Durante muito tempo, mudar de opinião com base em novos dados foi visto como um sinal claro de pensamento “racional” - e, supostamente, exclusivo dos humanos. Mas há indícios cada vez mais fortes de que essa fronteira não é assim tão nítida.
Uma equipa liderada pela psicóloga Hanna Schleihauf, da Universidade de Utrecht, montou uma série de experiências para testar a metacognição destes grandes primatas e observou, pela primeira vez, como os chimpanzés conseguem ponderar diferentes tipos de prova - e rever crenças quando surge um argumento mais forte.
“Este é, de facto, o teste mais forte e mais exigente para esta compreensão da chamada evidência de segunda ordem”, disse Schleihauf à ScienceAlert. “Acho que temos provas para dizer: ok, não, a racionalidade, na sua forma mais básica, não é exclusivamente humana - também partilhamos alguns processos fundamentais com os chimpanzés.”
É a escola aristotélica de filosofia que considera o ser humano o animal “racional” - a única espécie na Terra com capacidade para decisões fundamentadas. Nos últimos anos, porém, começámos a perceber que esta ideia pode ser presunçosa, já que muitos animais demonstram níveis de inteligência que Aristóteles talvez não lhes atribuísse.
Uma característica muitas vezes apontada como definidora do pensamento humano é a racionalidade. Para efeitos deste estudo, isso significa a capacidade de formar crenças sobre o mundo com base em evidências; mas, quando surgem novas evidências, um ser racional consegue comparar os dois conjuntos e, crucialmente, rever as suas crenças quando a evidência de segunda ordem sobre a evidência é mais forte.
Como é fácil imaginar, isto não é simples de testar em animais não humanos. Schleihauf e os seus colegas desenharam uma série de cinco experiências com chimpanzés (Pan troglodytes) no Santuário de Chimpanzés da Ilha de Ngamba, no Uganda. Em cada ensaio, escondia-se um pedaço de maçã numa caixa e esperava-se que o chimpanzé escolhesse uma caixa com base nas provas apresentadas.
Havia vários tipos de evidência. A evidência forte era visual: o chimpanzé via o humano a colocar fisicamente a maçã dentro da caixa, ou via a maçã no interior através de uma lateral transparente de perspex. Ouvir algo a chocalhar na caixa, ou ver algumas migalhas, era classificado como evidência mais fraca.
As duas primeiras experiências foram as mais simples. Os chimpanzés viam duas caixas e recebiam depois evidência sobre cada uma. Quando a evidência mais forte era apresentada antes da mais fraca, tendiam a manter a escolha inicial. Quando a evidência mais fraca vinha primeiro, mudavam de opinião. Até aqui, tudo bastante direto.
Na experiência seguinte, os investigadores acrescentaram uma terceira caixa para a qual não era dada qualquer evidência e, depois, retiraram a caixa com evidência forte. Aqui, os chimpanzés, na maioria, preferiram a caixa com evidência fraca à caixa sem evidência.
Na quarta experiência, a equipa apresentou evidência fraca redundante ou evidência fraca nova. No primeiro cenário, abanaram a caixa duas vezes, para que os chimpanzés ouvissem o mesmo pedaço de comida a chocalhar lá dentro; no segundo, foi-lhes apresentado o som de um segundo pedaço de comida a ser deixado cair na caixa.
É aqui que a coisa fica mais interessante. Os chimpanzés tenderam a escolher a evidência nova e adicional em vez da redundante, o que sugere que conseguem distinguir entre informação nova e antiga.
Por fim, a quinta experiência foi a decisiva. Os chimpanzés foram confrontados com a possibilidade de a evidência anterior ser falsa: o pedaço de maçã afinal era apenas uma imagem no perspex, ou era uma pedra a chocalhar dentro da caixa. Neste caso, os chimpanzés mudaram de opinião com mais frequência, rejeitando a evidência enganadora a favor de pistas mais fiáveis.
“Eu entrei mesmo sem a expectativa [de que fosse funcionar], porque ninguém tinha feito isto antes”, disse Schleihauf.
“Os animais não estão a agir apenas por instinto, e o comportamento deles segue um certo padrão, acompanhando evidências do mundo. A capacidade de responder de forma refletida à razão significa que estás realmente consciente de porque é que sustentas certas crenças. Mostrar que mudaram de opinião quando a razão foi derrubada é evidência de que têm essa capacidade.”
Os resultados sugerem que a inteligência dos chimpanzés pode estar um pouco mais próxima da forma como definimos a inteligência humana do que pensávamos. Eles conseguem pesar e comparar evidências, em vez de apenas reagir; acompanhar o que sabem e como o sabem; e reconhecer evidências pouco fiáveis, ajustando as decisões em conformidade.
Os investigadores acreditam que esta capacidade poderá ter origem num ancestral comum dos primatas, há milhões de anos; se for esse o caso, poderá ser testada noutros primatas, como capuchinhos, macacos e babuínos.
Em On the Origin of the Species, Charles Darwin escreveu: “No futuro distante vejo campos abertos para investigações muito mais importantes. A psicologia será baseada numa nova fundação, a da aquisição necessária de cada poder mental e capacidade por gradação. Será lançada luz sobre a origem do homem e a sua história.”
Talvez a psicologia atual dos chimpanzés reflita uma fase cognitiva semelhante a uma etapa do desenvolvimento que ocorreu nos primeiros humanos. Há também uma corrente de pensamento que propõe que o que separa os humanos dos outros animais é a nossa capacidade de cooperar, mais do que a nossa capacidade de pensar racionalmente.
As novas evidências parecem apoiar a ideia de que a inteligência, por si só, não é o que nos torna humanos.
“Acho que ainda existem diferenças enormes entre nós, mas também mais semelhanças do que assumíamos”, disse Schleihauf.
A investigação foi publicada na Science.
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