Os abutres não costumam ser associados à conservação de peças de museu, mas talvez seja altura de rever essa ideia.
Investigadores encontraram um registo surpreendente da história humana e ambiental enterrado em camadas de ossos e detritos acumulados por sucessivas gerações de abutres-barbudos e pelas suas crias, que partem ossos com avidez - material que as aves, sem o pretender, foram preservando ao longo dos séculos.
Uma espécie rara na Europa, mas outrora comum na Península Ibérica
Hoje restam apenas 309 pares reprodutores de abutre-barbudo (Gypaetus barbatus) na Europa. No entanto, no século XIX esta ave ocupava cavidades em escarpas por todo o continente, incluindo a Península Ibérica.
No sul de Espanha, dessas linhagens já extintas pouco ficou além dos locais de nidificação - os chamados ninhos (eyries) - alguns dos quais permanecem sem uso há cerca de 130 anos.
Porque é que os ninhos (eyries) se tornam arquivos intergeracionais
Bons “imóveis” na frente da falésia são escassos, e por isso muitas aves de rapina mantêm os mesmos locais de nidificação na família durante décadas e até séculos.
No caso do abutre-barbudo, as grutas de parede rochosa são ainda mais valiosas: o microclima mais fresco e abrigado ajuda a conservar os restos acumulados, enquanto as crias aprendem a aproveitar os ossos disponíveis.
Além da localização, há outro fator essencial: dentro destas cavidades, as famílias vão sobrepondo camadas de material de ninho, recolhido ao longo dos anos nas redondezas. A capacidade de preservação das grutas é tal que, entre esses estratos, os cientistas identificaram “tesouros” comparáveis aos de um museu - incluindo um registo notavelmente bem conservado da flora e da fauna locais.
O que os cientistas encontraram nos ninhos de abutre-barbudo
O ecólogo Antoni Margalida, do Instituto de Investigação em Caça e Vida Selvagem (Espanha), visita com regularidade ninhos usados pelos abutres-barbudos ainda existentes. Ao longo do tempo, notou repetidamente pedaços de tecido, cordas e outros materiais de origem humana colocados na “cama” do ninho, provavelmente para ajudar a isolar os ovos em desenvolvimento.
Essa observação levou-o a suspeitar que os abutres poderiam estar a recolher, há muito, “restos” deixados por pessoas. Para testar a ideia, a equipa analisou 12 ninhos abandonados de abutre-barbudo no sul de Espanha, examinando estes arquivos familiares camada a camada.
“Graças à solidez das estruturas dos ninhos do abutre-barbudo e à sua localização no Mediterrâneo ocidental… funcionaram como museus naturais, conservando material histórico em bom estado”, relatam Margalida e colegas.
Um registo de alimentação desde a Idade Média - e do ecossistema local
A maior parte do ninho era constituída por ossos de ungulados (animais com cascos), formando um inventário detalhado das refeições dos abutres - e, por extensão, das espécies presentes na região - desde tempos medievais.
“Estes dados históricos básicos, juntamente com os dados sobre hábitos de alimentação e seleção do local de nidificação, fornecem informação de qualidade sobre as características do habitat e a escolha de espécies alimentares desta espécie há várias centenas de anos”, explica a equipa.
Misturados entre as camadas de ossos, surgiam também fragmentos de cascas de ovo deixados por várias gerações de ninhadas. Como as fêmeas põem apenas um ou dois ovos por ano, estes vestígios podem ser úteis em estudos de toxicologia, contribuindo para a conservação ao permitirem detetar cargas históricas de pesticidas.
As descobertas mais invulgares: objetos humanos preservados pelas aves
Os achados mais inesperados, porém, eram claramente de origem humana. Foram recolhidas várias sandálias antigas, feitas com diferentes ervas e pequenos ramos. A mais antiga - uma sandália completa fabricada com cordão de esparto - foi datada de 674 anos, ou seja, do final do século XIV.
No mesmo ninho apareceu ainda um fragmento decorado de pele de ovelha com 650 anos. A análise de isótopos de carbono indicou que este ninho foi estabelecido cinco séculos antes de outro ninho próximo.
A equipa identificou também: - um fragmento de cesto com 151 anos; - um virote de besta e a respetiva haste de madeira; - parte de um estilingue feito de esparto entrançado; - e diversos outros vestígios que apontam para práticas e objetos de épocas passadas.
“Todos estes restos atestam o uso de fibras vegetais na região mediterrânica da Península Ibérica para fabricar uma grande variedade de artefactos desde o período Epipaleolítico, há cerca de 12 000 anos”, escrevem os autores.
“Enquanto acumuladores de ossos e artefactos humanos em grutas do norte ibérico, os abutres-barbudos forneceram pistas sobre grupos humanos pré-históricos que também aí viveram… assim, o abutre-barbudo pode ser encarado como um bioindicador de valor excecional para a monitorização de ecossistemas a longo prazo e para investigação interdisciplinar.”
Implicações para conservação e gestão do território
Este tipo de “arquivo” natural pode ajudar a orientar medidas de conservação, ao revelar como a paisagem, as presas disponíveis e a presença humana mudaram ao longo de séculos. Além disso, a informação contida em cascas de ovo e em restos orgânicos pode apoiar a avaliação de riscos ambientais persistentes (por exemplo, contaminantes históricos), permitindo ajustar ações de proteção e recuperação de habitats.
Há também uma dimensão prática: a proteção de falésias e grutas usadas como locais de nidificação - incluindo áreas hoje ocupadas por escalada, turismo de natureza ou infraestruturas - pode salvaguardar simultaneamente a reprodução da espécie e este património biológico e cultural involuntariamente preservado.
Um serviço ecológico - e um legado inesperado
Os abutres dissolvem ossos com ácidos gástricos poderosos, contribuem para a limpeza do ambiente, reduzem riscos sanitários associados a carcaças e, como se vê, acabam por conservar a sua própria história - e parte da nossa. Já era tempo de lhes reconhecermos esse valor.
Esta investigação foi publicada na revista científica Ecologia.
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