Com o arranque de uma nova edição da Feira Internacional do Ar e do Espaço (FIDAE), a empresa de defesa ASELSAN marca presença em Santiago do Chile com um portefólio amplo de sistemas, soluções e plataformas, reforçando a sua imagem de vanguarda como um dos nomes de referência da indústria de defesa turca. A Zona Militar teve a oportunidade de entrevistar o presidente e CEO da empresa, Ahmet Akyol, para conhecer, na primeira pessoa, o ponto de situação e a projecção da ASELSAN para o mercado sul-americano, identificado como uma prioridade tanto para a empresa como para a Turquia.
ZM: À medida que a ASELSAN participa na FIDAE 2026, quais são as principais expectativas para esta edição e que peso tem, hoje, a América Latina na vossa estratégia internacional?
A FIDAE é uma das mais relevantes exposições de defesa e aeroespacial da América Latina, funcionando como um ponto de encontro para decisores, indústria e delegações oficiais de toda a região.
Para a ASELSAN, a FIDAE 2026 é uma oportunidade particularmente valiosa para aprofundar o nosso compromisso com parceiros regionais. Permite-nos, por um lado, consolidar relações já existentes e, por outro, identificar novas vias de cooperação. Vemos a feira não apenas como uma montra tecnológica, mas sobretudo como um fórum estratégico de diálogo: é ali que conseguimos compreender com maior detalhe os requisitos operacionais e ajustar as nossas soluções às necessidades em transformação das diferentes forças armadas latino-americanas.
A América Latina tem vindo a ganhar crescente relevância na nossa estratégia internacional. A região vive um ciclo continuado de modernização em vários domínios, com procura crescente por soluções avançadas, integradas e com boa relação custo-eficácia. Esse movimento encaixa directamente nas nossas competências centrais, em especial na integração de sistemas, na electrónica e na modernização de plataformas.
A nossa actuação na região assenta em parcerias de longo prazo, e não em relações pontuais. Procuramos estar mais próximos dos nossos parceiros, contribuindo não só com tecnologia, mas também com cooperação industrial, transferência de tecnologia e desenvolvimento sustentável de capacidades. Neste enquadramento, a FIDAE funciona como uma porta de entrada essencial, tanto para reforçar a nossa presença como para expandir o nosso papel enquanto parceiro fiável e duradouro na América Latina.
ZM: A ASELSAN aumentou significativamente a sua presença internacional nos últimos anos. Na América Latina, como avaliam o caminho feito desde a abertura do escritório regional no Chile e que mercados despertam hoje maior interesse?
Desde a criação do nosso escritório regional em Santiago, registámos progressos consistentes e relevantes no reforço da presença da ASELSAN no Chile. Passámos de uma fase inicial de inserção e compreensão do mercado para um patamar de cooperação mais estruturada. Isso reflecte-se no avanço de programas em curso, na intensificação do diálogo com as forças armadas e entidades governamentais e numa colaboração mais profunda com a indústria local, em linha com a nossa visão de parceria de longo prazo.
Quanto aos mercados, o Chile continua a ser uma referência para nós, sobretudo devido aos esforços de modernização em curso. Em paralelo, identificamos forte potencial em diversos países da região, impulsionado por investimentos crescentes em modernização de plataformas, segurança de fronteiras, consciência do domínio marítimo e controlo do espaço aéreo. Em vez de concentrar a estratégia num único país, adoptamos uma leitura regional, focada nas oportunidades onde as nossas soluções integradas e a nossa experiência ao nível de sistemas podem gerar maior valor operacional.
Em síntese, desde a abertura do escritório, o nosso trabalho tem sido construir uma base robusta: reforçar presença, ganhar confiança e posicionar a ASELSAN como parceiro fiável e de longo prazo.
ZM: Para esta edição da FIDAE, que produtos, sistemas ou soluções considera a ASELSAN mais relevantes para apresentar às forças armadas da região, nos domínios aéreo, terrestre e naval?
Nesta edição da FIDAE, demos prioridade a capacidades integradas e multidomínio, directamente orientadas para requisitos operacionais que estão a evoluir rapidamente nas forças armadas da região.
No domínio aéreo, destacamos os nossos sistemas electro-ópticos, como o ASELFLIR, bem como tecnologias de radar AESA, sistemas de guerra electrónica, munições guiadas de precisão e sistemas de comunicações por satélite. O objectivo destas soluções é elevar a vigilância aérea, a aquisição de alvos e a eficácia global das missões, permitindo também que as plataformas actuem em ambientes cada vez mais disputados e complexos.
No domínio terrestre, o foco está em comunicações avançadas e em soluções de comando e controlo, incluindo o KOCATEPE, além das nossas capacidades de modernização de viaturas de combate. Estas soluções reforçam a coordenação no terreno, aumentam a consciência situacional e elevam a sobrevivência e eficácia de unidades blindadas e mecanizadas - aspectos particularmente pertinentes face aos programas de modernização em desenvolvimento na região.
No domínio naval, apresentamos sistemas de armas de curto alcance, soluções de guerra electrónica, veículos de superfície não tripulados e pacotes completos de modernização naval. Estas capacidades apoiam a protecção de forças, melhoram a consciência do domínio marítimo e reforçam a eficácia operacional de plataformas navais perante ameaças convencionais e assimétricas.
Em todos os domínios, o ponto decisivo não é apenas a qualidade de cada sistema isolado, mas a forma como estes se conectam numa arquitectura unificada e centrada em redes. A nossa vantagem está em disponibilizar soluções interoperáveis, integrando sensores, efectores e comunicações para operações mais coordenadas e eficazes.
Além disso, apresentamos os conceitos City Guard e Border Guard, concebidos para responder à procura crescente por segurança em camadas face a ameaças assimétricas. Estes conceitos combinam vigilância, detecção e capacidades de comando para apoiar missões tanto militares como de segurança interna.
Em termos gerais, o nosso propósito na FIDAE é demonstrar de que forma as nossas tecnologias podem ajudar as forças armadas da região a desenvolver capacidades mais conectadas, resilientes e preparadas para o futuro.
ZM: Na defesa aérea e nos sistemas antidrones, a ASELSAN tem apresentado soluções como o GÖKBERK e outros sistemas de muito curto e curto alcance. Qual é o peso destas capacidades no portefólio actual e que tipo de procura internacional estão a observar?
As capacidades de defesa aérea e antidrones tornaram-se um pilar central do portefólio da ASELSAN, acompanhando a transformação acelerada do actual ambiente de ameaça. A proliferação de sistemas aéreos não tripulados - desde drones comerciais de pequena dimensão até plataformas tácticas mais sofisticadas - transformou a defesa aérea em camadas, reactiva e com boa relação custo-eficácia numa necessidade operacional.
Neste contexto, sistemas como o GÖKBERK (sistema laser móvel), em conjunto com as nossas soluções de defesa aérea de muito curto alcance e curto alcance, assumem um papel determinante. Estas capacidades foram concebidas para enfrentar ameaças de baixa altitude, baixa assinatura e natureza assimétrica, combinando sensores avançados, seguimento e efectores numa arquitectura integrada.
O que diferencia a nossa abordagem é a integração. Em vez de disponibilizarmos componentes isolados, fornecemos arquitecturas de defesa aérea em camadas nas quais os vários elementos actuam de forma coordenada, garantindo cobertura contínua, flexibilidade operacional e neutralização sustentada de ameaças. Isto é especialmente relevante em cenários antidrones, onde as ameaças tendem a ser dinâmicas, com possibilidade de enxames, difíceis de detectar e dispendiosas de neutralizar com meios convencionais.
Quanto à procura internacional, verificamos um interesse forte e em crescimento em múltiplas regiões, incluindo a América Latina. Forças armadas e instituições de segurança dão cada vez mais prioridade a capacidades contra UAV e a defesa aérea de curto alcance para proteger infra-estruturas críticas, fronteiras e unidades operacionais.
ZM: Na América Latina, muitas forças armadas mantêm o foco na modernização de plataformas existentes. Que soluções pode a ASELSAN oferecer para actualizar aeronaves, helicópteros, navios e viaturas blindadas, controlando custos e cumprindo normas OTAN?
A modernização de plataformas existentes é uma prioridade clara na América Latina e um domínio onde a ASELSAN aporta experiência e valor acrescentado. Em vez de nos limitarmos à aquisição de novas plataformas, apoiamos as forças armadas a prolongar a vida útil, a eficácia e a relevância operacional dos meios actuais através de actualizações direccionadas e custo-eficazes.
A nossa abordagem baseia-se em soluções modulares, escaláveis e de arquitectura aberta, integráveis numa grande variedade de plataformas - aeronaves, helicópteros, navios e viaturas blindadas - sem exigir alterações estruturais extensas. Isto viabiliza uma modernização por fases, permitindo evoluir capacidades de forma incremental, mantendo margem de manobra orçamental.
No domínio terrestre, disponibilizamos, entre outras, soluções de: - controlo de tiro; - integração de comando e controlo; - sistemas de protecção activa e passiva; - electrónica dedicada a viaturas, todas orientadas para melhorar o desempenho operacional e a segurança das guarnições.
Em 2023, a ASELSAN foi seleccionada, em conjunto com a FAMAE, para o contrato de modernização dos tanques Leopard 2A4 do Exército do Chile. O programa tem avançado por fases estruturadas e com responsabilidades bem definidas: a ASELSAN fornece sistemas electrónicos e sensores avançados, enquanto a FAMAE lidera a integração e o sustentamento. Em 2024, os trabalhos concentraram-se no desenho do sistema, com definição de arquitectura e selecção de subsistemas alinhados com os requisitos operacionais. No período 2025–2026, o programa evoluiu para a implementação, com Leopard 2A4 equipados com sistemas electro-ópticos da ASELSAN e com maior incorporação de soluções de comunicações. A modernização centra-se na melhoria do controlo de tiro, em sistemas de observação avançados, consciência situacional e conectividade da guarnição. Capacidades adicionais - como sistemas de protecção e receptores de alerta laser - evidenciam uma abordagem escalável, assente em arquitectura aberta. Após testes de qualificação bem-sucedidos, o programa entra na fase de integração em série em toda a frota, constituindo um marco de modernização e um exemplo sólido de cooperação internacional.
Para plataformas aéreas, oferecemos actualizações de aviónica, sistemas electro-ópticos, computadores de missão, suites de guerra electrónica e comunicações avançadas, aumentando de forma significativa a consciência situacional, a sobrevivência e a eficácia das missões.
No domínio naval, fornecemos pacotes integrados de modernização que podem incluir sensores, guerra electrónica, sistemas de armas e comunicações, com integração em diferentes sistemas de gestão de combate. Estas melhorias aumentam a interoperabilidade, a consciência do ambiente marítimo e as capacidades defensivas, garantindo que as frotas existentes mantêm plena capacidade operacional em cenários exigentes.
Uma vantagem importante das nossas soluções é o alinhamento com normas OTAN e a capacidade de integração fluida tanto com sistemas legados como com sistemas modernos. Em paralelo, damos grande ênfase ao controlo de custos, tirando partido de arquitecturas abertas, integração inteligente e optimização de infra-estruturas já disponíveis.
Em última análise, procuramos gerar ganhos de capacidade com elevado impacto e custos de ciclo de vida controlados, permitindo aos nossos parceiros alcançar operações modernas e centradas em redes sem substituírem por completo as plataformas.
ZM: A ASELSAN tem competências fortes em sensores, radares, electro-óptica, guerra electrónica e sistemas de missão. Que combinação destas tecnologias é hoje mais atractiva para forças aéreas que pretendem reforçar a vigilância, o controlo do espaço aéreo e a sobrevivência em combate?
Para as forças aéreas actuais, o diferencial raramente está num único equipamento; está, sim, na integração coerente de tecnologias complementares dentro de uma arquitectura operacional unificada. O verdadeiro ganho surge quando radares, sensores electro-ópticos, guerra electrónica e redes de comando de missão funcionam como um ecossistema centrado em redes.
Para vigilância e controlo do espaço aéreo, a nossa abordagem integrada combina radares avançados, como ALP e KALKAN, capazes de detecção a grande distância, com soluções electro-ópticas como ASELPOD e ASELFLIR, assegurando identificação e seguimento com elevada precisão. Ao ligar estas camadas de sensores a infra-estruturas robustas de comando e controlo como o HERİKKS da ASELSAN, obtém-se uma imagem aérea reconhecida em tempo real, permitindo decisões mais rápidas e mais sustentadas.
Em paralelo, a sobrevivência em combate depende cada vez mais da eficácia de suites de guerra electrónica e autoprotecção. Soluções como FEWS, HEWS e KORAL, apoiadas por ligações de dados tácticas seguras e resilientes, permitem detectar, identificar e contrariar ameaças em todo o espectro electromagnético, mantendo simultaneamente comunicações protegidas e contínuas.
No essencial, a combinação mais atractiva para forças aéreas modernas é uma estrutura integrada e em camadas: radar para detecção persistente, electro-óptica para identificação precisa, guerra electrónica para protecção e supressão, e sistemas de missão para fusão de dados e superioridade na tomada de decisão. Este modelo melhora a consciência situacional e o controlo do espaço aéreo e, ao mesmo tempo, reforça a eficácia e a sobrevivência em ambientes cada vez mais complexos.
ZM: A empresa também desenvolveu kits de guiamento e munições inteligentes. Como avaliam a evolução deste mercado e que vantagens competitivas oferece a ASELSAN em precisão, custo-eficácia e adaptabilidade?
Do nosso ponto de vista, o mercado de munições guiadas de precisão está a evoluir sob uma tendência muito clara: obter maior efeito operacional com armas mais precisas, mais adaptáveis e em menor quantidade. O aumento do investimento em defesa, o ritmo de inovação tecnológica e as lições retiradas de conflitos recentes têm acelerado a procura por capacidades de ataque de alta precisão e custo controlado - em especial as que permitem modernizar inventários já existentes.
Como resposta, a ASELSAN tem concentrado o desenvolvimento em kits de guiamento modulares e munições inteligentes que conciliam precisão, flexibilidade e acessibilidade. O portefólio inclui sistemas como as famílias HGK (kit de guiamento de precisão), KGK (kit de guiamento com asas) e LGK (kit de guiamento laser), além de munições inteligentes completas como a família TOLUN.
Em termos de precisão, os nossos sistemas recorrem a arquitecturas de guiamento multimodo, incluindo GPS/INS e designação laser. Por exemplo, o HGK permite atingir alvos fixos com elevada precisão, enquanto o LGK viabiliza o ataque a alvos móveis através de designação laser. O KGK, graças à sua configuração alar, acrescenta alcance ao perfil de ataque. Em complemento, munições como a TOLUN proporcionam elevada precisão com baixo risco de danos colaterais.
No campo do custo-eficácia, uma das nossas vantagens centrais é a capacidade de converter bombas convencionais não guiadas em munições de precisão. Isto permite às forças aéreas aproveitarem stocks existentes, reduzindo de forma significativa os custos de aquisição e o custo total ao longo do ciclo de vida.
A adaptabilidade é igualmente uma força distintiva. Desenvolvemos soluções modulares e compatíveis com um leque amplo de plataformas, tripuladas e não tripuladas, facilitando integrações rápidas e garantindo flexibilidade operacional.
ZM: Para muitos países da região, a transferência de tecnologia, o suporte logístico local e a formação de pessoal são decisivos na aquisição. Que modelo de cooperação propõe a ASELSAN para a América Latina?
A nossa cooperação internacional, sobretudo em regiões como a América Latina, parte do princípio de que a construção sustentável de capacidades vai muito além da compra directa. Actualmente, os nossos parceiros procuram não só tecnologias comprovadas, mas também relações de longo prazo que reforcem a indústria local, elevem a autonomia operacional e desenvolvam capital humano.
Adoptamos um modelo flexível e orientado para parceria, ajustado às prioridades e ao tecido industrial de cada país. Embora a venda directa possa ser o ponto de entrada, o nosso foco desloca-se cada vez mais para a integração local, a transferência de tecnologia e a criação de estruturas de suporte dentro do próprio país.
Um eixo central do nosso modelo é o codesenvolvimento e a produção conjunta, quando tal é viável. Em articulação com parceiros industriais locais, procuramos contribuir para o crescimento dos ecossistemas nacionais de defesa, permitindo que os países não só operem os nossos sistemas, como também participem na produção, manutenção e evolução futura. Estamos, inclusive, abertos a apoiar exportações a partir de capacidades produtivas locais, gerando receitas adicionais para os países parceiros.
Em paralelo, valorizamos fortemente o suporte logístico local e a gestão do ciclo de vida. A criação de capacidades regionais de manutenção, reparação e revisão geral (MRO), sustentadas por equipas locais, melhora a disponibilidade e reduz a dependência de cadeias de abastecimento externas.
Tão importante quanto o suporte é a formação e a transferência de conhecimento. Através de programas completos para operadores, engenheiros e técnicos, ajudamos os nossos parceiros a adquirir competências para operar e sustentar sistemas avançados com maior autonomia.
Acresce que, à medida que as operações se tornam mais conectadas, a ciber-resiliência e a protecção de redes de comando e controlo ganham peso real na disponibilidade operacional. Por isso, a nossa lógica de integração em arquitectura aberta é acompanhada por práticas de segurança e por uma abordagem de defesa em profundidade, para reduzir vulnerabilidades ao longo do ciclo de vida.
Por fim, defendemos que a cooperação industrial deve caminhar lado a lado com planeamento de sustentamento, formação contínua e evolução tecnológica. Assim, concebemos um modelo multinível para a América Latina, capaz de progredir do fornecimento directo para parcerias industriais mais profundas - incluindo joint ventures e produção regional - em alinhamento com os objectivos estratégicos de cada país. O nosso propósito é ultrapassar a relação tradicional fornecedor–cliente e construir parcerias duradouras assentes no desenvolvimento conjunto de capacidades e no crescimento mútuo.
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