A possibilidade de um enorme cataclismo vulcânico ter estado, em última instância, por detrás da disseminação da Peste Negra pela Europa na década de 1340 ganha força com uma nova reconstrução histórica e climática.
Num exemplo particularmente sólido de investigação científica multidisciplinar, os autores reuniram várias linhas de evidência para identificar aquilo que parece ter sido uma microcrise climática provocada por atividade vulcânica - e para explicar como essa perturbação afetou comércio e mobilidade, colocando os agentes patogénicos da peste no lugar e no momento errados.
O resultado terá sido uma “tempestade perfeita” de condições capaz de desencadear a segunda grande pandemia de peste do mundo, com a morte de milhões de pessoas em todo o continente europeu.
Peste Negra: um dos maiores desastres demográficos da história
Com o seu pico a meio do século XIV, a Peste Negra é geralmente considerada um dos episódios mais devastadores da história humana, responsável por dezenas de milhões de mortes a nível global.
A doença foi causada pela bactéria Yersinia pestis e transmitida aos humanos por pulgas, originando a peste, uma infeção que, nas formas mais graves, pode matar em cerca de um dia.
Apesar de séculos de estudo, continuam a existir lacunas importantes sobre o início e a propagação. Uma das questões em aberto é saber se a bactéria permaneceu na Europa desde a primeira grande pandemia de peste - iniciada com a Peste de Justiniano em 541 d.C. - ou se terá sido reintroduzida de fora do continente.
Uma hipótese reforçada: reintrodução pela Ásia Central e rotas de comércio
Uma nova análise do historiador Martin Bauch, do Instituto Leibniz para a História e Cultura da Europa de Leste (Alemanha), e do paleontólogo Ulf Büntgen, da Universidade de Cambridge (Reino Unido), favorece a segunda explicação: a de uma reintrodução externa. Esta leitura encaixa com evidência muito recente que aponta para o surgimento da segunda pandemia na atual região do Quirguistão e a sua dispersão ao longo de rotas comerciais.
Para perceber como a peste teria viajado das montanhas de grande altitude da Ásia Central até aos portos quentes do Mediterrâneo, Bauch e Büntgen recorreram a:
- testemunhos de gelo extraídos da Antártida e da Gronelândia;
- dados de anéis de árvores de oito regiões europeias;
- relatos europeus do século XIV sobre o estado do tempo e as condições vividas.
O sinal no gelo: indícios físicos de uma grande erupção vulcânica
Os testemunhos de gelo oferecem a evidência física mais convincente de uma erupção vulcânica num momento crítico. Quando a neve se deposita e, com o tempo, se transforma em gelo, fica registada uma “fotografia” muito detalhada da composição atmosférica e, por consequência, de grandes eventos climáticos e vulcânicos do passado.
Nos testemunhos datados de meados do século XIV, os investigadores detetaram um pico muito acentuado de enxofre associado a neve depositada por volta de 1345 d.C. - uma assinatura em gelo que, quase sempre, corresponde a uma erupção vulcânica de grande magnitude. Foram também observados picos menores em 1329, 1336 e 1341 d.C., mas o de 1345 destaca-se: é o 18.º maior registo deste tipo nos últimos 2 000 anos.
O que dizem os anéis de árvores: verões anormalmente frios
O passo seguinte foi analisar os anéis de crescimento. Em geral, as árvores acrescentam um novo anel por ano, e pequenas variações nesse crescimento - sobretudo na densidade do lenho tardio - refletem se a estação de crescimento foi mais quente ou mais fria.
As reconstruções de temperatura com base em oito regiões europeias apontam, em 1345, 1346 e 1347, para uma sequência de verões invulgarmente frios, com um sinal especialmente marcado na zona do Mediterrâneo.
Isto corresponde a um mecanismo clássico associado a grandes erupções: o vulcão injeta gases ricos em enxofre na estratosfera; esses compostos formam uma camada de partículas de sulfato que reflete parte da luz solar e arrefece o planeta durante alguns anos. Mesmo um arrefecimento curto pode ser suficiente para desorganizar épocas de cultivo, destruir ciclos agrícolas e precipitar fomes.
Relatos históricos: nevoeiros, céu enevoado, chuva e falhas nas colheitas
Para completar o quadro, os autores confrontaram os dados naturais com descrições históricas vindas da Europa e da Ásia. Esses testemunhos referem condições coerentes com atividade vulcânica e perturbação climática, incluindo:
- nevoeiros e céus carregados de bruma;
- verões excecionalmente frios e húmidos;
- falhas de colheitas.
Uma sequência plausível: erupção, arrefecimento, fome e pressão sobre o abastecimento
As peças parecem alinhar-se: um vulcão ainda não identificado, provavelmente localizado algures nos trópicos, terá sofrido uma erupção enorme e violenta em 1345. O clima arrefeceu, as colheitas falharam, o preço do cereal disparou e a fome atingiu Espanha, o sul de França, o norte e centro de Itália, bem como o Egito e o Levante.
Este tipo de choque não tem apenas efeitos agrícolas. Quando o abastecimento falha e a fome se instala, as cidades e potências marítimas tendem a ajustar rotas, fornecedores e calendários de transporte - mudanças que podem aumentar a conectividade entre regiões muito distantes e multiplicar oportunidades de entrada de agentes infecciosos em novos pontos de contacto.
Em paralelo, vale notar que a resposta sanitária medieval era limitada e desigual. Medidas como isolamento de navios, restrições ao desembarque e quarentenas (mais tarde sistematizadas) dependiam de decisões políticas e de infraestruturas portuárias; num contexto de escassez alimentar, a urgência em fazer chegar grão podia sobrepor-se a cautelas, intensificando o risco de propagação.
O papel do comércio de grão e da Horda de Ouro (Horda Dourada)
A peste chegou a Itália em 1347, precisamente no ano em que Veneza levantou o seu embargo comercial à Horda de Ouro (o poder mongol na região), permitindo que o grão voltasse a circular a partir de áreas do mar Negro.
Trabalhos anteriores já indicavam que pulgas portadoras de Y. pestis poderiam sobreviver sem dificuldade a estas viagens.
Os primeiros surtos europeus de peste ocorreram nos portos que receberam essas cargas: Messina, Génova, Palma, Veneza e Pisa. À medida que o grão era redistribuído pelo território, também a peste que seguia “oculta” nessas remessas se foi espalhando.
O fenómeno não se terá restringido à Europa: a peste também poderá ter chegado, por navios de cereal, a Alexandria, atravessando o Mediterrâneo rumo ao Egito. Um mapa de dispersão apresentado no estudo sugere depois um avanço a partir de portos mediterrânicos de grão para norte, entrando no Canal da Mancha e no mar do Norte, até alcançar as costas de Inglaterra e Noruega ao longo de rotas marítimas estabelecidas.
Uma investigação de “detetive” com várias disciplinas
O trabalho destaca-se por encaixar pistas de áreas diferentes - clima, história e ecologia de doenças - para reconstruir uma cronologia coerente, muitos séculos depois.
Segundo os investigadores, a utilização de indicadores climáticos (proxies) e de arquivos documentais escritos sustenta a ideia de que uma erupção vulcânica ainda não identificada, ou mesmo um conjunto de erupções por volta de 1345 d.C., contribuiu para condições frias e húmidas entre 1345 e 1347 em grande parte do sul da Europa.
Defendem ainda que essa anomalia climática e a fome transregional subsequente forçaram as repúblicas marítimas italianas de Veneza, Génova e Pisa a reconfigurar as suas redes de abastecimento e a importar grão a partir dos mongóis da Horda de Ouro, na zona do mar de Azov, em 1347.
Por fim, argumentam que essa alteração invulgar no comércio marítimo de longa distância evitou a fome em amplas áreas de Itália, mas, simultaneamente, contribuiu para a distribuição da bactéria Yersinia pestis através de pulgas infetadas presentes nas cargas de cereal por grande parte da bacia do Mediterrâneo - a partir de onde a segunda pandemia de peste se transformou na maior crise de mortalidade da era pré-moderna.
O estudo foi publicado na revista científica Comunicações Terra e Ambiente.
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