Ravanchi apontou para um gesto que Teerão diz estar disposto a fazer: diluir parte desse urânio enriquecido a 60%, tornando-o menos adequado para uma arma nuclear e mais simples de acompanhar e verificar.
O Irão indica que pode reverter algumas das partes mais contestadas do seu programa, se o alívio de sanções fizer parte do acordo.
O vice-ministro não confirmou, contudo, se o Irão voltaria a enviar urânio enriquecido para o estrangeiro, como sucedeu no acordo de 2015. Disse ser “cedo demais” para antecipar o conteúdo de um pacote final.
Rússia e outras opções técnicas em cima da mesa
A Rússia, que no âmbito do acordo de 2015 recebeu cerca de 11 000 kg de urânio de baixo enriquecimento proveniente do Irão, fez saber que poderia voltar a receber material iraniano como parte de uma solução técnica.
Entre outras hipóteses discutidas em círculos diplomáticos, surgem:
- Suspender temporariamente o enriquecimento a níveis mais elevados
- Impor tectos ao volume total de reservas de urânio
- Permitir inspeções internacionais mais alargadas dentro do Irão
- Exportar parte do urânio enriquecido do Irão para países terceiros
Nada disto está fechado, mas o conjunto de ideias aponta para um regresso a “arranjos técnicos” que, no passado, limitaram o programa sem obrigar Teerão a abdicar totalmente do enriquecimento.
Um elemento que tende a pesar nesta engenharia técnica é o papel da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA): quanto maior for o grau de transparência e de verificação aceite, mais viável se torna, do ponto de vista político, a troca entre limites nucleares e alívio faseado de sanções - ainda que isso exija compromissos sobre acesso, calendários e mecanismos de controlo.
Enriquecimento zero está excluído, insiste Teerão
Um objectivo central do Irão é preservar o que descreve como o seu direito soberano de enriquecer urânio ao abrigo do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP).
Teerão rejeita há anos os apelos norte-americanos ao “enriquecimento zero” no seu território, classificando-os como incompatíveis com os seus direitos no quadro do tratado.
Takht-Ravanchi afirmou que Washington terá entretanto ajustado a sua posição, aceitando discretamente que algum enriquecimento em solo iraniano é inevitável se houver entendimento.
Para o Irão, o reconhecimento de um enriquecimento limitado não é apenas uma exigência técnica; é apresentado como uma questão de dignidade nacional e de direitos legais.
Esta versão entra em choque com declarações públicas recentes do Presidente Donald Trump, que afirmou aos jornalistas: “não queremos qualquer enriquecimento”. O contraste sublinha a distância entre o que se admite em salas de negociação e o que se comunica no debate político.
Mísseis, milícias e direitos humanos: temas que o Irão recusa negociar
Mísseis balísticos fora de discussão
Takht-Ravanchi foi categórico num ponto: o Irão não aceitará discutir o seu programa de mísseis balísticos com negociadores dos EUA.
Israel e vários Estados do Golfo consideram os mísseis iranianos uma ameaça directa, tendo em conta o alcance e a precisão. Teerão, por sua vez, apresenta-os como um pilar defensivo numa região onde enfrenta poder de fogo israelita e norte-americano.
Responsáveis iranianos argumentam que, quando foram atacados por Israel e pelos EUA, os mísseis foram “o que nos veio acudir”, pelo que desmantelá-los não é assunto para debate.
Os Estados Unidos e aliados regionais defendem que qualquer acordo mais abrangente deveria incluir o arsenal de mísseis do Irão e o seu apoio a grupos armados no Líbano, Síria, Iraque e Iémen. Teerão interpreta essas exigências como uma tentativa de alargar excessivamente o âmbito das negociações.
Protestos e a conversa de “mudança de regime” em Washington
A dimensão dos direitos humanos também entrou no debate. A mais recente vaga de protestos dentro do Irão - enfrentada com força letal - intensificou as críticas dos EUA ao “tratamento dos seus próprios cidadãos” por parte de Teerão.
Takht-Ravanchi acusou o Presidente Trump de incentivar a violência ao encorajar manifestantes a tomarem instituições e ao prometer que “a ajuda está a caminho”.
As autoridades iranianas dizem distinguir entre marchas pacíficas e agitação violenta. Contudo, imagens independentes verificadas por órgãos de comunicação social mostram forças de segurança a disparar sobre multidões com diversos tipos de armas.
Este aperto interno contrasta com mensagens privadas atribuídas a Washington, segundo as quais os EUA preferem uma solução pacífica e não um esforço deliberado de mudança de regime.
Omã, Genebra e a rede de mediadores regionais
Diplomacia discreta em vaivém
As conversações entre o Irão e os Estados Unidos continuam a ser indirectas. Omã, frequentemente usado como intermediário discreto no Golfo, acolheu várias rondas este ano.
Uma segunda fase está prevista para Genebra, com o ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã, Sayyid Badr bin Hamad Al-Busaidi, a transportar mensagens entre as duas partes.
O Catar e outros governos da região também entram no processo, pressionando Teerão e Washington a afastarem-se do limiar de um confronto aberto.
| Actores-chave | Papel nas conversações actuais |
|---|---|
| Irão | Propõe compromissos nucleares em troca de alívio de sanções; rejeita concessões sobre mísseis ou sobre a dimensão regional. |
| Estados Unidos | Exige limites nucleares mais apertados e constrangimentos mais amplos; mantém pressão militar. |
| Omã | Principal mediador, acolhe negociações indirectas e transporta mensagens. |
| Rússia | Propõe receber urânio iraniano como componente de uma solução técnica. |
| Israel | Opõe-se ao programa iraniano; Teerão acusa-o de sabotar a via diplomática. |
Um factor adicional - raramente dito em público, mas constante no cálculo das capitais envolvidas - é a política interna dos dois lados: a margem de manobra de Washington e de Teerão pode encolher rapidamente à medida que se acumulam pressões partidárias, crises internas e disputas de legitimidade, tornando mais difícil vender compromissos como vitórias e não como recuos.
Falta de confiança após uma ofensiva israelita inesperada
As negociações continuam marcadas pela memória da guerra de 12 dias do ano passado, desencadeada por um ataque israelita a alvos iranianos poucos dias antes de uma planeada sexta ronda de contactos indirectos em Omã.
Teerão acusa Israel de tentar destruir qualquer trajecto negocial que limite a sua liberdade de actuação ou que reduza a pressão norte-americana sobre o Irão.
Esse episódio deixou os negociadores iranianos mais cépticos quanto à capacidade do processo diplomático resistir a “spoilers” regionais.
Reforço militar e receios de uma guerra regional
Enquanto diplomatas falam, o terreno prepara-se para o pior.
Os EUA reforçaram substancialmente a presença no Médio Oriente, com mais de 40 000 militares norte-americanos espalhados por bases que o Irão descreve publicamente como “alvos legítimos” em caso de conflito.
O Irão avisa que, se perceber uma “ameaça existencial”, responderá de forma severa e toda a região poderá ser atirada para o caos.
Teerão insiste que não procura guerra, mas responsáveis descrevem um novo conflito como “traumático, mau para toda a gente”. Recordam que retaliações anteriores contra bases associadas aos EUA na região foram calibradas para evitar baixas norte-americanas.
Questionado sobre se um eventual choque futuro seria igualmente contido, Takht-Ravanchi deu a entender que, com a dimensão actual dos destacamentos dos EUA, “seria um jogo diferente”.
Governos regionais, do Golfo ao Levante, têm pressionado discretamente ambos os lados, alertando que uma guerra directa EUA–Irão faria disparar os preços do petróleo, desencadearia novas vagas de refugiados e reforçaria grupos extremistas.
Como poderá ser, na prática, um compromisso
Se as conversações em Genebra avançarem, é provável que se tente construir um pacote que troque limites nucleares e transparência por um alívio faseado de sanções.
Um cenário plausível poderá incluir:
- O Irão diluir ou enviar para fora uma parte do urânio enriquecido a 60%
- Congelar o enriquecimento em níveis mais baixos, sob monitorização de inspectores
- Reativar ou reforçar inspeções internacionais a instalações nucleares
- Os EUA descongelarem alguns activos iranianos e/ou reduzirem restrições às exportações de petróleo
- Um mecanismo automático para repor sanções (“snapback”) se o Irão violar os termos
Um entendimento deste tipo ficaria aquém do ideal iraniano de levantamento total de sanções e também não chegaria às ambições dos EUA de limitar mísseis e actividades regionais. Ainda assim, poderia baixar o risco imediato de guerra e ganhar tempo para negociações mais amplas no futuro.
Por agora, o Irão diz que chegará a Genebra “com esperança”, mas com um recado firme: quer provas de seriedade norte-americana - não apenas mais pressão. As próximas rondas mostrarão se ambos aceitam pagar custos políticos internos em troca de um Médio Oriente ligeiramente mais seguro.
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