Quem passeia com o cão na primavera ou no início do verão em zonas arborizadas - como parques, pinhais ou carvalhais - pode cruzar-se com elas sem dar por isso: as lagartas processionárias. À primeira vista parecem inofensivas, como uma “fila” de lagartas, mas esta presença pode transformar-se rapidamente numa urgência veterinária para cães, gatos e até crianças. O mais perigoso é que muitos tutores não reconhecem os sinais iniciais a tempo.
Porque é que as processionárias são tão perigosas para os cães
A processionária-do-pinheiro (Thaumetopoea pityocampa) e a sua parente próxima, a processionária-do-carvalho, são larvas de borboletas nocturnas. O problema não são os insectos adultos, mas sim as larvas (lagartas), conhecidas por se deslocarem em longas “procissões” pelo chão.
O corpo destas lagartas está coberto por pêlos microscópicos muito urticantes. Estes pêlos:
- partem-se ao mínimo toque ou vibração
- são levados pelo vento e ficam em relva, terra, troncos, roupa e calçado
- libertam uma toxina potente que irrita pele, mucosas e vias respiratórias
Os pêlos perigosos nem sequer precisam de tocar directamente no cão: muitas vezes, basta ele farejar perto de um ninho ou de uma fila de lagartas.
Os cães estão particularmente em risco porque exploram o ambiente com o focinho junto ao chão: farejam, lambem e, por vezes, chegam mesmo a apanhar lagartas.
Como identificar processionárias no parque e no bosque (processionária-do-pinheiro e processionária-do-carvalho)
Saber reconhecer ninhos e “procissões” é uma das melhores formas de prevenção.
- Ninhos: estruturas esbranquiçadas, com aspecto de algodão, em ramos de pinheiros ou carvalhos, muitas vezes em grupo
- Filas de lagartas: várias lagartas alinhadas, uma atrás da outra, a atravessar caminhos, solo florestal ou prados
- Época do ano: dependendo da região, sobretudo entre a primavera e o início do verão
Em muitas localidades já existem avisos junto a trilhos, zonas verdes e parques infantis. Ao ver sinalização, mantenha o cão obrigatoriamente à trela e evite áreas com pinheiros e carvalhos.
Sintomas típicos no cão após contacto com processionárias
Em geral, os primeiros sinais surgem entre poucos minutos e até 1 hora depois do contacto. As zonas mais afectadas são boca, língua e nariz.
Primeiros sinais de alerta na cabeça e no focinho
- salivação súbita e intensa
- esfregar o focinho com as patas ou no chão, de forma agitada
- lamber, estalar a boca, engasgar-se ou “mastigar no vazio”
- vermelhidão e inchaço nos lábios, na língua ou na mucosa da boca
- vermelhidão e inchaço no nariz ou à volta dos olhos
Muitos cães demonstram claramente sensação de “ardor”: ficam inquietos, podem ganir e afastam a cabeça quando alguém tenta tocar no focinho.
Reacções graves na boca e na língua
As toxinas dos pêlos urticantes podem causar lesões importantes no tecido da língua, levando a:
- inchaço rápido e marcado da língua (aspecto “pastoso”)
- coloração violeta ou vermelho-escura da língua
- saliva com cheiro muito desagradável
- necrose (morte) de partes da língua nos dias seguintes
Quando a língua incha muito, o cão pode ficar com dificuldade em respirar - é uma situação aguda e potencialmente fatal.
Sintomas gerais e emergências severas
Consoante a quantidade de pêlos envolvidos e a sensibilidade do cão, podem surgir sinais adicionais, por vezes dramáticos:
- vómitos e diarreia, por vezes com vestígios de sangue
- apatia súbita, fraqueza, marcha cambaleante
- respiração rápida e superficial, ruídos respiratórios tipo assobio
- inchaço marcado na cabeça, garganta ou zona do peito
- colapso circulatório até perda de consciência
Quando há combinação de falta de ar, inchaço rápido e quebra do estado geral, pode tratar-se de choque alérgico (anafilaxia) - uma emergência absoluta em que cada minuto conta.
Primeiros socorros: o que fazer imediatamente
Se suspeitar que o seu cão contactou com processionárias (ou com os seus pêlos), actue depressa, mas com calma e método.
Medidas imediatas no local
- afaste o cão da zona de risco para impedir novo contacto com lagartas ou ninhos
- mantenha distância e evite mexer na cabeça do animal sempre que possível
- coloque luvas descartáveis, se tiver
- lave cuidadosamente boca, língua e lábios com água morna
- não esfregue nem “esfregue com força”: limite-se a enxaguar ou a tocar suavemente para não espalhar pêlos
Não tente retirar lagartas com a mão: isso tende a libertar ainda mais pêlos urticantes.
Se estiver em casa e tiver acesso a uma solução suave de bicarbonato (água com um pouco de bicarbonato de sódio ou fermento em pó), pode enxaguar com cuidado. Idealmente, o cão não deve engolir o líquido.
O que deve evitar a todo o custo
- não aplique cremes, géis ou sprays na mucosa da boca ou da língua
- não administre “remédios caseiros” como comprimidos de cortisona sem indicação veterinária
- não permita que o cão coma ou beba antes de um veterinário avaliar a situação
- não esmague nem queime lagartas: isso liberta ainda mais pêlos no ar
Um passo extra útil (medida adicional)
Se possível, reduza o risco de recontaminação ao chegar a casa: lave as mãos e antebraços, coloque a roupa do passeio a lavar separadamente e, se o cão tiver pêlos visivelmente presos ao pelo (sem esfregar), considere enxaguar o corpo com água abundante. Evite sacudir mantas, toalhas ou o próprio pelo do animal, para não dispersar partículas no ambiente.
Tratamento veterinário: o que acontece na clínica
Após o primeiro enxaguamento, a regra é simples: o cão deve ser levado imediatamente ao veterinário ou a um serviço de urgência. Ao telefonar, indique desde logo a suspeita de contacto com processionária-do-pinheiro/processionária-do-carvalho.
Na clínica, o veterinário poderá, conforme a gravidade:
- administrar um anti-histamínico forte e medicação anti-inflamatória por injecção
- dar analgésicos para reduzir dor, ardor e desconforto na boca
- fornecer oxigénio em caso de dificuldade respiratória e estabilizar a circulação
- vigiar de forma apertada a língua e a região da garganta
O factor tempo é decisivo: quanto mais cedo houver tratamento, menor o risco de necrose da língua ou de evolução para choque.
Nos casos mais graves, o cão pode ficar internado para monitorização contínua da respiração, do sistema cardiovascular e da progressão do inchaço. Por vezes, mais tarde, é necessária cirurgia para remover tecido necrosado da língua.
Prevenção: como proteger o seu cão a longo prazo
Algumas rotinas simples reduzem muito o risco:
- evitar, na primavera, zonas já conhecidas por terem infestação
- manter o cão à trela em áreas de risco e afastá-lo de “tapetes” de teias no chão e de filas de lagartas
- não deixar o cão farejar intensamente, remexer ou rebolar em prados muito afectados
- depois de passeios em áreas de risco, inspeccionar visualmente pelo, patas e focinho
Tutores de cães muito curiosos e de cachorros devem ser ainda mais vigilantes: os mais novos levam tudo à boca e, com frequência, reagem de forma mais intensa.
Medida preventiva adicional (treino e segurança)
Em zonas com ocorrências repetidas, pode ser útil trabalhar com o treinador/veterinário comportamental um comando sólido de “larga/deixa” e, em casos seleccionados, habituar o cão a usar uma açaime bem ajustada (que permita ofegar) em épocas de maior risco. Não elimina o perigo, mas pode reduzir a probabilidade de o animal apanhar lagartas.
E se as pessoas também entrarem em contacto?
As processionárias não afectam apenas os animais. Em humanos, os pêlos urticantes podem provocar urticária com comichão, irritação ocular, rouquidão e tosse.
Após contacto, recomenda-se:
- lavar a pele afectada com muita água e um gel de lavagem suave, sem coçar
- trocar a roupa usada de imediato e lavá-la separadamente
- enxaguar os olhos com soro fisiológico, se houver exposição
- em caso de falta de ar, inchaço facial ou sensação de fraqueza, dirigir-se de imediato ao serviço de urgência
Porque é que até os pêlos secos continuam perigosos
Há um detalhe especialmente traiçoeiro: os pêlos urticantes mantêm-se activos durante meses, mesmo que a lagarta já tenha morrido. Ninhos antigos, folhas secas e madeira podem continuar a desencadear reacções.
Por exemplo, quem armazena lenha proveniente de áreas afectadas pode transportar pêlos sem se aperceber para casa ou jardim. Por isso, árvores infestadas devem ser tratadas ou removidas apenas por profissionais qualificados.
Se o seu cão circula frequentemente em zonas com infestação
Quem vive numa região com presença regular de processionárias deve informar-se junto dos serviços locais de floresta, ambiente ou gestão de espaços verdes. Muitas vezes existem mapas de áreas afectadas e indicações de interdições temporárias.
Vale também a pena falar com o veterinário sobre quais os sinais mais precoces a reconhecer e o que ter preparado para uma resposta rápida - por exemplo, uma lista das clínicas de urgência mais próximas. Uma atitude consciente e preventiva pode fazer a diferença e salvar a vida do cão, antes mesmo de o pânico se instalar e comprometer a capacidade de agir.
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