Dar de comer ao cão da família parece um gesto pequeno e rotineiro. No entanto, investigadores afirmam agora que aquilo que vai para a tigela tem um impacto mensurável no clima, ao nível de outros setores que costumamos apontar primeiro.
A fatura climática escondida na tigela do seu cão
A França oferece um retrato útil: quase um terço dos lares tem um cão, e mais de 80% dependem de alimentação industrial para animais, como ração seca, comida enlatada ou refeições frescas preparadas. No Reino Unido e nos Estados Unidos, a tendência é semelhante, com os corredores dedicados a animais de estimação a crescerem em todos os supermercados.
Esse carinho tem um custo financeiro. Em França, os donos gastam cerca de 485 € por ano apenas em comida para o cão. No Reino Unido e nos EUA, a despesa anual pode ser ainda maior no caso de marcas premium. Mas a nova investigação da Universidade de Edimburgo e da Universidade de Exeter olha para um preço diferente: as emissões de gases com efeito de estufa.
Segundo o estudo, a produção dos ingredientes para comida de cão no Reino Unido representa cerca de 1% das emissões totais de gases com efeito de estufa do país.
Isto pode parecer pouco, até ser comparado com outros setores. Os investigadores estimam que alimentar todos os cães do mundo gera emissões comparáveis a mais de metade do CO₂ libertado todos os anos pela queima de querosene de aviação em voos comerciais.
Para uma indústria que raramente entra nos debates sobre clima, isto serve de alerta. A alimentação para animais de companhia, muitas vezes apresentada como forma de “valorizar” subprodutos da carne, pode por vezes competir diretamente com os humanos pelos mesmos cortes de carne de elevada qualidade.
Porque é que alguns alimentos para cães podem ser até 65 vezes piores para o clima
O estudo, publicado no Journal of Cleaner Production, mostra uma enorme variação no impacto climático entre diferentes tipos de comida para cães vendidos no mercado britânico.
Algumas receitas têm uma pegada de carbono 65 vezes superior à de outras, sobretudo por causa do tipo de carne que incluem.
Num extremo estão os produtos feitos com grandes quantidades de carne “nobre”: peito de frango, bife de vaca ou outros cortes normalmente consumidos por pessoas. Quando as marcas usam esses ingredientes, acabam por aumentar a pressão sobre sistemas agrícolas que já exigem muita terra e emitem muito carbono.
No outro extremo estão os produtos baseados sobretudo em partes nutritivas da carcaça que os consumidores dos países mais ricos tendem a ignorar: órgãos, aparas, tecido conjuntivo. Do ponto de vista nutricional, isto não é “desperdício”; são ingredientes ricos em proteína e micronutrientes, mas socialmente desvalorizados.
De forma geral, a ração seca tradicional feita com esses subprodutos tem um impacto climático mais baixo do que a comida húmida, as gamas grain-free ou as dietas de carne crua muito dependentes de cortes nobres.
Ração seca, húmida, crua: como se comparam os impactos no clima
Embora os valores variem conforme a marca, a investigação e os dados da indústria apontam para tendências gerais:
- Ração seca tradicional: recorre muitas vezes a subprodutos cárneos transformados, cereais e proteínas vegetais; tende a ter as emissões mais baixas por quilograma de alimento.
- Comida húmida em lata ou saqueta: é mais pesada, geralmente contém mais carne e água; as emissões por refeição podem ser mais altas, sobretudo quando usa carne de qualidade para consumo humano.
- Dietas cruas e “human-grade”: utilizam com frequência cortes de carne de maior valor; podem estar entre as opções com mais emissões, especialmente quando os ingredientes poderiam ser consumidos por humanos.
- Produtos sem cereais (grain-free): não são automaticamente mais ecológicos; muitas vezes substituem os cereais por mais carne ou por ingredientes de maior impacto, como certas leguminosas.
Nada disto indica se um produto é saudável para um cão em particular. Mostra, isso sim, que do ponto de vista climático a origem dos ingredientes e o tipo de carne contam muito mais do que a embalagem ou as palavras da moda no marketing.
Como a carne para cães se cruza com a carne para humanos
Uma questão central é saber se a comida para cães “consome” carne que os humanos comeriam de outra forma, ou se realmente transforma sobras em algo útil. Na prática, as duas situações coexistem.
Muitas rações intermédias e conservas económicas recorrem a subprodutos transformados: cabeças, ossos, órgãos e aparas. Estas partes têm menos valor comercial para os consumidores na Europa ou na América do Norte, embora continuem a ser consumidas noutros locais do mundo.
As marcas premium dirigidas a donos com maior poder de compra destacam cada vez mais “human-grade” e cortes reconhecíveis nas embalagens. É aqui que o impacto climático sobe acentuadamente. Os produtores têm de criar mais animais, ou intensificar a produção, para satisfazer este apetite paralelo por carne de topo.
Quando a alimentação animal deixa de usar subprodutos e passa a disputar o mesmo bife que o dono, a sua pegada de carbono começa a aproximar-se da de outra pessoa com uma dieta rica em carne.
Essa mudança também tem efeitos no uso do solo. Mais pecuária significa mais pastagens, mais culturas para ração como soja e milho e, em algumas regiões, maior pressão sobre florestas e savanas.
Escolhas que os donos podem fazer sem prejudicar o cão
Os investigadores sublinham que os donos não estão de mãos atadas. O impacto climático está longe de ser fixo; depende muito das escolhas do dia a dia.
Optar por ração seca convencional em vez de dietas sem cereais, húmidas ou cruas à base de carne pode reduzir significativamente as emissões associadas à alimentação do cão.
Para quem se preocupa com saúde e clima ao mesmo tempo, o aconselhamento veterinário continua a ser essencial. O pior cenário seria um animal subnutrido. Ainda assim, dentro do conjunto de opções nutricionalmente completas, há alguns padrões claros:
- Procure alimentos baseados em subprodutos de carne ou “farinha de carne”, em vez de bifes e filetes de qualidade para consumo humano.
- Tenha cautela com as alegações de marketing grain-free, salvo se o veterinário tiver diagnosticado uma intolerância real.
- Compre quantidades adequadas às porções certas; a obesidade canina aumenta a procura de alimento e tem também o seu próprio impacto na saúde.
- Evite exagerar nos snacks feitos com carnes de elevado custo ambiental, sobretudo vaca e borrego.
A equipa de investigação também pede mudanças à indústria de alimentos para animais. Defende que as empresas devem dar prioridade às partes do animal que não se destinam ao consumo humano e criar regras claras de rotulagem, para que os compradores percebam o que estão a pagar em termos de clima, e não apenas de sabor e conveniência.
Guia rápido de termos-chave sobre clima
| Termo | O que significa na comida do seu cão |
|---|---|
| Dióxido de carbono (CO₂) | O principal gás com efeito de estufa libertado quando se queimam combustíveis fósseis para cultivar, processar e transportar ingredientes. |
| Gases com efeito de estufa | Grupo de gases, incluindo CO₂ e metano, que retêm calor na atmosfera e impulsionam o aquecimento global. |
| Pegada de carbono | Quantidade total de gases com efeito de estufa emitidos ao longo do ciclo de vida de um produto, da exploração agrícola até à tigela. |
| Análise do ciclo de vida | Método usado pelos investigadores para medir o impacto ambiental de um produto em cada fase da produção. |
Menus do futuro: insetos, carne cultivada e dietas de base vegetal
O estudo sobre comida para cães no Reino Unido junta-se a um conjunto crescente de trabalhos que procuram perceber como os animais de companhia podem integrar estilos de vida com menos carbono. Já há várias opções a ser testadas em lojas e startups.
Os alimentos para cães à base de insetos, produzidos com larvas de mosca-soldado-negra ou tenébrios, podem fornecer muita proteína com uma pegada de uso de terra e água inferior à da carne de vaca ou borrego. Ainda precisam de ensaios nutricionais robustos, mas os primeiros dados sugerem que muitos cães os toleram bem.
A carne cultivada - desenvolvida a partir de células animais em biorreatores - também está a ser posicionada para a alimentação animal, onde a resistência dos consumidores pode ser menor do que no caso da alimentação humana. Se for produzida com energia de baixo carbono, poderá, em grande escala, reduzir emissões e diminuir a necessidade de pecuária intensiva.
As dietas vegetais para cães continuam a gerar controvérsia. Alguns estudos sugerem que uma alimentação vegan bem formulada pode manter cães adultos saudáveis em boas condições. Muitos veterinários continuam prudentes, apontando o risco de carências nutricionais se as dietas não forem cuidadosamente equilibradas e monitorizadas. Donos preocupados com o clima e tentados por esta opção devem procurar orientação profissional e fazer controlos de saúde regulares.
O que acontece se todos os cães “ficarem verdes”?
Imagine um grande país europeu em que metade dos donos de cães troca a comida húmida rica em carne por uma ração de menor impacto, feita sobretudo com subprodutos e proteína vegetal. Com base nas estimativas atuais, as emissões nacionais associadas à alimentação canina poderiam cair centenas de milhares de toneladas de CO₂ equivalente por ano.
Essa redução não resolveria sozinha as alterações climáticas, mas juntar-se-ia a cortes semelhantes vindos de mudanças na dieta humana, maior eficiência nos edifícios, transformações nos transportes e energia mais limpa. Em conjunto, essas mudanças alteram a base das emissões do quotidiano.
Há, no entanto, compromissos a acompanhar. Se as dietas humanas também passarem a incluir menos carne, alguns dos “subprodutos” usados na alimentação animal poderão deixar de existir, porque seriam abatidos menos animais no total. Isso poderá obrigar a indústria a repensar novamente os ingredientes, talvez na direção dos insetos, das algas ou de formulações mais vegetais.
Para autarquias e decisores políticos, a comida para animais está a começar a surgir em planos climáticos mais amplos, a par dos resíduos, dos transportes e da habitação. À medida que os dados melhorarem, poderão surgir incentivos a uma rotulagem ecológica mais clara nos produtos para animais ou apoio à investigação sobre ingredientes alternativos que mantenham em equilíbrio tanto os animais como o clima.
Para já, uma coisa é certa: a tigela a bater no chão da cozinha também faz parte da história do clima. Sempre que a enchemos, estamos a tomar uma pequena decisão sobre o tipo de sistema alimentar - e o tipo de planeta - em que queremos que os nossos cães envelheçam.
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