A investigação mais recente sugere algo inesperado: por detrás dos dentes afiados, os tubarões revelam um leque de personalidade muito mais rico do que o imaginário popular nos fez acreditar.
Durante décadas, filmes, imagens chocantes e relatos alarmistas à beira-mar moldaram a ideia de que os tubarões são predadores imprevisíveis e “programados” para atacar pessoas. No entanto, os dados científicos e a observação comportamental apontam noutra direcção: nem todos os tubarões reagem da mesma forma. Há indivíduos mais ousados, outros mais cautelosos e alguns mais sensíveis ao stress. Estas diferenças, consistentes ao longo do tempo, podem ser descritas como traços de personalidade - e ajudam a compreender porque é que os ataques intencionais a humanos são, na realidade, raros.
Como os tubarões passaram de animais reais a monstros de cinema
Desde que o filme Tubarão (Jaws) chegou às salas de cinema, a imagem do “assassino” marinho ficou colada ao público. Para muita gente, o tubarão continua a ser um caçador que espera activamente por humanos.
O que se observa no mar é bem menos dramático: em todo o mundo registam-se, em média, apenas algumas dezenas de ataques não provocados por ano, e a maioria não é mortal. Mesmo assim, basta um vulto sob a superfície para gerar pânico.
Essa ansiedade extrema tem até um nome: selacofobia. Quem a sente pode ter palpitações, suores e pensamentos de fuga apenas ao imaginar tubarões - e acaba por evitar águas abertas de forma sistemática, inclusive em locais onde não existe presença destes animais.
A narrativa do “tubarão comedor de gente” sempre pronto a atacar simplesmente não encaixa nos dados recolhidos pela investigação.
Personalidade dos tubarões: um retrato mais individual do que se pensava
A questão que motivou investigadores foi directa: os tubarões mostram padrões de comportamento estáveis, suficientes para falar em personalidade?
Para responder, uma equipa australiana estudou 17 tubarões Port Jackson jovens (Heterodontus portusjacksoni), uma espécie de porte relativamente pequeno, típica das águas australianas.
Experiência na Austrália: tubarões Port Jackson num “teste de personalidade”
Teste 1 - Ousadia ou cautela num tanque seguro
No primeiro ensaio, os cientistas colocaram cada tubarão num abrigo protegido dentro de um tanque. Após um curto período de adaptação, uma porta deslizante abria-se e começava a contagem do tempo: quanto demorava cada indivíduo a sair da zona segura?
Os comportamentos dividiram-se de forma clara:
- Alguns juvenis saíam quase de imediato e exploravam o tanque com curiosidade.
- Outros hesitavam durante muito tempo, mantinham-se na sombra e moviam-se pouco.
- O procedimento foi repetido várias vezes para reduzir a probabilidade de ser apenas acaso.
O resultado foi consistente: as diferenças mantiveram-se estáveis. Os que foram ousados na primeira tentativa tendiam a voltar a mostrar maior propensão para o risco; os cautelosos continuavam resguardados.
Teste 2 - Como reagem os tubarões ao stress?
No segundo passo, a equipa introduziu deliberadamente um factor de stress. Cada tubarão era retirado da água por cerca de um minuto e devolvido ao tanque - uma situação que pode simular perigo, como o ataque de um animal maior ou ficar preso numa rede.
Logo a seguir, avaliaram:
- Que distância o tubarão nadava num curto intervalo de tempo.
- Se parecia agitado ou relativamente calmo.
- Se alterava o padrão de movimento face a uma situação sem stress.
Aqui também surgiram diferenças nítidas, alinhadas com o Teste 1. Os tubarões previamente considerados mais ousados mantinham-se comparativamente tranquilos, com natação mais controlada. Já os mais hesitantes reagiam de forma mais intensa, com movimentos bruscos e procura mais rápida de abrigo.
A conclusão foi clara: cada tubarão apresentou um “perfil” comportamental próprio - algo comparável a “ousado”, “cauteloso” ou “mais vulnerável ao stress”.
Tubarões maiores tendem a ser mais ousados - mas isso não os torna automaticamente mais perigosos
A análise revelou um padrão adicional: o tamanho corporal parece relacionar-se com o comportamento. Em média, indivíduos maiores aparentavam mais autoconfiança: saíam do abrigo com mais facilidade e lidavam melhor com o stress. Os mais pequenos, por contraste, eram mais reservados e procuravam cobertura com maior rapidez.
Importa sublinhar: isto não significa que tubarões maiores sejam, por definição, mais agressivos. Neste contexto, “mais ousado” aponta sobretudo para:
- Menos timidez perante estímulos inesperados;
- Maior disposição para explorar e procurar alimento;
- Menor tendência a assustar-se e fugir.
Em encontros com pessoas, isso pode ter duas leituras:
- Um tubarão pouco esquivo pode aproximar-se mais para “inspeccionar” o que está na água.
- Ao mesmo tempo, um indivíduo mais calmo pode reagir com menos pânico a movimentos repentinos de um nadador ou surfista.
Se ocorre ou não uma mordida depende de muitos factores - espécie, forma de caça, visibilidade, reflexos de mordida por confusão com presas (como focas ou peixes) - e também, ao que tudo indica, destes traços de personalidade.
Porque a personalidade dos tubarões pode contar para a protecção de pessoas
Do ponto de vista científico e de gestão costeira, estes resultados abrem portas. Se for possível identificar que espécies e que populações são mais curiosas ou mais propensas a aproximar-se, pode tornar-se mais fácil delimitar zonas de risco com maior precisão.
Isso permite às autoridades costeiras melhorar sistemas de aviso sem cair em demonizações colectivas que levam a medidas indiscriminadas.
Uma evolução possível é passar de mapas binários (“há tubarão / não há tubarão”) para mapas mais informativos, baseados em tipos comportamentais, por exemplo:
- Regiões dominadas por espécies esquivas, que evitam contacto com pessoas.
- Áreas com tubarões curiosos, que tendem a inspeccionar surfistas e banhistas.
- Zonas com maior frequência de trajectos de procura de alimento por grandes predadores.
Com esse detalhe, a utilização das praias pode ser planeada com mais inteligência - incluindo interdições temporárias em horas de maior actividade de caça e medidas de protecção em pontos de maior risco.
Compreender a personalidade dos tubarões pode reduzir conflitos entre humanos e animais, sem recorrer de imediato a opções extremas como programas de abate.
O que esta descoberta diz sobre o nosso medo
Saber que os tubarões não são todos “iguais” também obriga a rever a forma como pensamos o perigo. Muitas pessoas funcionam com uma lógica simples: ou é perigoso ou é inofensivo. No mar, a realidade é mais complexa.
A comparação com cães ajuda a perceber: ninguém afirma seriamente que todos os cães - nem sequer todos os cães da mesma raça - se comportam de modo idêntico. Há indivíduos serenos, nervosos, curiosos, medrosos. Com tubarões, a diversidade comportamental também existe; apenas fica escondida sob a superfície durante a maior parte do tempo.
Isto não significa que se deva entrar na água sem cautela. Significa, sim, que o pânico automático perante qualquer barbatana não ajuda nem a segurança das pessoas nem a conservação destes animais.
Como agir no mar de forma sensata
Mesmo reconhecendo diferenças de personalidade, mantém-se uma regra básica: tubarões são grandes predadores e merecem respeito. Para reduzir o risco ao nadar ou surfar, medidas simples continuam a ser úteis:
- Evitar nadar ao amanhecer, ao entardecer ou de noite, quando muitas espécies caçam com maior frequência.
- Não colocar restos de peixe ou isco na água, que possam atrair presas e predadores.
- Permanecer em grupo e evitar afastar-se sozinho para zonas isoladas.
- Seguir indicações de autoridades locais e nadadores-salvadores.
- Evitar joalharia brilhante e roupa muito contrastante, que pode lembrar o reflexo de peixes.
Estas regras fazem diferença independentemente de o tubarão ser mais curioso, mais cauteloso ou mais reactivo ao stress.
O que significa “personalidade” em animais
A palavra “personalidade” soa humana, mas na biologia do comportamento tem um sentido operativo: padrões estáveis ao longo do tempo na forma como um animal reage a situações como perigo, novidade e estímulos desconhecidos.
Este tipo de consistência já foi descrito em aves, peixes, lulas e até aranhas. A investigação em tubarões encaixa nessa linha e reforça a ideia de que também aqui existem “tipos” recorrentes, do mais audaz ao mais prudente.
Novas implicações para conservação e convivência (além do que se vê na praia)
Há ainda um impacto menos óbvio: compreender diferenças individuais ajuda a desenhar estratégias de conservação marinha mais eficazes. Alguns tubarões, por serem mais exploradores, podem ter maior raio de movimento, contribuindo para o transporte de nutrientes e para a ligação genética entre áreas distantes. Outros, mais esquivos, tendem a manter-se em espaços mais restritos, o que os torna vulneráveis a pressões locais, como pesca intensiva ou degradação de habitat.
Além disso, este conhecimento pode melhorar programas de educação e ecoturismo responsável. Guias, escolas de mergulho e centros de ciência podem comunicar que o comportamento de um tubarão resulta de contexto, espécie e indivíduo - uma mensagem que reduz sensacionalismo e promove decisões mais seguras na água.
No fim, a ideia é surpreendentemente simples e prática: tubarões não são monstros de filme nem máquinas sem “temperamento”. São animais selvagens complexos, com diferenças individuais. Ao juntar respeito, conhecimento e regras claras, é possível nadar com mais segurança - e ajudar a garantir que estes antigos habitantes do oceano não desaparecem apenas por causa do medo humano.
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