No dia 3 de fevereiro, registou-se mais um episódio a agravar as já tensas relações entre os Estados Unidos e a República Islâmica do Irão. Segundo avançou a imprensa internacional - incluindo a agência Reuters - um caça furtivo de quinta geração F-35C, integrado na ala aérea embarcada do USS *Abraham Lincoln, *abateu um drone iraniano** após este ter aproximado de forma agressiva o porta-aviões de propulsão nuclear que a Marinha dos EUA mantém destacado na região, dentro da área de responsabilidade do Comando Central dos EUA (USCENTCOM/CENTCOM).
Reforço militar norte-americano no Médio Oriente e presença do USS Abraham Lincoln
Nas últimas semanas, a par de protestos de grande dimensão contra o regime iraniano - com números que apontam para milhares de mortos e para manifestantes detidos -, o Governo norte-americano determinou um reforço da presença militar dos EUA no Médio Oriente.
Na sequência dessa orientação, atribuída ao Presidente Donald Trump, ao longo de janeiro e no início de fevereiro, as Forças Armadas dos EUA, juntamente com forças aliadas (como as do Reino Unido), deslocaram para o teatro de operações vários meios de elevado perfil. Entre eles, destacou-se de forma particularmente visível o grupo de ataque do porta-aviões nuclear USS *Abraham Lincoln*.
Com a presença de superporta-aviões da classe Nimitz confirmada na região dias antes, o respetivo grupo de escolta - constituído por contratorpedeiros com mísseis guiados e navios de apoio - e a ala aérea embarcada iniciaram operações. Esse contingente aéreo inclui caças F/A-18 Super Hornet, aeronaves furtivas F-35C, aviões de guerra eletrónica EA-18G Growler e plataformas de alerta aéreo antecipado E-2D Hawkeye.
O incidente: drone da Guarda Revolucionária e resposta do F-35C
Quanto ao episódio de 3 de fevereiro, a informação inicialmente divulgada indicava que o drone abatido pertencia ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irão. As primeiras referências apontavam para um Shahed-139, mas fontes iranianas - como a agência Tasnim - sustentaram tratar-se, na realidade, de um Shahed-129, um sistema não tripulado com conceito e função operacional comparáveis ao drone norte-americano MQ-9 Reaper.
À medida que a ocorrência foi confirmada e surgiram novos pormenores, foram também divulgadas declarações oficiais. O capitão de mar e guerra Tim Hawkins, porta-voz do CENTCOM, explicou ao meio especializado The War Zone que um F-35C desceu um drone iraniano em legítima defesa, com o objetivo de proteger o USS Abraham Lincoln e o pessoal a bordo. De acordo com o mesmo responsável, não houve militares norte-americanos feridos e não se registaram danos em equipamento dos EUA.
Hawkins acrescentou ainda que a aeronave não tripulada se aproximou de forma agressiva do porta-aviões, com intenção não esclarecida.
Segundo a descrição apresentada, o USS Abraham Lincoln (CVN-72) navegava no Mar Arábico a cerca de 805 km (aproximadamente 500 milhas) da costa sul do Irão quando um drone Shahed-139 realizou manobras consideradas desnecessárias na direção do navio. O porta-voz indicou igualmente que, apesar de medidas de desescalada adotadas pelas forças norte-americanas em águas internacionais, o drone manteve a trajetória em direção ao porta-aviões.
O que ainda não foi esclarecido sobre o abate
Até ao momento, não foram avançados detalhes adicionais sobre o modo exato como o F-35C efetuou o abate do drone Shahed. Permanece por esclarecer se a interceção foi realizada com mísseis ar-ar, como o AIM-9X Sidewinder (curto alcance) ou o AIM-120 AMRAAM (maior alcance), ou se poderá ter sido usada a arma de 25 mm da aeronave.
Um padrão de interceções no contexto do CENTCOM
Apesar de este incidente ocorrer num contexto regional particularmente sensível - devido à crise interna iraniana, considerada uma das mais relevantes das últimas décadas pela sua escala e pelo nível de repressão estatal e censura, e também pela presença de meios militares norte-americanos de grande visibilidade -, o episódio não é um caso isolado.
Nos últimos meses, aeronaves de combate dos EUA realizaram várias interceções e abates de drones iranianos, bem como de drones associados a forças por procuração, no âmbito de missões de vigilância e proteção dentro da área de responsabilidade do CENTCOM. Este cenário tem permitido à Força Aérea dos EUA, ao Corpo de Fuzileiros Navais (US Marine Corps) e à Marinha dos EUA aprimorar procedimentos para detetar, acompanhar e neutralizar ameaças não tripuladas.
Um aspeto relevante dessa evolução tem sido o aperfeiçoamento de táticas que privilegiam o uso de foguetes guiados em detrimento de mísseis, uma opção mais económica para lidar com veículos não tripulados de desempenho limitado ou, em alguns casos, com mísseis de cruzeiro.
Impacto operacional e gestão do risco no Mar Arábico
A presença de um grupo de ataque centrado num porta-aviões como o USS *Abraham Lincoln* implica um conjunto rigoroso de regras de proteção, dado o elevado valor estratégico do navio e das suas capacidades de projeção de poder. Drones como os Shahed podem cumprir missões de reconhecimento, recolha de informações e, nalgumas variantes, apoio a operações armadas, o que eleva o risco quando se aproximam de unidades navais em trânsito.
Em paralelo, incidentes deste tipo tendem a testar mecanismos de comunicação e prevenção de escaladas, incluindo práticas de identificação, advertência e resposta graduada. Numa área tão congestionada e disputada como o Mar Arábico e os seus acessos, qualquer aproximação ambígua a forças navais pode desencadear reações rápidas, sobretudo quando a intenção do alvo é descrita como incerta.
Fotografias utilizadas apenas para fins ilustrativos.
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