Muitas pessoas estão convencidas de que a humanidade “venceu” a natureza graças aos milagres da civilização e da tecnologia. Há também quem defenda que, por sermos diferentes de outros seres vivos, controlamos por inteiro o nosso destino e já não precisamos de evoluir. Apesar de esta ideia ser comum, não corresponde à realidade.
Tal como qualquer outra espécie, os seres humanos foram moldados pela evolução. Ao longo do tempo, desenvolvemos - e continuamos a desenvolver - características que aumentam a nossa capacidade de sobreviver e prosperar nos ambientes onde vivemos.
Sou antropólogo e estudo a forma como as pessoas se ajustam a diferentes condições ambientais.
Neste contexto, adaptação é uma peça-chave da evolução: são traços (características do corpo ou do funcionamento do organismo) que oferecem vantagem num determinado ambiente. Quem possui esses traços tende a sobreviver com mais facilidade e a transmiti-los aos seus filhos. Com muitas gerações, essas características tornam-se mais frequentes na população.
Cultura e evolução humana: como o nosso modo de vida altera o ambiente
Os seres humanos têm duas mãos que permitem manipular ferramentas e objectos com destreza. Andamos e corremos sobre duas pernas, o que liberta as mãos para tarefas finas e complexas. E temos cérebros grandes, que nos ajudam a raciocinar, a criar ideias e a viver em grupos sociais de forma eficaz.
Este conjunto de traços facilitou o desenvolvimento da cultura. Cultura inclui as nossas ideias e crenças, bem como a capacidade de planear e de pensar no presente e no futuro. Inclui também a nossa aptidão para modificar o ambiente - por exemplo, ao fabricar instrumentos e ao produzir alimentos.
É verdade que, nos últimos milhares de anos, transformámos o mundo à nossa volta de inúmeras formas. Ainda assim, a evolução não parou: continuamos a evoluir, embora muitas vezes sob pressões diferentes das que afectaram os nossos antepassados. E, frequentemente, os ambientes que hoje nos influenciam são ambientes alterados pela nossa própria cultura.
Normalmente pensamos no “ambiente” como o clima, as plantas e os animais de um lugar. Contudo, o ambiente também inclui o que comemos e as doenças infecciosas a que estamos expostos.
Um elemento decisivo do ambiente é o clima e o tipo de condições em que conseguimos viver. A cultura ajuda-nos a reduzir a exposição ao frio, ao calor e ao sol - construímos casas, instalamos aquecimento e ar condicionado -, mas isso não nos torna imunes aos extremos de temperatura nem à intensidade dos raios solares.
A seguir, apresento exemplos de como os humanos evoluíram nos últimos 10 000 anos e de como a evolução continua a acontecer actualmente.
Um ponto adicional importante é que a tecnologia nem sempre elimina a selecção natural; muitas vezes, apenas muda o “alvo”. A vida urbana, a poluição atmosférica, o ruído constante e os ritmos de sono alterados criam novas pressões sobre o organismo. Em simultâneo, práticas culturais como dietas específicas, novos padrões de mobilidade e a forma como trabalhamos podem favorecer, ao longo do tempo, certas respostas fisiológicas em detrimento de outras.
Também existem adaptações humanas a ambientes extremos que ilustram bem esta dinâmica. Em populações que vivem há muito tempo em grandes altitudes, por exemplo, observam-se características herdadas que ajudam o corpo a lidar com menor disponibilidade de oxigénio - um lembrete de que o ambiente não é apenas “lá fora”: entra no corpo através do ar que respiramos, da luz que recebemos, da água que bebemos e dos alimentos que ingerimos.
A força dos raios solares
Embora a luz solar seja essencial para a vida no planeta, os raios ultravioleta podem danificar a pele humana. Pessoas com pele clara correm maior risco de queimaduras solares graves e de tipos perigosos de cancro da pele. Em contraste, quem tem maior quantidade de pigmento cutâneo - a melanina - dispõe de alguma protecção contra os efeitos nocivos da radiação ultravioleta.
Nas regiões tropicais, onde a luz intensa é frequente, pessoas com pele escura tendem a ter vantagem. Porém, quando grupos humanos antigos se deslocaram para zonas mais frias e nubladas, essa elevada pigmentação deixou de ser tão necessária. Nesses locais com menos sol, a pele muito escura dificultava a produção de vitamina D na pele - essencial para o crescimento normal dos ossos em crianças e em adultos.
A quantidade de melanina é determinada por genes. Assim, este é um exemplo claro de como a evolução humana pode ser orientada por condições ambientais distintas - mais sol ou mais nebulosidade - em diferentes partes do mundo.
A alimentação que fazemos
Há cerca de 10 000 anos, os nossos antepassados começaram a domesticar animais, como bovinos e cabras, para consumir a sua carne. Aproximadamente 2 000 anos depois, aprenderam também a ordenhar vacas e cabras, obtendo um alimento muito nutritivo. O problema é que, tal como a maioria dos mamíferos, os adultos humanos dessa época geralmente não conseguiam digerir leite sem ficarem doentes. Ainda assim, algumas pessoas conseguiam fazê-lo porque tinham genes que lhes permitiam digerir o leite.
Como o leite se tornou uma fonte alimentar valiosa nessas sociedades, os indivíduos capazes de o digerir estavam em melhores condições para sobreviver e ter mais filhos. Com o tempo, os genes associados a essa capacidade aumentaram na população, até que, em muitos grupos, beber leite em idade adulta se tornou comum.
Este fenómeno, que se iniciou e se disseminou há milhares de anos, é um exemplo de coevolução cultural e biológica: foi uma prática cultural - ordenhar animais - que favoreceu mudanças genéticas (biológicas) na população.
Há outros casos relacionados com hábitos alimentares e modos de vida. Entre os Inuítes da Gronelândia, por exemplo, existem genes que ajudam a metabolizar gorduras sem desenvolver certas doenças cardíacas. Já o povo Turkana, que cria gado no Quénia, vive numa região muito árida de África e apresenta um gene que permite passar longos períodos com pouca ingestão de água. Noutros indivíduos, este padrão poderia causar danos nos rins, uma vez que estes órgãos regulam o equilíbrio hídrico do corpo.
Estes exemplos mostram como a diversidade notável de dietas e estratégias de subsistência no mundo pode influenciar a evolução.
Doenças que nos ameaçam
Tal como outros seres vivos, os seres humanos sempre estiveram expostos a múltiplas doenças infecciosas. No século XIV, uma doença mortal - a peste bubónica - surgiu e espalhou-se rapidamente pela Europa e pela Ásia. Estima-se que tenha matado cerca de um terço da população europeia. Muitos dos sobreviventes possuíam um gene específico que lhes conferia resistência à doença, e essas pessoas - e os seus descendentes - estiveram em melhor posição para enfrentar epidemias que se repetiram durante vários séculos.
Algumas ameaças são bem mais recentes. A COVID-19, por exemplo, alastrou pelo mundo em 2020. As vacinações salvaram inúmeras vidas. Além disso, algumas pessoas apresentam resistência natural ao vírus, associada aos seus genes. É possível que, ao longo do tempo, a evolução aumente a frequência dessa resistência em certas populações, contribuindo para que a humanidade lide melhor com futuras epidemias virais.
No fundo, os seres humanos vivem expostos a ambientes variados e em constante mudança. Por isso, a evolução continua a actuar em muitas populações, geração após geração - inclusive neste momento.
Michael A. Little, Professor Emérito Distinto de Antropologia, Universidade de Binghamton, Universidade do Estado de Nova Iorque
Este artigo é republicado a partir de A Conversa ao abrigo de uma licença Commons Criativas. Leia o artigo original.
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