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Lucros da Porsche caíram 99%. Entenda as razões

Carro desportivo elétrico Porsche 99 prata com detalhes em cobre numa sala moderna e luminosa.

A Porsche registou um recuo abrupto no lucro operacional nos primeiros nove meses de 2025: caiu de 4,035 mil milhões de euros no mesmo período de 2024 para apenas 40 milhões de euros. Esta evolução representa uma quebra de 99%, colocando 2025 entre os períodos mais exigentes para o construtor alemão.

Segundo a Porsche AG, este desempenho resulta de um conjunto de fatores que se acumularam ao longo do ano, com destaque para despesas extraordinárias associadas ao realinhamento da estratégia de produto, um mercado particularmente difícil na China (sobretudo no segmento de luxo), efeitos pontuais ligados às atividades de baterias, reorganizações internas e ainda o impacto das tarifas de importação nos EUA.

Despesas extraordinárias, tarifas de importação nos EUA e pressão na China

Até ao momento, as despesas extraordinárias já totalizam 2,7 mil milhões de euros e a empresa antecipa que possam chegar a 3,1 mil milhões até ao final do ano.

O terceiro trimestre destacou-se pela negativa: a Porsche registou um prejuízo operacional de 967 milhões de euros, contrastando com o lucro de 974 milhões de euros obtido no mesmo trimestre de 2024.

No que diz respeito às tarifas comerciais, em especial as aplicadas pelos EUA, é esperado um impacto de cerca de 700 milhões de euros ao longo de 2025, de acordo com o Dr. Jochen Breckner, membro do Conselho Executivo responsável pelas áreas de Finanças e TI da Porsche AG. Já o enfraquecimento das vendas na China deverá manter-se, segundo a marca, até 2026.

Para responder às dificuldades no mercado chinês, a Porsche planeia reduzir a sua rede de concessionários na China de 150 para 80 até 2027. Em paralelo, a empresa prevê cortar 1 900 postos de trabalho nos próximos anos, além dos 2 000 despedimentos temporários programados para 2025. A marca tenciona ainda apresentar um segundo pacote de medidas no final deste ano.

A combinação entre tarifas, abrandamento na China e custos associados a reorganizações tende a pressionar não só a rentabilidade, como também decisões de preço e de configuração de produto por mercado. Em segmentos premium, pequenos ajustamentos podem ter impacto direto na procura, o que torna a gestão do portefólio e da disponibilidade de versões ainda mais crítica.

“Os resultados deste ano refletem o impacto do nosso realinhamento estratégico. No entanto, estas medidas são essenciais. Estamos a aceitar de forma consciente resultados financeiros temporariamente mais fracos para fortalecer a resiliência e a lucratividade da Porsche a longo prazo”, afirmou Breckner.

Eletrificação na Porsche: híbridos e modelos 100% elétricos

Em setembro, a Porsche comunicou uma revisão profunda da sua estratégia de eletrificação, ao adiar o lançamento de novos modelos 100% elétricos e ao reforçar a aposta em híbridos.

Ainda assim, os eletrificados continuam a representar uma parcela importante das entregas. Dos 212 509 veículos vendidos entre janeiro e setembro, 35,2% eram eletrificados: 23,1% totalmente elétricos e 12,1% híbridos recarregáveis. Na Europa, esta percentagem atingiu 56%.

A dinâmica de eletrificação é também influenciada pela evolução das infraestruturas de carregamento, pelos incentivos e pela concorrência crescente em segmentos premium, em particular na China. Para marcas com forte herança desportiva, o desafio passa por conciliar desempenho, autonomia e experiência de condução com as exigências de custo e de escala.

O modelo mais vendido no período foi o Porsche Macan, com 64 783 unidades entregues, o que representa um crescimento de 18% face ao mesmo intervalo de 2024.

Receita de vendas em queda e margem operacional quase nula

No total, a Porsche alcançou uma receita de vendas de 26,86 mil milhões de euros. Mais preocupante do que a receita, porém, foi a trajetória da margem operacional, que desceu de 14,1% para 0,2%, evidenciando o efeito combinado das decisões estratégicas e dos custos excecionais.

“Esperamos que 2025 seja o ponto mais baixo antes de uma recuperação significativa em 2026”, acrescentou Breckner. “Estamos a renovar o portefólio, a reforçar a exclusividade dos nossos produtos e a consolidar uma base de clientes fiéis”.

Novo diretor-executivo na marca de Estugarda

A fabricante de Estugarda enfrenta igualmente mudanças na liderança. Oliver Blume, que até agora acumulava a função de diretor-executivo na Porsche e no Grupo Volkswagen, deixará o cargo na Porsche. O sucessor será Michael Leiters, que assumirá funções a 1 de janeiro de 2026.

A acumulação de responsabilidades por parte de Blume tem sido alvo de críticas, com vários analistas a defenderem que a dupla função reduzia o foco dedicado à Porsche, sobretudo num período marcado por uma viragem estratégica e por forte pressão financeira.

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