Saltar para o conteúdo

Grécia: as mais antigas ferramentas de madeira já identificadas, com cerca de 430.000 anos

Mãos com luvas a enterrar um pedaço de madeira molhada na terra perto de um pequeno lago artificial.

Dois artefactos encontrados junto à margem de um lago na Grécia estão, até ao momento, entre as mais antigas ferramentas de madeira alguma vez descobertas, com uma antiguidade estimada em 430.000 anos.

Ferramentas de madeira na bacia de Megalópolis (430.000 anos): o que foi encontrado

A descoberta ocorreu na bacia de Megalópolis, na Grécia, onde investigadores recuperaram duas peças de madeira com características de uso humano:

  • Um pau fino e alongado, com aproximadamente 80 centímetros de comprimento, que poderá ter servido para escavar lodo ou mexer em sedimentos húmidos.
  • Um fragmento mais pequeno, de aspeto menos evidente, segurável na mão, feito de salgueiro ou choupo, que poderá ter sido utilizado para dar forma a ferramentas de pedra.

O estudo com a descrição destas peças foi publicado numa revista científica, as Atas da Academia Nacional de Ciências.

Porque é tão raro encontrar ferramentas de madeira

Os cientistas consideram que os humanos antigos usavam um vasto conjunto de instrumentos feitos de pedra, osso e madeira. No entanto, obter provas diretas de ferramentas de madeira é particularmente difícil, porque a madeira se decompõe depressa e raramente sobrevive no registo arqueológico.

De um modo geral, estes objetos só se conservam em condições muito específicas, como: - ambientes gelados, - grutas, - contextos submersos ou saturados de água.

Como estas peças podem ter sido preservadas

No caso de Megalópolis, as ferramentas poderão ter ficado rapidamente soterradas por sedimentos e, ao longo do tempo, a humidade constante terá ajudado a preservar a madeira.

A área já era conhecida por anteriores achados: ao longo dos anos, os investigadores identificaram no mesmo local ferramentas de pedra e ossos de elefante com marcas de corte, indícios de atividades humanas no sítio.

A idade: sem datação direta, mas com contexto sólido

As ferramentas de madeira não foram datadas diretamente. Ainda assim, o próprio sítio arqueológico é estimado em cerca de 430.000 anos, o que fornece uma referência consistente para a antiguidade provável dos objetos.

Quem usou as ferramentas? A resposta ainda não é certa

Até agora, não foram encontrados restos humanos no local, pelo que não é possível atribuir as ferramentas a um grupo específico. Os utilizadores poderão ter sido Neandertais, antepassados humanos mais antigos ou outra população humana da época.

A autora do estudo Annemieke Milks, da Universidade de Reading, descreveu o impacto pessoal de lidar com estes objetos, referindo que sempre a entusiasmou poder tocar nestas peças tão antigas.

Um sítio com mais “tesouros” por revelar - e um desafio de interpretação

Segundo o arqueólogo Jarod Hutson, do Museu Nacional de História Natural do Instituto Smithsonian, o local na Grécia poderá ainda guardar mais achados valiosos do passado à espera de serem descobertos. No entanto, o aspeto discreto destas duas peças torna a sua interpretação mais difícil.

Hutson, que não participou no estudo, salientou que é complicado entusiasmar-se de imediato com estes objetos, precisamente porque não parecem, à primeira vista, ferramentas de madeira, e porque a função exata de ambas continua incerta.

Outros exemplos de ferramentas de madeira pré-históricas

Embora raras, existem outras descobertas comparáveis que ajudam a enquadrar este achado, como: - lanças encontradas na Alemanha; - paus de escavação na China, com cerca de 300.000 anos, que podem ter sido usados para colher plantas.

O que esta descoberta acrescenta à história da tecnologia humana

Este novo conjunto de peças oferece uma oportunidade incomum para observar a diversidade de utensílios utilizados para sobreviver - uma janela para um lado menos conhecido da tecnologia humana antiga. Numa mensagem de correio eletrónico, a autora do estudo Katerina Harvati, da Universidade de Tübingen, descreveu o achado como um vislumbre de um aspeto pouco documentado das capacidades tecnológicas dos humanos primitivos.

Além de ampliar a cronologia das ferramentas de madeira, a descoberta reforça a ideia de que, muito antes de muitas tradições de pedra bem reconhecidas, já existiam soluções práticas baseadas em materiais perecíveis, escolhidos pela sua disponibilidade e propriedades. Quando a madeira sobrevive, permite reconstruir comportamentos quotidianos que, de outra forma, ficariam invisíveis.

Também abre caminho a novas perguntas sobre como estas peças eram produzidas e usadas: em ambientes húmidos, é possível que atividades como escavar, raspar, moldar e preparar matérias-primas fossem mais frequentes do que sugerem apenas as ferramentas de pedra. À medida que a investigação na bacia de Megalópolis avance, é provável que surjam mais dados para ligar estes objetos a tarefas concretas e, eventualmente, aos seus utilizadores.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário