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Quando “sê mais confiante” corrói a autoestima

Três jovens sentados à mesa com livros e cadernos, uma menina bebe numa chávena num ambiente iluminado.

A rapariga na esplanada do café não chorava, mas via-se que estava a um passo de o fazer. A amiga inclinou-se sobre a mesa, respirou fundo e disse uma daquelas frases que parecem ternas, soam ternas e, ainda assim, cortam como vidro: “Não sejas tão duro contigo. Precisas de ter mais confiança.”

A rapariga acenou com a cabeça, esboçou um sorriso fraco e ficou a olhar para o café.

Havia ali uma distância evidente entre aquelas palavras e a realidade dela. Aquele pequeno golpe invisível que sentimos quando alguém nos dá um conselho com tom encorajador, mas que, no fundo, transmite: “Tu, tal como és, não chegas.”

Ouvimos este tipo de conselho no trabalho, nas redes sociais e em jantares de família. Surge em canecas, em publicações em sequência e em histórias do Instagram com tons suaves e frases de efeito.

Algumas dessas frases, sem se notarem, acabam por minar a autoestima.

“Sê mais confiante” e outras frases de falsa ajuda

Basta assistir a um grupo de amigos a falar sobre uma separação, uma má nota ou uma entrevista de emprego falhada para reconhecer o mesmo disco. “Não penses tanto nisso.” “Não sejas tão sensível.” “Só precisas de te amar mais.”

À superfície, parece apoio. Parece crescimento pessoal, fortalecimento e responsabilidade individual.

Mas, se escutarmos por baixo das palavras, o que a outra pessoa realmente ouve é isto: “Os teus sentimentos atuais estão errados. A forma como reages é um problema. Corrige-te - e depressa.”

Imagina este cenário. Chegas ao escritório arrasado depois de uma apresentação desastrosa que descarrilou por completo. A tua chefia chama-te para uma conversa e diz, com um sorriso: “És muito bom, só precisas de transmitir mais confiança da próxima vez. Acredita em ti!”

Voltas para a secretária com esse comentário aparentemente positivo… e, estranhamente, sentes-te ainda pior.

Em vez de pensares, “Posso melhorar os diapositivos, ensaiar as respostas e pedir orientação”, o teu cérebro traduz aquilo como: “O problema é a minha personalidade. A minha falta de confiança é o verdadeiro fracasso. As outras pessoas lidam com isto muito melhor.”

Aí está o veneno escondido neste tipo de conselho: ele ataca a identidade, não o comportamento.

Não diz: “Aqui tens um passo pequeno e possível.” Diz: “Torna-te noutra pessoa.”

Quando o conselho fere a forma como te sentes, em vez de apontar para aquilo que realmente podes fazer, instala-se uma guerra discreta dentro de ti. Começas a duvidar das tuas reações, das tuas necessidades e do teu ritmo. Passas lentamente de “cometi um erro” para “eu sou um erro”.

É nessa mudança que a autoestima começa a fracturar-se.

Nas redes sociais, este tipo de mensagem espalha-se depressa porque cabe bem em formatos bonitos e fáceis de partilhar. O problema é que a estética de uma frase não a torna útil. Uma frase pode parecer inspiradora num ecrã e, no entanto, soar dura e invalidante quando é dirigida a alguém que já está em baixo.

Como parar de dar conselhos que magoam mais do que ajudam

Se te apanhares prestes a dizer “Sê mais confiante”, trava por um instante. Troca conselhos sobre a identidade por apoio concreto.

Pergunta: “Queres ideias ou preferes que eu só te ouça?” Depois segue a resposta como se fosse um mapa.

Em vez de empurrares alguém para sentir algo diferente, concentra-te no passo seguinte que essa pessoa consegue dar: uma chamada que pode fazer, uma frase que pode ensaiar, um limite que pode estabelecer. Passos pequenos, simples e práticos são muitas vezes onde mora a verdadeira ajuda.

Há uma razão para tantos conselhos supostamente positivos soarem sempre ao mesmo: “Pensa positivo.” “Não desistas.” “Tu consegues.” Repetimo-los porque nos custa lidar com a dor dos outros. Queremos arrumá-la depressa, como se fosse possível dobrá-la e pô-la numa gaveta.

O problema é que estas frases acabam muitas vezes por cair como julgamento disfarçado de gentileza. “Não sejas tão negativo” pode traduzir-se em “O teu medo incomoda-me.” “És mais forte do que isto” pode soar a “Não tens licença para sofrer.”

Sejamos francos: ninguém faz isto na perfeição todos os dias. Ninguém “se ama” por decreto, nem “deixa de pensar demais” só porque alguém o disse numa reunião ou num programa de áudio.

Por vezes, o conselho mais poderoso é simplesmente: “Não estás a enlouquecer por te sentires assim.”

Também ajuda criar uma pequena distância entre o impulso de aconselhar e a resposta automática. Se costumas tentar resolver tudo na hora, experimenta primeiro reconhecer a emoção da outra pessoa e só depois perguntar se ela quer sugestões. Essa pausa muda o tom da conversa e evita que o apoio se transforme em correção disfarçada.

  • Deixa de diagnosticar, começa a descrever
    Troca rótulos como “és demasiado sensível” ou “és demasiado dependente” por descrições do que observas: “Pareces realmente sobrecarregado; queres falar sobre o que te está a pesar?”

  • Substitui slogans por coisas concretas
    Em vez de “Sê mais confiante”, tenta: “Na próxima vez, queres ensaiar o teu discurso comigo para te sentires um pouco mais seguro?”

  • Valida antes de sugerires
    Diz primeiro o que é verdade naquele momento: “Isso parece mesmo difícil.” Deixa que o sentimento exista e só depois pergunta se a pessoa quer ideias.

  • Respeita ritmos diferentes
    Nem toda a gente recupera, decide ou se afirma ao mesmo ritmo. Um conselho que ignora esse tempo parece uma crítica silenciosa.

  • Pergunta em vez de presumir
    Um simples “O que te seria mais útil agora?” costuma curar mais do que dez minutos de discurso motivacional.

O tipo de apoio que realmente fortalece a autoestima

A verdadeira autoestima não cresce porque alguém nos manda “melhorar a mentalidade”. Cresce quando nos é permitido ser plenamente humanos diante de outra pessoa e essa pessoa não recua.

Constrói-se quando uma chefia diz: “Isto correu mal. Vamos perceber o que aconteceu e trabalhar em duas coisas para a próxima vez”, em vez de “Tens de ter mais casca grossa”.

Também se reforça quando um amigo afirma: “Claro que estás ansioso. Qualquer pessoa estaria”, e fica contigo no silêncio sem te apressar a estar “melhor”.

Todos nós já sentimos isso: aquele momento em que a presença calma e firme de alguém ajudou mais do que uma centena de frases de autoajuda.

O apoio que faz diferença não precisa de ser grandioso. Muitas vezes, o que mais ajuda é consistência: alguém que volta, que escuta de novo, que não transforma a tua dificuldade em espetáculo e que não exige uma recuperação rápida só para ficar tranquilo. A confiança verdadeira nasce mais facilmente de relações seguras do que de discursos perfeitos.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Identificar conselhos “simpáticos” mas nocivos Frases centradas na identidade (“sê mais confiante”, “não sejas tão sensível”) Reconhecer o que mina discretamente a autoestima
Trocar generalidades por apoio concreto Perguntar o que é preciso e oferecer ações pequenas e possíveis Dar ajuda que realmente muda situações
Proteger relações Validar sentimentos antes de sugerir soluções Construir confiança em vez de ressentimento silencioso

Perguntas frequentes

  • Pergunta 1
    Como devo responder quando alguém me diz “Sê mais confiante”?
    Podes responder com algo como: “Talvez, sim. O que achas que eu poderia fazer de forma diferente da próxima vez?” Assim, levas a conversa das críticas vagas à ajuda prática.

  • Pergunta 2
    Todo o conselho faz mal à autoestima?
    Não. O conselho centrado em comportamentos, competências e opções tende a ajudar. O que corrói a autoestima é o que ataca quem tu és ou a forma como te sentes, sobretudo com frases do género “és demasiado…”.

  • Pergunta 3
    O que posso dizer em vez de “Não sejas tão sensível”?
    Experimenta: “Vejo que isto te afeta bastante e quero perceber porquê” ou “A tua reação importa; consegues explicar-me melhor o que está por trás dela?” Não estás a envergonhar a sensibilidade da pessoa; estás a respeitá-la.

  • Pergunta 4
    Como posso deixar de dar este tipo de conselho se me sai de forma automática?
    Começa por inserir uma micro-pausa antes de falares. Pergunta a ti próprio: “Estou a julgar o que a pessoa sente ou a apoiar as opções dela?” Com o tempo, essa pausa torna-se hábito e a tua linguagem muda naturalmente.

  • Pergunta 5
    E se eu precisar mesmo de dar um feedback duro?
    Podes ser honesto sem atacar a identidade da pessoa. Descreve o comportamento específico, o impacto que teve e uma ou duas alterações possíveis. Mantém o foco na situação, não no valor da pessoa.

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