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Na Groenlândia, apesar do aumento do nível do mar global, ele pode descer.

Duas pessoas junto a um medidor de água no lago perto de icebergues e casas costeiras.

Quando o mar sobe em todo o lado, menos ali

Enquanto muitas cidades costeiras em Portugal e no resto do mundo se preparam para lidar com marés mais agressivas e inundações frequentes, uma enorme ilha gelada no Atlântico Norte parece ir na direção contrária.

Novas projeções científicas sugerem que, enquanto quase todo o planeta enfrenta mares mais altos nas próximas décadas, a Groenlândia pode ver a água recuar ao longo de grande parte da sua costa. A combinação de gravidade, geologia em profundidade e derretimento acelerado do gelo cria um cenário pouco intuitivo e obriga os governos a repensar a adaptação ao aquecimento global.

Quando o mar sobe em todos os lugares, menos em um

A subida do nível do mar tornou-se um dos indicadores mais seguidos da crise climática. Os relatórios do IPCC apontam para um avanço contínuo dos oceanos, com impacto direto em megacidades costeiras, infraestruturas portuárias e zonas de pesca. Neste contexto, qualquer referência a uma “descida do nível do mar” soa a erro. Mas, em torno da Groenlândia, as contas são diferentes.

Um estudo recente de investigadores do Lamont-Doherty Earth Observatory, da Columbia University, publicado na revista Nature Communications, mostra que o nível relativo do mar à volta da ilha tende a descer até 2100, em quase todos os cenários analisados. Em alguns troços da costa, essa descida pode ultrapassar os dois metros e meio, mesmo com os oceanos a subirem em média no resto do planeta.

Enquanto a Groenlândia contribui para elevar o nível global dos mares, o seu próprio litoral tende a ver o mar recuar.

Esta aparente contradição não significa alívio climático. Pelo contrário: a descida local do nível do mar é precisamente um sinal da enorme quantidade de gelo que a ilha está a perder ano após ano.

O efeito gravidade: quando o gelo puxa o oceano

Para perceber este cenário, é preciso ir além da ideia simples de uma “banheira a encher”. O nível do mar não sobe como uma linha direita e uniforme. Depende de correntes, temperatura, salinidade e, de forma menos óbvia, da gravidade de massas gigantescas, como as calotas de gelo.

A Groenlândia está a perder centenas de milhares de milhões de toneladas de gelo por ano. Essa massa colossal exerce atração gravitacional sobre a água do oceano em redor. Enquanto a calota é espessa, ela literalmente “puxa” o mar para perto.

Quando o gelo derrete e parte dessa massa desaparece, somam-se dois efeitos:

  • a atração gravitacional da calota enfraquece;
  • a água do oceano redistribui-se para zonas mais afastadas.

Este mecanismo é conhecido como “impressão gravítica” ou “impressão gravitacional” do gelo. A consequência direta é contraintuitiva: perto da Groenlândia, o mar tende a baixar, enquanto em áreas distantes - incluindo faixas tropicais e subtropicais - o nível pode subir ainda mais do que a média global.

A mesma massa de gelo que desaparece da Groenlândia ajuda a empurrar o nível do mar para cima em costas que nunca verão um iceberg.

No estudo, os investigadores combinaram modelos climáticos, dados de satélite e medições de geodesia para quantificar este efeito. O resultado mostra que a redistribuição da água compensa e, em muitos pontos da costa groenlandesa, ultrapassa a elevação média dos oceanos.

Uma Terra em movimento: o solo que se levanta

O derretimento do gelo não mexe apenas com o mar. Também altera a própria forma do planeta. Durante milhares de anos, o peso de quilómetros de gelo comprimiu a crosta sob a Groenlândia, afundando a litosfera no manto. Com a perda acelerada dessa carga, o solo começa a reagir.

O chamado “rebote isostático”

Este processo chama-se ajuste glácio-isostático, ou simplesmente “rebote” da crosta. Mediçōes de GPS já registam, em partes da Groenlândia, elevações de alguns milímetros por ano. Parece pouco, mas ao longo de décadas torna-se uma deslocação significativa.

Quando o terreno sobe e o mar à frente baixa ou se mantém estável, o nível relativo sentido nas costas tende a descer. Nos modelos da equipa da Columbia, esta elevação do terreno explica uma parte importante da queda prevista no nível relativo do mar até ao fim do século.

Fator Efeito sobre o nível local do mar na Groenlândia
Derretimento da calota Aumenta o nível global, mas reduz a atração gravitacional local
Redistribuição da água Empurra mais água para regiões distantes, reduzindo o nível na área próxima
Rebote da crosta Eleva o solo, gerando descida do nível relativo em portos e baías

Os autores sublinham que o solo responde lentamente. Mesmo que as emissões globais desçam nas próximas décadas, o ajuste da crosta continua durante muito tempo, numa escala de séculos. Isso mantém o processo de elevação do terreno em curso, enquanto o oceano continua a subir noutras regiões.

Cenários de emissões: queda “fria” ou queda em meio ao caos

Os investigadores testaram diferentes trajetórias de emissões de gases com efeito de estufa, desde caminhos mais controlados - parecidos com o cenário RCP 2.6 - até rotas de aquecimento intenso, como o RCP 8.5.

Nos cenários com emissões mais baixas, as projeções apontam para uma redução média do nível relativo do mar em torno da Groenlândia de cerca de 0,9 metro até 2100. Já nas trajetórias de emissões elevadas, o derretimento acelera, o rebote intensifica-se e a redistribuição da água aumenta. Em alguns troços do litoral, o recuo relativo do mar pode ultrapassar 2,5 metros.

Ainda assim, esta descida não é uniforme. Baías protegidas, fiordes profundos e zonas junto a grandes glaciares costeiros respondem de forma diferente. A topografia submarina, as correntes locais e o comportamento de cada glaciar criam um verdadeiro mosaico de impactos.

Enquanto parte da Groenlândia se adapta ao recuo do mar, outras regiões do planeta enfrentam uma subida até amplificada pela perda de gelo da ilha.

O paradoxo para cidades costeiras do resto do mundo

Ao mesmo tempo que a Groenlândia lida com a queda relativa das águas, regiões muito distantes podem sofrer um aumento acima da média global precisamente por causa da sua perda de gelo. Áreas tropicais densamente povoadas entram nessa equação.

Projeções de nível do mar que ignoram estes efeitos regionais podem subestimar o risco real em certas cidades. Em deltas de grandes rios, ilhas baixas e metrópoles marítimas, alguns centímetros extra já fazem diferença na frequência das cheias, na erosão costeira e na salinização dos aquíferos.

Impactos na vida costeira groenlandesa

A Groenlândia tem perto de 60 mil habitantes, a maioria em pequenas cidades e aldeias coladas ao litoral. Portos, rampas de pesca, estradas costeiras e depósitos de combustível foram pensados para um certo nível do mar. Com o recuo relativo da água, estas estruturas podem ficar “altas demais” para o uso diário.

Uma descida de um ou dois metros no nível relativo significa:

  • cais com menor profundidade, dificultando o acesso de navios;
  • ajustamentos em rotas de barcos e linhas de abastecimento;
  • mudanças na dinâmica dos fiordes usados para pesca e transporte.

Os investigadores também discutem possíveis efeitos sobre glaciares que terminam no mar. Uma pressão menor da coluna de água pode, em teoria, reduzir o ritmo de desprendimento de icebergs em alguns pontos. Ainda assim, a temperatura do oceano e as correntes continuam a ser forças decisivas, pelo que este tema permanece em aberto.

Efeitos sobre ecossistemas frágeis

Os ecossistemas costeiros da Groenlândia, já sensíveis às mudanças no gelo e na temperatura, também entram numa fase de transformação. Zonas rasas que servem de área de alimentação para peixes e mamíferos marinhos podem alterar profundidade, temperatura e circulação de nutrientes.

As áreas húmidas costeiras, onde a transição entre terra e mar é delicada, podem secar ou ser rapidamente redesenhadas, alterando rotas migratórias de aves e a disponibilidade de alimento para as comunidades locais.

Por que esta “exceção” importa para o planeta inteiro

A Groenlândia funciona, de certa forma, como um laboratório ao ar livre para perceber como o sistema Terra reage à perda de grandes massas de gelo. Os mesmos princípios físicos aplicam-se à Antártida e a antigas calotas que já desapareceram no passado geológico.

Perceber com precisão a impressão gravitacional, o rebote da crosta e os padrões regionais de redistribuição da água ajuda a afinar os modelos globais de nível do mar. Estes modelos sustentam decisões que envolvem milhares de milhões, como a altura de diques, a localização de novos portos e a expansão de zonas urbanas costeiras.

Alguns termos técnicos usados neste debate merecem atenção. “Ajuste glácio-isostático” descreve a resposta lenta da crosta e do manto à remoção do gelo, quase como um colchão que recupera a forma original depois de muita pressão. Já “nível relativo do mar” não fala apenas do oceano a subir ou a descer, mas da diferença entre a altura da água e a superfície do terreno em cada ponto da costa.

Os cenários futuros também levantam questões práticas. Se a Groenlândia passar por uma fase de recuo relativo das águas, podem surgir novas faixas de costa exposta, abrindo debates sobre infraestrutura, mineração, conservação e direitos dos povos indígenas. Ao mesmo tempo, cada tonelada de gelo perdida na ilha empurra ainda mais o risco para cidades distantes, que verão essa água refletida na maré de forma bem concreta.

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