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O ensaio do ChatGPT recebeu 8/20: a lição de uma professora de filosofia

Pessoa a corrigir um teste com caneta vermelha numa sala de aula, mesa com telemóvel e carimbo.

O sino tinha acabado de tocar no fim do exame de filosofia quando a professora teve uma ideia estranha. Meses a ouvir alunos a sussurrar “é só pedir ao ChatGPT para me escrever o texto” já lhe tinham começado a roer os nervos. Naquela noite, sozinha na sala de estar, com a caneta vermelha na mão, abriu o portátil e escreveu no ChatGPT o tema da dissertação do bac francês.
Dois cliques depois, a IA devolveu um texto limpo e bem organizado. Sem erros ortográficos, sem rasuras, sem hesitações. O género de folha que faz professores exaustos sonharem às 01:00 de junho.
Imprimiu-o, agrafou-o à grelha oficial de classificação do exame e sentou-se como se fosse apenas mais uma cópia anónima.
Vinte minutos depois, o veredicto foi implacável.

Quando o ChatGPT entra na sala de exame… sem cadeira

A dissertação arrancava bem. Uma introdução cuidada, uma problemática clara, transições aceitáveis. Numa leitura rápida - daquelas que dariam algum alívio a um aluno em pânico na sala de exame - o texto parecia convincente. A professora abanou a cabeça, meio impressionada, meio desconfiada.
Mas, à medida que avançava, essa boa primeira impressão foi-se esbatendo. As ideias contornavam o tema sem mergulhar verdadeiramente nele. As referências soavam genéricas, como se tivessem sido tiradas da parte de trás de um caderno escolar. Não havia marca pessoal. Nem posição assumida com firmeza.
Pousou a caneta. Depois escreveu, sem rodeios, um 8/20 no topo da folha.

Isto aconteceu numa escola real, com uma professora de filosofia real, habituada a ler centenas de trabalhos. Para fazer a avaliação, usou um tema oficial do bac, a mesma grelha de correção e os mesmos critérios: compreensão do assunto, estrutura, conhecimentos, argumentação e qualidade da expressão.
Nessa grelha, a dissertação da IA falhou precisamente onde os adolescentes costumam tropeçar: na profundidade e na nuance. As citações eram vagas, os exemplos pareciam mal digeridos e tudo soava demasiado polido. Demasiado “aluno exemplar” e pouco pensamento genuíno.
A classificação final, num total de 20 valores, não foi apenas baixa. Foi um banho de água fria para quem imaginava que a IA podia fazer o bac sozinha, em piloto automático.

Depois do choque inicial, a professora fez o que os professores fazem: analisou. Porque é que uma redação feita com tanta tecnologia terminou com uma nota tão modesta? Percebeu que a IA imitava a forma de uma boa dissertação, mas não o risco intelectual. Não havia tese ousada, nem contra-argumento afiado, nem instante de reflexão autêntica.
A IA optou pelo caminho mais seguro. Preencheu a página sem se comprometer realmente com o problema, como um aluno que decora a lição mas nunca a compreende até ao fim.
No papel, cumpria os requisitos - no instinto, soava vazia.

Como usar a IA sem a deixar fazer batota por si no bac

A professora não ficou por aí. Ainda um pouco abalada, decidiu apresentar a dissertação da IA à turma. Projetou o texto e fez uma pergunta simples: “Que nota dariam a isto?” Os alunos leram em silêncio; alguns franziram o sobrolho, outros ficaram impressionados.
De início, muitos apontaram para 12, 14 e até 15 valores. Depois, ela começou a desmontar a dissertação com a turma. Mostrou conceitos vagos, pseudoexemplos e frases que pareciam profundas sem dizer grande coisa.
No fim, a sala percebeu por que motivo a nota tinha descido para 8/20. E percebeu também outra coisa.

A outra coisa era esta: se entregares uma dissertação escrita pelo ChatGPT sem lhe tocares, estás a jogar à roleta russa com a tua nota. Por vezes o resultado é aceitável; noutras, foge completamente ao tema; muitas vezes fica só mediano. Raramente é brilhante.
A professora propôs então uma abordagem diferente. Usar a IA como parceira de brainstorming, e não como redatora-fantasma. Pedir-lhe ideias, argumentos contrários e listas de exemplos. Depois, fechar o separador. Pegar na caneta. Reescrever tudo com palavras próprias e com o próprio raciocínio.
Sejamos honestos: ninguém faz isto religiosamente todos os dias. Mas quem tenta melhora mais depressa do que os outros.

Há ainda um aspeto que faz toda a diferença: quando a IA sugere exemplos, referências ou citações, convém cruzá-los com fontes reais. Um bom texto escolar não depende apenas de soar bem; depende também de ser rigoroso. Se a referência estiver trocada, se o autor estiver mal citado ou se o exemplo não sustentar a ideia, o brilho da superfície não chega para salvar a argumentação.

“O ChatGPT pode ajudar-te a pensar, mas não pensa por ti.”

Foi assim que a professora resumiu o assunto naquela aula. Depois, pediu aos alunos que escrevessem no quadro o que podiam esperar razoavelmente da IA durante a preparação:

  • Gerar listas de conceitos e definições para estudar com mais eficiência.
  • Pedir contra-argumentos para reforçar um plano já existente.
  • Transformar um rascunho num texto mais limpo e mais legível.
  • Solicitar exemplos de literatura, história ou atualidade para enriquecer uma ideia.
  • Simular temas de exame para treinar a construção rápida de um plano.

Usada desta forma, a ferramenta deixa de ser um atalho e passa a ser um parceiro de treino.

O que este 8/20 “duro” diz realmente sobre nós

Esta dissertação reprovada, escrita pelo ChatGPT, diz menos sobre as máquinas do que sobre as nossas expectativas. Sonhamos com uma solução milagrosa capaz de apagar o stress, a dúvida e as páginas em branco por falta de inspiração. No entanto, o exame continua a valorizar algo profundamente humano: o ponto de vista, a sensibilidade e a forma como ligamos conhecimento a uma experiência vivida.
Alguns leitores verão esta história como prova de que a IA está sobrevalorizada. Outros verão nela mais um motivo para entrar em pânico com o futuro da escola. Entre esses dois impulsos, existe um caminho mais sereno. Usar a ferramenta, sem abdicar do próprio pensamento.
A professora que deu o 8/20 continua a corrigir textos manuscritos todos os anos. Mas agora, por trás de cada cópia bem estruturada, faz-se uma pergunta discreta: “De quem é, afinal, esta voz que estou a ler?”

Também por isso, escrever continua a ser um exercício que vai além da organização de ideias. Uma boa dissertação depende de leitura, de repertório, de capacidade de hierarquizar argumentos e de coragem para defender uma posição. A IA pode ajudar a iniciar o caminho, mas não substitui a construção lenta da maturidade intelectual - aquela que nasce da prática, da revisão e da dúvida bem trabalhada.

O que ficou claro nesta avaliação

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A IA ainda não domina os ensaios do bac A dissertação avaliada recebeu 8/20 com uma grelha oficial Reduz a confiança cega em “a IA faz tudo por mim”
A forma não basta Estrutura bonita, profundidade fraca, exemplos genéricos Mostra o que os professores procuram realmente: pensamento genuíno
A melhor utilização é em colaboração IA para ideias e estrutura, aluno para conteúdo e nuance Forma concreta de usar o ChatGPT sem sabotar a aprendizagem

FAQ

  • O ChatGPT consegue mesmo escrever uma dissertação completa para o bac?
    Sim. Consegue produzir um texto estruturado e gramaticalmente correto, com introdução, desenvolvimento e conclusão que, à primeira vista, parecem válidos.

  • Então porque é que a professora deu apenas 8/20?
    Porque a dissertação não tinha profundidade, referências precisas, análise clara nem uma posição genuína - elementos centrais na avaliação do bac.

  • Usar o ChatGPT para trabalhos escolares é batota?
    Usá-lo para gerar um texto completo e entregá-lo tal como saiu claramente aproxima-se da batota; usá-lo para obter ideias que depois são trabalhadas pelo aluno está muito mais perto de um apoio de estudo.

  • A IA pode ajudar-me a escrever melhor?
    Sim, desde que lhe peças para criticar o teu texto, sugerir reformulações ou gerar versões alternativas que tu depois adaptes, em vez de copiares.

  • A IA acabará por tirar 18/20 no bac?
    Ninguém sabe. Mas se os avaliadores reforçarem a exigência de originalidade, voz pessoal e capacidade de raciocínio, a fasquia continuará a subir.

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