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Porque os anos começam a confundir-se

Pessoa a organizar notas adesivas num caderno com fotos, junto a jarro com papeis, câmara instantânea e telemóvel numa mesa.

A primeira vez que isso se torna realmente evidente costuma ser num reencontro. Entra-se numa sala cheia de rostos conhecidos e, por um segundo, o cérebro fica em branco. Não era suposto estarem todos ali há pouco tempo, com vinte e três anos, a beber vinho barato e a falar do futuro como se fosse um país para onde se mudaria no ano seguinte? Agora, alguém mostra fotografias de bebés, outra pessoa fala de empréstimos da casa, e a lista de músicas traz de repente canções que, aparentemente, já são “clássicos”.

A certa altura, ouve-se a frase: “Consegues acreditar que já passaram dez anos?” E toda a gente ri, porque essa frase está a carregar um peso emocional enorme. Fica-se com uma sensação estranha de vertigem, como se tivéssemos saído de uma passadeira rolante e o chão ainda estivesse a deslizar debaixo dos pés.

A parte mais bizarra é esta: no papel, trata-se apenas de tempo. Na cabeça, parece um truque de ilusionismo que correu ligeiramente mal.

Porque os anos começam a misturar-se

Pergunte a uma criança quanto tempo duram as férias de verão e ela provavelmente abre os braços como se quisesse abraçar o céu. Pergunte a uma pessoa de quarenta anos pelos mesmos três meses e talvez precise de um momento para se lembrar sequer do que fez. Isso não acontece porque as crianças sejam poéticas e os adultos, aborrecidos - embora isso também possa acontecer. A razão é outra: o cérebro de uma criança está inundado de novidade, enquanto o de um adulto já não vive tão cercado por ela.

A nossa perceção do tempo não depende apenas do relógio. Depende sobretudo da quantidade de coisas novas, surpreendentes e ligeiramente desconcertantes que o cérebro precisa de processar ao longo de um período da vida. As experiências recentes funcionam como marcadores. Quando existem muitos marcadores, o capítulo parece mais longo.

Pense no ano em que saiu de casa, começou o primeiro emprego verdadeiro ou mudou para outra cidade. Esse ano costuma parecer imenso quando é recordado. É fácil rever ruas, cheiros, conversas embaraçosas e até a cor das cortinas de um apartamento minúsculo de que não gostava nada. Havia tanto para decifrar que o cérebro trabalhava em excesso, a guardar pormenores como um bibliotecário frenético a etiquetar cada ficha.

Agora compare isso com, por exemplo, o ano passado. Talvez se lembre dos grandes títulos, de duas ou três férias e de uma sensação persistente de que passou grande parte do tempo “ocupado”. Mas os dias em si? Misturam-se. Uma semana de trabalho derrete-se na seguinte, com o mesmo percurso, o mesmo ecrã, a mesma conversa de circunstância. O cérebro, cansado da repetição, toma menos notas.

É isto que os psicólogos chamam, em termos de perceção temporal, o efeito da novidade. Quando vivemos algo novo, o cérebro dedica-lhe mais atenção e mais recursos de memória, e a nossa linha temporal interna estica. A rotina faz o contrário: comprime essa linha temporal. Menos novidade significa menos “âncoras” de memória e, quando olhamos para trás, o cérebro reduz períodos inteiros a um bloco turvo.

Do ponto de vista de dentro, essa compressão não parece falta de dados; parece que o próprio tempo acelerou. É por isso que dizemos “para onde foi o ano?” não como uma frase feita, mas como uma verdadeira confusão cognitiva.

Há ainda um fator moderno que agrava esta sensação: passamos muitos dias a alternar entre notificações, pequenas tarefas e consumo rápido de informação. O resultado é uma experiência fragmentada, mas pouco profunda. O cérebro regista muita coisa de forma superficial, e depois sobra a impressão de que quase nada aconteceu. Quando a vida é vivida em pedaços minúsculos, a memória também a guarda em pedaços pouco distintos.

Como abrandar o tempo ao introduzir novidade de propósito

Se o tempo parece acelerar quando deixamos de processar experiências novas, a solução contrária é surpreendentemente simples: é possível abrandá-lo alimentando o cérebro com mais novidade. Não se trata de novidade radical ou cara. Basta mudar de percurso, de pessoas e de competências. Caminhe por uma rua que nunca percorreu, cozinhe algo que nunca provou, ou fale com o colega a quem normalmente só acena no corredor.

O objetivo não é transformar a vida numa sequência constante de adrenalina. Trata-se de acrescentar pequenos, mas regulares, “marcos” que deem mais matéria à memória. Momentos curtos de “nunca tinha feito isto” funcionam como alfinetes a prender os dias no lugar.

Uma forma útil de pensar nisto é tratar cada semana como uma miniestação da sua vida, com pelo menos uma cena diferente. Numa semana, vá a uma conferência pública sobre um assunto de que não percebe nada. Noutra, frequente uma aula de dança ou aprenda a fazer massa fresca. Na semana seguinte, descubra uma zona da sua própria cidade que costuma ignorar. Não precisam de ser momentos dignos de fotografia; precisam apenas de ser diferentes.

A verdade é que todos já passámos por aquela situação em que se percorrem fotografias e se percebe que há meses quase vazios, preenchidos apenas com capturas de ecrã e recibos de supermercado. Esse espaço vazio na galeria também é um espaço vazio na memória. Não admira que o cérebro resuma tudo a: “Foi aquela fase em que não aconteceu grande coisa.”

Convém dizê-lo com honestidade: ninguém consegue fazer isto todos os dias sem falhar. A vida é cansativa, o dinheiro não é infinito e, por vezes, a coisa mais revolucionária que se pode fazer é ver uma série de seguida e ir para a cama cedo. O ponto não é a perfeição. O ponto é contrariar, com suavidade, uma vida que ficou demasiado polida.

Também ajuda transformar a novidade numa prática de atenção. Quando descreve uma experiência a si próprio - numa nota rápida, numa conversa ao jantar ou em três linhas antes de dormir - está a reforçar a marca que essa experiência deixa. Esse pequeno gesto de registo faz com que o dia não passe apenas por si; ajuda-o a fixar-se.

Uma psicóloga descreveu-me isto assim: “O cérebro é um contador de histórias. As experiências novas são voltas no enredo. Sem elas, a história acelera porque não há nada que a abrande. Se cada capítulo for igual, começa-se a virar páginas mais depressa sem sequer dar por isso.”

  • Altere as rotinas uma vez por semana: mude de café, de percurso para correr ou de lugar onde se senta ao almoço.
  • Marque um acontecimento memorável por mês: uma viagem de um dia, uma oficina, um concerto ou uma visita a alguém que não vê há anos.
  • Crie um pequeno registo de novidade: uma frase por noite sobre a coisa mais invulgar que viu ou fez nesse dia.
  • Não concentre toda a novidade nas férias; espalhe-a pelas semanas normais para que o ano inteiro pareça mais amplo.
  • Proteja a sua atenção: a multitarefa torna as experiências superficiais, e o que é superficial fixa-se pior na memória.

Repensar a forma como falamos de envelhecer

Quando se percebe a ligação entre novidade e tempo, muitos clichés sobre o envelhecimento começam a parecer diferentes. Talvez não seja verdade que as crianças “têm mais tempo”; talvez os seus dias estejam simplesmente cheios de primeiras vezes. Talvez a meia-idade pareça um borrão, em parte, porque fomos eliminando a surpresa em nome da estabilidade, do conforto e da eficiência.

Isso não quer dizer que se devam destruir todas as rotinas. As rotinas são o que nos mantém a funcionar. Mas significa que se pode tratar a novidade como mais do que entretenimento. Ela é uma forma de alargar, com delicadeza, a vida, para que não desabe toda na mesma pergunta: “Onde foi parar a última década?”

Até se pode notar que os dias mais longos nem sempre são os mais produtivos, mas sim aqueles em que nos permitimos voltar a ser principiantes, ainda que de forma desajeitada, em qualquer coisa pequena. Aprender uma língua aos cinquenta. Apanhar o comboio para um sítio sem plano. Fazer perguntas melhores ao jantar. Não são grandes cenas cinematográficas. São apenas formas de dizer ao cérebro, uma e outra vez: esta parte da história importa.

Percepção do tempo, memória e novidade: o que fica na prática

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A novidade estica o tempo As experiências novas são guardadas de forma mais rica na memória Ajuda a explicar por que razão a infância parece mais longa do que os anos da vida adulta
A rotina comprime a memória Os dias repetidos são armazenados como um único padrão Mostra por que meses inteiros podem parecer ter desaparecido
Pequenas mudanças bastam Ajustes mínimos nas rotinas criam novos “marcos” mentais Oferece formas práticas de sentir que a vida passa menos depressa

Perguntas frequentes

  • Pergunta 1: O tempo está realmente a acelerar à medida que envelhecemos, ou é só impressão?
    É uma questão de perceção. O relógio avança ao mesmo ritmo, mas como formamos menos memórias vívidas, o cérebro comprime grandes períodos da vida e, ao olhar para trás, o tempo parece ter passado mais depressa.

  • Pergunta 2: Isto significa que preciso de emoção constante para abrandar o tempo?
    Não. Não é necessária dramatização. Novidade suave e pouco stressante - novos lugares, competências e pessoas - chega para tornar os dias mais cheios e mais distintos.

  • Pergunta 3: Mudar a rotina pode mesmo fazer diferença nesta fase da vida?
    Sim. O cérebro consegue formar novas ligações ao longo de toda a vida. Mesmo pequenas alterações, feitas com regularidade, criam novos “marcos” na memória.

  • Pergunta 4: E se a minha vida estiver demasiado ocupada para acrescentar novas atividades?
    Pode introduzir novidade no que já faz: seguir um caminho diferente para o trabalho, ouvir um novo programa de áudio, experimentar uma receita nova ou fazer a alguém uma pergunta que nunca fez antes.

  • Pergunta 5: A tecnologia faz com que o tempo pareça passar mais depressa?
    Muitas vezes, sim. A rolagem rápida de conteúdos enche-o de estímulos, mas oferece poucas experiências profundas, por isso o cérebro guarda menos. Os momentos mais lentos e com mais atenção tendem a alargar a perceção do tempo.

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