A investigação em genética psiquiátrica está a revelar que oito perturbações psiquiátricas diferentes podem assentar, em parte, numa base genética comum.
Num estudo divulgado no início de 2025, os cientistas isolaram variantes específicas dentro desses genes partilhados e analisaram como se comportam ao longo do desenvolvimento do cérebro, ajudando a perceber quando e onde podem influenciar trajetórias neurobiológicas distintas.
Oito perturbações psiquiátricas com genética partilhada: o que se sabia desde 2019
Em 2019, uma equipa internacional tinha identificado, em combinações diversas, 109 genes associados a oito condições: autismo, PHDA (Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção), esquizofrenia, perturbação bipolar, perturbação depressiva major, síndrome de Tourette, perturbação obsessivo-compulsiva e anorexia.
Esta sobreposição genética ajuda a compreender por que razão estas condições frequentemente coexistem - por exemplo, até 70% das pessoas com diagnóstico de autismo ou PHDA também apresentam a outra - e por que motivo tendem a agrupar-se em famílias.
Ao mesmo tempo, cada uma destas oito perturbações apresenta também diferenças genéticas próprias, o que levou a equipa a comparar, de forma sistemática, genes exclusivos de cada condição com genes partilhados entre elas.
Variantes genéticas e desenvolvimento cerebral: o que a nova equipa testou
A equipa norte-americana analisou quase 18.000 variações (entre as que pertenciam a genes partilhados e as que estavam associadas a genes exclusivos) e introduziu-as em células precursoras que dão origem aos neurónios. O objetivo foi observar de que forma estas alterações podiam afetar a expressão génica durante o desenvolvimento humano.
Este desenho experimental permitiu identificar 683 variantes genéticas com impacto na regulação dos genes. De seguida, os investigadores aprofundaram a análise usando neurónios de ratinhos em desenvolvimento, para observar como estas mesmas variantes se relacionavam com processos biológicos em tecido nervoso em maturação.
Um ponto particularmente relevante foi o facto de muitas variantes permanecerem ativas durante períodos prolongados, o que, em teoria, lhes dá oportunidade de influenciar várias fases do desenvolvimento - e abre a porta a alvos terapêuticos que, no futuro, possam atuar em mais do que uma perturbação.
Variantes pleiotrópicas: quando a mesma alteração pesa em várias condições
As variantes genéticas que contribuem para múltiplas características - ou, neste caso, para múltiplas condições - são designadas variantes pleiotrópicas.
Segundo a análise, as variantes pleiotrópicas estavam envolvidas em muito mais interações proteína-proteína do que as variantes associadas apenas a condições psicológicas específicas, e mostravam atividade em um maior número de tipos celulares no cérebro.
Além disso, estas variantes participavam em mecanismos regulatórios capazes de afetar várias etapas do desenvolvimento cerebral. A capacidade de influenciar cascatas e redes de processos - como a própria regulação génica - pode explicar como as mesmas variantes acabam por contribuir para condições diferentes, dependendo do contexto biológico, do timing do desenvolvimento e de outros fatores.
Efeitos em rede: por que pequenas mudanças podem ter grande impacto
“As proteínas produzidas por estes genes também estão fortemente ligadas a outras proteínas”, explicou a geneticista Hyejung Won, da Universidade da Carolina do Norte.
“Alterações nestas proteínas, em particular, podem propagar-se pela rede, potencialmente causando efeitos abrangentes no cérebro.”
O que isto pode significar para tratamentos futuros
Durante muito tempo, a pleiotropia foi encarada como um obstáculo, porque baralha fronteiras e torna mais difícil separar as perturbações psiquiátricas em categorias rígidas.
“A pleiotropia era tradicionalmente vista como um desafio porque complica a classificação das perturbações psiquiátricas”, afirmou Won. “No entanto, se conseguirmos compreender a base genética da pleiotropia, poderemos desenvolver tratamentos direcionados a estes fatores genéticos partilhados, o que pode ajudar a tratar várias perturbações psiquiátricas com uma terapia comum.”
Uma implicação prática é a possibilidade de procurar intervenções que atuem em nós centrais destas redes biológicas, em vez de visar apenas sinais periféricos. Se certas variantes influenciam a regulação ao longo de múltiplas fases do desenvolvimento, terapias que modulam esses mecanismos poderão, em teoria, ter impacto em mais do que um diagnóstico - embora isso exija validação rigorosa em estudos adicionais.
Também é importante sublinhar que genética não é destino: variantes associadas ao risco não determinam, por si só, que alguém venha a desenvolver uma perturbação. Ambiente, experiências de vida, fatores biológicos adicionais e interações complexas contribuem para o resultado final - o que torna essencial integrar estes achados com investigação clínica, neurobiológica e epidemiológica.
Um problema global de grande escala
Esta abordagem pode revelar-se especialmente útil num cenário em que a Organização Mundial da Saúde estima que 1 em cada 8 pessoas (quase 1.000 milhões no total) vive com algum tipo de condição psiquiátrica.
A investigação foi publicada na revista científica Cell.
Uma versão anterior deste artigo foi publicada pela primeira vez em fevereiro de 2025.
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