Um estudo de grande escala, com mais de 5 milhões de mulheres acompanhadas ao longo de três décadas, aponta para a possibilidade de as tomografias computorizadas (TAC) realizadas antes da conceção estarem associadas a um aumento do risco de perda de gravidez e de anomalias congénitas.
Apesar de os números poderem soar inquietantes, é essencial olhar para os resultados com cautela, porque existem várias limitaantes e fontes potenciais de enviesamento.
O que o estudo analisou (TAC, perda de gravidez e anomalias congénitas)
Trata-se de um estudo observacional realizado em Ontário, no Canadá, entre 1992 e 2023. No total, foram analisadas 5 142 339 gravidezes, das quais resultaram 3 451 968 nados-vivos. Em termos gerais, verificou-se que as taxas de perda espontânea da gravidez e de anomalias congénitas tendiam a ser mais elevadas em pessoas que tinham feito mais TAC antes de engravidar.
Quando comparadas com pessoas que não tinham feito qualquer TAC, as estimativas de risco foram as seguintes:
Perda de gravidez
- + 8% após 1 TAC
- + 14% após 2 TAC
- + 19% após 3 ou mais TAC
- + 8% após 1 TAC
Anomalias congénitas
- + 6% após 1 TAC
- + 11% após 2 TAC
- + 15% após 3 ou mais TAC
- + 6% após 1 TAC
Porque é que estes resultados não significam, necessariamente, que a TAC seja a causa
À primeira vista, os valores podem parecer alarmantes, mas há dois pontos-chave a ter em conta.
Em primeiro lugar, o aumento absoluto do risco pode ser pequeno, dependendo do risco de base de cada pessoa. Por exemplo: se o risco inicial for 10% e, após 3 TAC, existir um aumento relativo de 19%, então o novo risco passa a 11,9% (e não para 29%).
Em segundo lugar, como o estudo é observacional, mostra associação (correlação), mas não prova causalidade. Ou seja, é muito provável que existam outros fatores a influenciar os resultados. Na prática, raramente se faz uma TAC “por rotina”: frequentemente há um problema clínico por trás - e esse problema pode contribuir mais para o risco de complicações do que a própria exposição.
Alex Polyakov, ginecologista da Universidade de Melbourne (Austrália), que não participou no trabalho, refere que “as mulheres que fazem TAC tinham maior probabilidade de apresentar condições de saúde - como diabetes, hipertensão ou tabagismo - que, por si só, aumentam os riscos na gravidez”.
O mesmo especialista acrescenta que, se uma mulher é submetida a TAC por trauma, suspeita de cancro ou outra condição médica grave, “é possível que já tivesse um risco basal aumentado antes da TAC”. Embora os autores tenham tentado ajustar estes fatores, é muito provável que permaneça algum grau de confusão (confounding).
A zona do corpo examinada (cabeça vs. pélvis) não alterou muito - e isso levanta dúvidas
Os investigadores também registaram quais as regiões do corpo imagiadas e como isso se relacionava com os riscos na gravidez. Curiosamente, a localização da TAC pareceu não alterar substancialmente a associação observada.
Derek Hill, engenheiro biomédico no Colégio Universitário de Londres, igualmente não envolvido no estudo, destaca que “o aumento de risco associado a uma TAC à cabeça é bastante semelhante ao aumento de risco associado a uma TAC à pélvis”.
Este ponto é relevante porque uma TAC à cabeça normalmente expõe os órgãos reprodutores a uma dose muito inferior à de uma TAC pélvica. Se o mecanismo fosse sobretudo a dose de radiação nos órgãos reprodutores, seria expectável um aumento muito maior do risco após TAC pélvica do que após TAC craniana.
Este padrão dá mais força à hipótese de que a doença subjacente (ou o contexto clínico que motivou o exame) seja um contributo importante para o risco observado.
Como aplicar isto na prática clínica: ponderação individual e alternativas menos agressivas
Na prática, o risco deve ser avaliado caso a caso, procurando reduzi-lo sempre que possível. Embora o aumento estimado para uma pessoa em particular possa ser pequeno, pode fazer sentido dar prioridade a alternativas menos potencialmente nocivas, desde que ofereçam resultados equivalentes.
No final, o próprio estudo conclui que estes dados “apoiam esforços prévios para minimizar TAC únicas ou repetidas em crianças e adultos jovens, com maior consideração do uso de ecografia e de imagem por ressonância magnética como métodos de primeira linha”.
Dois aspetos adicionais a considerar antes de decidir por uma TAC
Um ponto muitas vezes esquecido é que, mesmo quando a radiação é um tema, os serviços de imagiologia tendem a aplicar o princípio de manter a dose tão baixa quanto razoavelmente possível, ajustando protocolos à idade e ao contexto clínico. Além disso, o benefício de um diagnóstico atempado pode superar claramente o risco teórico associado ao exame.
Também pode ser útil, em contexto de planeamento familiar, que a doente discuta com o seu médico (e, quando indicado, com a imagiologia) o histórico de exames e possíveis alternativas. A decisão pode depender do tipo de suspeita clínica, da urgência e da capacidade de outros métodos (como ecografia ou ressonância magnética) responderem à mesma pergunta clínica.
Quando a TAC continua a ser a melhor escolha
Em muitos cenários, não diagnosticar um problema de saúde suspeito pode ter um impacto muito maior no risco de perda de gravidez ou de defeitos congénitos do que realizar o exame. Nesses casos, avançar com a TAC é a opção mais sensata - em linha com as recomendações de saúde atualmente aplicadas a TAC e radiografias durante a gravidez.
A investigação foi publicada na revista Anais de Medicina Interna.
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