Enquanto os responsáveis europeus trocam murmúrios inquietos nos corredores de Munique, os democratas norte-americanos espalham-se pela assistência com uma mensagem simples.
A era Trump, defendem, não esgota a história dos Estados Unidos - e, se depender deles, também não vai definir aquilo que se segue para o papel da América na Europa nem no resto do mundo.
A Conferência de Segurança de Munique decorreu este ano sob um clima de apreensão. Os ministros europeus chegaram com a mesma dúvida na cabeça: como é, afinal, uma América “pós-Trump”, se Donald Trump já regressou à Casa Branca?
A reunião bávara funciona, há muito, como um grande termómetro transatlântico. Para os europeus, não se trata apenas de ouvir discursos: é uma oportunidade para medir intenções, testar alianças e perceber se Washington encara a Europa como parceira estratégica ou como um fardo político.
Os democratas chegam a Munique com uma missão
O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, deu o tom. O seu discurso juntou palavras tranquilizadoras a farpas dirigidas ao que descreveu como o “declínio cultural” da Europa. A combinação, porém, pouco fez para acalmar os ânimos.
Foi nesse vazio que entraram os democratas. Dezenas de governadores e membros do Congresso viajaram até à Baviera com um objetivo muito claro: convencer aliados preocupados de que Trump não fala por todo o país, nem por aquilo que os Estados Unidos pretendem ser a longo prazo.
Os parlamentares democratas usaram Munique para sustentar que a democracia norte-americana está a cambalear, mas não a desmoronar-se - e que as alianças continuam a importar.
Uma das frases mais citadas do fim de semana veio do governador da Califórnia, Gavin Newsom. Numa mesa paralela, perante uma sala cheia de diplomatas, afirmou: “Donald Trump é temporário. Dentro de três anos, já terá desaparecido.”
Mais do que uma declaração de política, foi uma tentativa de reconfigurar o estado de espírito da sala. Para os europeus que veem Trump impor tarifas a aliados, fazer flirts com a compra da Gronelândia e falar abertamente em redesenhar a OTAN e a ordem mundial, o lembrete foi intencional: o sistema político norte-americano continua a funcionar em ciclos de quatro anos.
“Não estamos em guerra civil” - como acalmar aliados nervosos
A senadora democrata Jeanne Shaheen, do New Hampshire, explicou a sua deslocação em termos diretos.
“Estamos aqui para transmitir tranquilidade e mostrar que compreendemos o quão importantes são os nossos aliados europeus.”
Não esteve sozinha. O senador republicano Thom Tillis, muitas vezes mais duro em política externa do que os seus colegas democratas, juntou-se a ela num dos eventos e afirmou aos responsáveis europeus que os Estados Unidos e a Europa não estão numa “guerra civil”, recomendando que não se deixem arrastar pelo ruído da política norte-americana.
O problema para quem tenta sossegar os parceiros é que esse “ruído” teve consequências bem concretas. Nos últimos anos, Trump impôs tarifas pesadas sobre produtos europeus e de outros parceiros comerciais, colocou em causa a utilidade da OTAN e defendeu uma política externa de “prioridade aos Estados Unidos”, que desvalorizou de forma explícita as instituições multilaterais.
A esse quadro juntam-se as especulações públicas sobre a compra da Gronelândia e o discurso constante sobre a reorganização das alianças em função do hemisfério ocidental. Para capitais europeias habituadas a uma postura previsível de Washington, a mudança pareceu mais um choque do que um mero debate.
Munique como palco de testes para 2028
Muitos dos democratas que encontraram plateias em Munique também figuram na lista de possíveis candidatos presidenciais para 2028. A presença de Newsom foi notada. Tal como a da representante de Nova Iorque, Alexandria Ocasio-Cortez, que depressa se tornou uma das figuras mais procuradas da conferência.
Para estes protagonistas, a viagem cumpre uma dupla função:
- tranquilizar os aliados estrangeiros de que os Estados Unidos têm uma alternativa política ao trumpismo;
- construir credenciais em política externa antes de uma corrida presidencial de 2028 que promete ser muito concorrida.
Essa estratégia a dois tempos traz riscos. Ocasio-Cortez, que construiu a sua identidade política em torno da justiça económica interna, foi questionada sobre se os Estados Unidos deveriam defender Taiwan caso a China avançasse com uma invasão. A sua resposta hesitante chamou a atenção precisamente porque expôs a dificuldade de passar de ativista doméstica a potencial comandante-em-chefe, sob o olhar de diplomatas estrangeiros.
Ligação entre desigualdade e autoritarismo
No plano das ideias, Ocasio-Cortez apresentou uma mensagem claramente distinta tanto de Trump como de Rubio. Defendeu que o aumento das desigualdades de riqueza nas sociedades ocidentais alimenta a desilusão - e empurra os eleitores para líderes fortes que prometem soluções fáceis.
Se as democracias não conseguirem “pôr a casa da economia em ordem” e “trazer ganhos materiais para os trabalhadores”, avisou, os dirigentes autoritários ocuparão o vazio.
O seu argumento ecoou uma linha de pensamento bastante comum entre os sociais-democratas europeus e aproximou-se, de forma evidente, das teses que Joe Biden defendia enquanto ocupava a presidência. A ideia central: a verdadeira competição da democracia com os sistemas autoritários depende menos de slogans e mais da capacidade de melhorar a vida quotidiana das pessoas comuns.
Essa leitura encontrou em Munique uma audiência surpreendentemente recetiva, num momento em que as preocupações económicas e de segurança se misturam cada vez mais - desde os preços da energia à agressão russa, passando pelas pressões migratórias e pela guerra na Ucrânia.
A própria conferência mostrou como, hoje, economia e segurança já não são temas separados. Quando o custo de vida sobe e a sensação de vulnerabilidade cresce, os eleitores tendem a olhar para a política externa através do prisma do impacto interno. Foi essa interligação que vários oradores tentaram explorar, apresentando a defesa da democracia como algo inseparável da proteção social.
Alarmes internos perante aliados estrangeiros
As garantias oferecidas pelos democratas vieram acompanhadas de uma segunda mensagem, mais sombria: o próprio sistema constitucional norte-americano está sob pressão.
O senador Mark Warner, da Virgínia, usou o tempo que lhe foi concedido numa mesa-redonda para alertar que a retórica de Trump sobre nacionalização das eleições e a imposição de regras rígidas de identificação para votar por decreto presidencial colocava o país em território desconhecido. Para Warner, um centrista com fama de prudente, o momento foi tão grave que acabou por dizer à assistência que nunca imaginou falar de ameaças desta natureza “na América de 2026”.
A administração defendeu as suas iniciativas - bem como a polémica proposta de lei SAVE, que imporia uma exigência nacional de identificação dos eleitores - como medidas destinadas a prevenir fraude. Já os grupos de defesa dos direitos civis argumentam que a personificação de eleitores é extremamente rara e que o efeito real será dificultar o voto de cidadãos mais pobres e de minorias.
Esse debate, normalmente doméstico, foi assim apresentado a uma audiência europeia já inquieta com recuos democráticos em países como a Hungria e a Turquia.
Da “obediência ilegal” ao risco jurídico
Os senadores Mark Kelly e Elissa Slotkin trouxeram outro tipo de ansiedade. Ambos surgiram recentemente de uma tentativa falhada do Departamento de Justiça dos Estados Unidos para os acusar por causa de um vídeo em que pediam aos militares norte-americanos que ignorassem ordens “ilegais”.
Ao falar em Munique, Slotkin disse que os Estados Unidos estavam “a atravessar algo profundo”, acrescentando depois: “Vamos ultrapassar isto.” A frase captou a tensão central do fim de semana: a convicção de que as instituições democráticas podem resistir, acompanhada por uma incerteza profunda quanto ao preço a pagar.
América pós-Trump: a mensagem para a Europa
Para muitos delegados europeus, a questão mais urgente não era quem vencerá a próxima eleição presidencial nos Estados Unidos, mas sim se os compromissos norte-americanos conseguem sobreviver a qualquer ocupante da Casa Branca.
O senador do Arizona Ruben Gallego foi direto: “Às vezes é preciso lembrá-los de que isto não é só Trump… Nós ainda cá estamos.”
Gallego e outros procuraram sublinhar vários pontos:
| Preocupação na Europa | Resposta dos democratas em Munique |
|---|---|
| Fiabilidade das garantias da OTAN | Promessa de que o Congresso e futuras administrações continuarão firmemente pró-OTAN, independentemente da retórica de Trump. |
| Comércio e tarifas | Sinal de interesse em recuar nas tarifas confrontacionais e regressar a um comércio baseado em regras. |
| Estabilidade democrática dos EUA | Reconhecimento dos riscos associados às eleições e às instituições, mas com o argumento de que os mecanismos de freios e contrapesos continuam a funcionar. |
Nada disto resolve por completo o receio de fundo na Europa: o de que a política norte-americana se tornou tão polarizada que cada mudança de administração pode inverter pilares inteiros da política externa. Para governos que planeiam orçamentos de defesa e estratégias energéticas com décadas de antecedência, essa volatilidade é profundamente desconcertante.
Como os europeus podem ler a turbulência política dos EUA
Para decisores e cidadãos europeus que tentam perceber este momento, há alguns conceitos básicos que ajudam.
Em primeiro lugar, “prioridade aos Estados Unidos” não é apenas um slogan. Refere-se a uma abordagem ampla em que Washington privilegia o ganho nacional de curto prazo, muitas vezes à custa de alianças antigas e de instituições como a OTAN, a União Europeia e a Organização Mundial do Comércio. Essa postura pode significar mais tarifas, menos acordos multilaterais e uma concentração mais forte da política interna nas decisões externas.
Em segundo lugar, as leis de identificação de eleitores e o debate em torno da proposta SAVE mostram como as regras eleitorais se tornaram uma linha da frente do conflito partidário nos Estados Unidos. Os defensores afirmam que servem para evitar fraude. Os críticos dizem que podem reduzir a participação ao tornar o voto mais burocrático e difícil, sobretudo para grupos que têm menor probabilidade de dispor de identificação atualizada. Para observadores estrangeiros, o efeito prático levanta uma dúvida persistente sobre se os futuros resultados eleitorais norte-americanos serão amplamente aceites no próprio país.
Cenários que os europeus avaliam discretamente
Nos bastidores de think tanks e ministérios, os responsáveis europeus modelam vários futuros para uma América “pós-Trump”:
- Continuidade ao estilo Trump: um futuro governo republicano mantém as tarifas, questiona o financiamento da OTAN e trata a UE mais como rival do que como parceira.
- Cooperação transacional: Washington permanece na OTAN e no G7, mas toma todas as decisões com base num cálculo estreito de interesse nacional, exigindo contrapartidas claras pelo apoio norte-americano.
- Reparação das alianças: um governo democrata trabalha com o Congresso para consolidar garantias de segurança e comércio de mais longo prazo, mais difíceis de reverter por qualquer presidente isolado.
A intervenção dos democratas em Munique foi dirigida precisamente ao terceiro cenário. Queriam levar os líderes europeus a imaginar uns Estados Unidos que voltam a aproximar-se da segurança coletiva, de regras comerciais previsíveis e de uma resposta comum a potências autoritárias como a Rússia e a China.
Ao mesmo tempo, os avisos sobre direitos de voto, poder executivo e intimidação jurídica deixaram claro que o caminho para esse futuro está longe de ser garantido. Para a Europa, a mensagem de Munique foi simultaneamente reconfortante e perturbadora: a América pós-Trump pode voltar a parecer mais familiar, mas o percurso para lá chegar passa por algumas das disputas políticas mais intensas que os Estados Unidos viveram em décadas.
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