O cientista Stephen Hawking viveu durante 55 anos com esclerose lateral amiotrófica (ELA), a forma mais frequente de doença do neurónio motor - tornando-se uma das pessoas que mais tempo sobreviveu com este diagnóstico.
Para a maioria dos doentes, porém, a realidade é muito diferente. A doença tende a avançar rapidamente e muitas pessoas acabam por morrer entre dois e cinco anos após a confirmação clínica.
Apesar de décadas de investigação, continua a não existir cura. A componente genética explica apenas cerca de 10% dos casos; quanto aos restantes, as causas permanecem, em grande medida, por esclarecer.
Um estudo recente publicado na revista JAMA Neurologia apontou para um possível fator adicional: a poluição do ar, tanto no risco de vir a desenvolver doença do neurónio motor como na forma como a doença progride.
Poluição do ar, esclerose lateral amiotrófica (ELA) e risco de doença
No estudo, eu e os meus colegas analisámos os níveis de poluentes atmosféricos nas moradas de residência de 10.000 participantes, cobrindo um período de até dez anos antes do diagnóstico. Demos especial atenção a dois poluentes exteriores comuns, repetidamente associados a efeitos nocivos na saúde: o dióxido de azoto e a matéria particulada.
A matéria particulada é composta por partículas minúsculas suspensas no ar - muito mais finas do que um cabelo humano. Normalmente, é classificada por tamanho:
- PM2,5: partículas com diâmetro inferior ou igual a 2,5 micrómetros
- PM10: partículas com diâmetro inferior ou igual a 10 micrómetros
- PM2,5–10: fração intermédia, entre 2,5 e 10 micrómetros
Concluímos que a exposição prolongada à poluição do ar, mesmo em níveis relativamente baixos, como os geralmente observados na Suécia, esteve associada a uma probabilidade 20–30% superior de desenvolver doença do neurónio motor.
Além disso, este padrão manteve-se quando fizemos comparações entre irmãos, o que ajuda a afastar muitos fatores partilhados - como predisposição genética e o facto de terem crescido num ambiente familiar semelhante.
Também verificámos que, entre pessoas já diagnosticadas com doença do neurónio motor, a exposição durante anos a níveis mais elevados de PM10 e de dióxido de azoto se associou a um risco maior de morte ou de necessidade de recorrer a uma máquina de suporte ventilatório para ajudar a respirar.
Como estes poluentes são, em grande parte, gerados pelo tráfego rodoviário nas imediações, os resultados, em conjunto, sugerem que a poluição produzida perto de casa - sobretudo por emissões locais de veículos - poderá ter um impacto mais forte do que a matéria particulada transportada a partir de zonas mais distantes. Esta última, por sua vez, tende a explicar grande parte da variação diária mais ampla nos níveis de partículas no ar.
Como se avalia a progressão da doença do neurónio motor
Na prática clínica, os médicos acompanham de forma regular a capacidade dos doentes para lidar com funções do dia a dia em várias áreas essenciais.
Entre essas áreas contam-se:
- Função bulbar: fala, controlo da saliva e deglutição
- Motricidade fina: escrever, cortar alimentos, vestir-se e higiene pessoal
- Motricidade grosseira: virar-se na cama e ajustar a roupa da cama, caminhar e subir escadas
- Respiração: falta de ar, dificuldade em respirar deitado e sinais de insuficiência respiratória
No nosso estudo, os participantes foram avaliados aproximadamente a cada seis meses após o diagnóstico. Em seguida, analisámos a rapidez com que a doença se agravava no geral e dentro de cada um destes domínios. Os doentes cujo declínio foi mais rápido do que o de 75% dos restantes foram classificados como tendo progressão mais rápida.
Observámos que a exposição prolongada à poluição do ar se associou a uma maior probabilidade de progressão acelerada no conjunto, com efeito particularmente marcado nas componentes motora e respiratória, mas não na função bulbar.
Implicações mais amplas
Ainda não se sabe ao certo por que motivo surgem estas diferenças. Uma hipótese é que diferentes partes do sistema nervoso não tenham a mesma sensibilidade a lesões relacionadas com poluição ambiental.
Outra possibilidade é que a poluição do ar, de forma consistente, se relacione com doenças pulmonares crónicas, redução da função respiratória e infeções - fatores que, por sua vez, têm sido associados a piores desfechos na ELA.
No estudo, ajustámos a análise para múltiplas variáveis que podem influenciar simultaneamente a exposição à poluição do ar e o risco de doença do neurónio motor, incluindo rendimento (individual e da zona de residência), escolaridade, profissão e se os participantes viviam em áreas urbanas ou rurais.
Não dispúnhamos de dados sobre hábitos de tabagismo nem sobre exposição a poluição do ar no interior das habitações. Ainda assim, não existe evidência de que pessoas com e sem doença do neurónio motor difiram de forma relevante nestes aspetos ao ponto de explicarem os resultados observados.
Estas conclusões ajudam-nos a aproximar de uma compreensão mais completa da doença do neurónio motor e, no futuro, poderão contribuir para diagnóstico mais precoce e tratamentos mais eficazes. Contudo, a mensagem não se esgota aí.
A poluição do ar atinge-nos a todos, e a evidência de que causa danos sérios na saúde continua a aumentar. Melhorar a qualidade do ar poderá trazer benefícios muito maiores do que frequentemente imaginamos.
Do ponto de vista prático, isto reforça a importância de medidas locais - como reduzir tráfego intenso junto a zonas residenciais, promover transporte público e mobilidade ativa, e limitar emissões em áreas urbanas - porque a exposição “à porta de casa” pode ser especialmente relevante.
Também sublinha a utilidade de integrar informação ambiental em registos de saúde e investigação clínica: compreender melhor quando e onde a exposição ocorre pode ajudar a identificar grupos de maior risco e a orientar políticas de prevenção.
Jing Wu, investigadora pós-doutorada, Epidemiologia Integrativa, Instituto Karolinska
Este artigo é republicado a partir da plataforma A Conversa ao abrigo de uma licença CC. Leia o artigo original.
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