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Passa muito tempo nas redes sociais? Este hábito pode aumentar a sua ecoansiedade.

Jovem sentado no chão com caderno aberto, a olhar para o telemóvel, junto a uma janela grande.

Se tem a sensação de que estamos a avançar a toda a velocidade contra uma parede, essa impressão não surge do nada - o seu feed de notícias também contribui para a reforçar.

A eco-ansiedade é um termo relativamente recente, usado desde a década de 1990 para descrever a angústia que pode surgir perante um futuro entendido como ecologicamente ameaçador. É uma preocupação compreensível para quem acompanha a informação com rigor, mas pode ganhar uma dimensão excessiva por causa do ambiente digital ruidoso, saturado e permanente em que vivemos.

Vídeos apocalípticos no TikTok, publicações alarmistas no Facebook, imagens repetidas de incêndios e cheias no Instagram: as redes sociais, embora tenham ajudado a generalizar a consciência ambiental, também podem intensificar a carga emocional associada à crise climática. Um estudo publicado a 27 de outubro na revista Climatic Change indica que um uso intensivo destas plataformas estará diretamente associado a um aumento da eco-ansiedade, podendo mesmo alimentar uma espécie de desesperança coletiva. Quando lhes dedicamos demasiado do nosso tempo livre, acabamos por nos convencer de que a sociedade, tal como a conhecemos, está condenada a colapsar.

Eco-ansiedade e redes sociais: um sintoma de um ambiente “hiperdigitalizado”?

A investigação foi realizada em janeiro de 2024 com 1 400 adultos nos Estados Unidos, uma amostra relativamente limitada. Ainda assim, os autores observaram um padrão claro: quanto maior era o tempo passado nas redes sociais, mais se agravava o sentimento de ansiedade face à crise climática.

Esse mal-estar foi descrito em duas categorias: “distresse climática” (uma inquietação persistente e difusa perante o aquecimento global) e “desespero climático” (um estado mais sombrio e paralisante). No primeiro caso, trata-se de uma ansiedade que, apesar de desconfortável, continua compatível com a vontade de agir e procurar soluções.

Já o desespero climático aponta para um fatalismo extremo e uma sensação de impotência total: a crença de que os sistemas políticos e económicos acabarão inevitavelmente por ruir sob o peso da crise climática.

Nem todas as redes analisadas parecem pesar da mesma forma nestas emoções. As duas mais associadas ao agravamento do desespero foram o TikTok e o Snapchat, plataformas muito visuais, onde a repetição de conteúdos curtos e alarmantes tende a amplificar a perceção de catástrofe iminente.

Como estes formatos são desenhados para maximizar o envolvimento, empurram para um consumo acelerado e fragmentado de informação. A emoção passa à frente da evidência científica, até alimentar uma angústia desligada da realidade e das probabilidades reais de risco.

Implicações políticas da eco-ansiedade

As pessoas que se sentem certas de um colapso social próximo parecem mais predispostas a considerar legítimas formas de ação radical, como sabotagem, ciberataques contra infraestruturas ligadas ao setor dos combustíveis fósseis, ou mesmo ameaças diretas a responsáveis e dirigentes.

Não se trata, necessariamente, de um desejo de confronto ou rebeldia. Para muitos, o motor é a urgência: acreditam que as vias institucionais deixaram de funcionar e que a única forma de serem ouvidos passa pela transgressão. A raiva, neste contexto, nasce muitas vezes de um desgaste emocional acumulado.

Ainda assim, este fatalismo não parece empurrar as pessoas para o autoritarismo político. Os investigadores sublinham que não foi encontrada qualquer relação entre a desesperança e o apoio a políticas coercivas.

Para Janet Yang, professora de comunicação na Universidade de Buffalo e especialista em perceção do risco, uma parte decisiva do fenómeno está no tipo de conteúdos que circula nas plataformas: “As redes sociais podem sensibilizar, mas os algoritmos também polarizam a perceção do risco. O nosso estudo mostra uma ligação entre o uso global das redes e a distresse climática, mas é essencial analisar o que as pessoas estão efetivamente a consumir.”

O problema é que a nossa necessidade de estar informados vira-se contra nós quando se transforma em exposição constante a conteúdos interpretados como negativos. A infobesidade reduz a distância crítica e a nuance, dois elementos indispensáveis quando se tenta compreender um tema tão complexo como o clima. O cérebro humano não está “preparado” para absorver um fluxo contínuo de estímulos ansiógenos - e isso dificulta a distinção entre riscos reais e dramatização mediática.

Há ainda um fator estrutural: muitas destas plataformas exploram o medo para maximizar a retenção de utilizadores. Ao tornar o “desastroso” omnipresente, este catastrofismo deliberadamente alimentado faz-nos perder de vista o que ainda precisa de ser compreendido e discutido com rigor.

Como reduzir a eco-ansiedade sem ignorar a crise climática

Uma resposta possível passa por reequilibrar a dieta informativa, sem cair na negação. Definir limites de tempo, diversificar fontes (incluindo relatórios científicos e jornalismo de contexto) e evitar o consumo em “scroll infinito” ajuda a recuperar proporção: menos repetição de imagens chocantes e mais explicações sobre causas, probabilidades, cenários e soluções.

Também é útil procurar conteúdos que liguem informação a ação concreta. Iniciativas locais, projetos de adaptação, mudanças em políticas públicas e inovação tecnológica não apagam a gravidade do problema, mas reduzem o sentimento de impotência. Para muitas pessoas, transformar a ansiedade em participação - seja através de voluntariado, associações, escolhas de consumo mais informadas ou debate cívico - é uma forma de contrariar o desespero climático e manter a distresse climática num patamar que não bloqueia a capacidade de agir.

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