O teu nome aparece no diapositivo. O teu gestor sorri para ti como se tivesses salvo a empresa de um edifício em chamas. Tu acenas, dizes “obrigado”, até fazes uma piada sobre a equipa. Por fora, pareces sereno. Por dentro, estás discretamente em pânico.
A tua cabeça repete a mesma ladainha: “Tiveste apenas sorte. Não sabem a história toda. Se soubessem, bateriam palmas com menos entusiasmo.” Repassas o projeto mentalmente, à procura de falhas que expliquem porque é que não mereces propriamente estes aplausos. Chegas quase a sentir culpa por estares a gostar do reconhecimento.
O elogio é genuíno. O trabalho foi bom. E, mesmo assim, o peito aperta e o sorriso parece emprestado. Surge então uma pergunta estranha: e se o problema não for o elogio em si?
Porque é que o fenómeno do impostor transforma elogios em ameaça
Há pessoas que se derretem quando recebem reconhecimento. Outras ficam imóveis. Se estás a ler isto, é provável que pertenças ao segundo grupo. O elogio chega, mas em vez de te aquecer, dispara um alarme silencioso na tua cabeça. Começas a varrer a sala com os olhos, quase à espera de alguém se levantar e dizer: “Espera lá, isto foi engano.”
Essa tensão - entre aquilo que os outros vêem e aquilo que tu sentes - é o centro desta história. Não significa que aches o teu trabalho péssimo. Podes até saber, racionalmente, que fizeste um bom trabalho. O problema está na distância entre “fiz isto bem” e “sou o tipo de pessoa que merece reconhecimento”. Essa distância pode engolir uma carreira inteira.
Uma projetista de produto com quem falei há pouco descreveu-o numa frase: “Cada elogio parece-me como se estivesse a usar o passaporte de outra pessoa.” Tinha acabado de liderar uma reformulação que aumentou o envolvimento dos utilizadores em 40%. Em frente a três departamentos, o chefe chamou-lhe “um pilar da equipa”. Toda a gente aplaudiu. Ela sorriu e, de seguida, foi para a casa de banho chorar durante dez minutos.
No papel, estava a prosperar. Tinha duas promoções em quatro anos, era respeitada por várias equipas e pediam-lhe sempre opinião nas decisões mais importantes. Por dentro, vivia à espera do correio eletrónico que provasse que tinha enganado toda a gente. Contou-me que, muitas vezes, ficava até mais tarde não para fazer mais trabalho, mas para tentar sentir-se digna do elogio que já tinha recebido nessa manhã.
A história dela não é rara. Estudos sobre o chamado fenómeno do impostor sugerem que até 70% das pessoas vão sentir isto em algum momento da carreira. E isto atinge com particular força quem tem muito desempenho. Quanto mais conquistas tens, mais oportunidades tens para ser elogiado - e mais exposto te sentes.
Há também outro mecanismo em jogo: o corpo aprende a associar visibilidade a perigo. Se em tempos foste criticado por te destacares, ou se cresceste num ambiente em que o erro era tratado como vergonha, o elogio pode ativar a mesma resposta de defesa. Não estás apenas a pensar demasiado; o teu sistema nervoso pode estar a interpretar o reconhecimento como uma situação de risco.
Nalguns locais de trabalho, além disso, há uma cultura que confunde humildade com autoapagamento. Aprendes a dizer “foi só sorte”, “não foi nada de especial” ou “qualquer pessoa teria feito o mesmo” tantas vezes que isso passa a soar natural. Com o tempo, a tua boca e a tua cabeça alinham-se. Acabas a acreditar no teu próprio discurso de desvalorização.
Como responder quando a síndrome do impostor te encolhe
Da próxima vez que alguém te elogiar por algo que fizeste realmente bem, experimenta um gesto muito simples: faz uma pausa e respira uma vez antes de responder. Esse segundo cria espaço suficiente para escolher uma frase diferente. Em vez do habitual “ah, não foi nada”, tenta algo curto: “Obrigado, sinto-me orgulhoso do resultado” ou “Obrigado, estou contente com o que conseguimos”.
No início, vai parecer artificial, quase como se estivesses a representar um papel. E é provável que ouças a voz interior a resmungar: “Quem é que pensas que és?” Mantém a frase curta. Não te justifiques. Não a diminua com uma gargalhada nervosa. Deixa o silêncio depois do “obrigado” fazer parte do momento. Não estás a inflar o ego. Estás apenas a deixar a realidade chegar até ti.
Na prática, ajuda bastante preparares uma ou duas respostas com antecedência, tal como farias antes de uma entrevista. Algo como: “Gostei mesmo de trabalhar neste projeto, obrigado por teres reparado” ou “Dediquei-me bastante a isto, por isso agradeço que o tenhas notado.” Escreve-as. Diz em voz alta em casa. Parece ridículo, mas funciona.
Muita gente que luta com o fenómeno do impostor faz sempre o mesmo movimento logo após receber um elogio: apressa-se a desvalorizá-lo. “Não foi nada.” “Qualquer um teria feito igual.” “Só segui o processo.” Cada uma dessas respostas ensina o cérebro a desconfiar dos elogios e a neutralizá-los depressa.
Repara na rapidez com que procuras desculpas. Essa velocidade é uma pista. Quando o teu gestor diz: “Trataste daquele cliente de forma excelente”, e tu respondes de imediato: “Oh, ele era fácil, sinceramente”, não estás a ser humilde. Estás a proteger-te do desconforto de seres visto como competente.
Já todos vivemos aquele momento em que alguém nos elogia numa reunião e a única vontade é desaparecer no chão. Isso não significa que estejas estragado. Significa apenas que estás a correr um guião antigo num contexto novo. O objetivo não é tornares-te alguém que adora os holofotes. O objetivo é tornares-te alguém que consegue ficar neles durante três segundos sem pedir desculpa por estar ali.
O que fazer quando o elogio não combina com a tua autoimagem
Há uma lógica estranha por trás da forma como o fenómeno do impostor aparece em pleno sucesso. O cérebro tenta proteger a história que já construiu sobre ti. Se, lá no fundo, estás convencido de que és “mediano”, qualquer elogio forte parece prova suspeita. Em vez de atualizares a narrativa, a tua mente começa a fazer acrobacias para explicar o elogio e afastá-lo.
Dizes a ti próprio que o prazo foi alargado, que o cliente era fácil de agradar, que o mercado ajudou, que os colegas fizeram o verdadeiro trabalho pesado. O elogio escorrega porque não encaixa na imagem que tens de ti. Essa imagem pode ter sido moldada há anos - por um pai crítico, por um professor duro ou simplesmente por uma longa história de minimizar as tuas próprias conquistas.
Uma forma útil de quebrar este padrão é separar “como pareceu” de “o que aconteceu”. Talvez o projeto tenha sido caótico. Talvez tenhas passado semanas ansioso e a duvidar de tudo. Essa é uma história. A outra é verificável: a campanha aumentou as inscrições em 18%, entregaste antes do prazo e três pessoas escreveram a dizer que as tuas instruções finalmente faziam sentido.
“Comecei a guardar uma pasta de elogios na minha caixa de entrada”, contou-me uma engenheira informática. “Sempre que alguém me agradece ou diz que fiz um bom trabalho, arrasto essa mensagem para lá. Quando me sinto uma fraude, releio três. Não cura o problema, mas quebra o feitiço durante um minuto.”
Este tipo de ferramenta pequena e pouco glamorosa é, muitas vezes, o que realmente muda alguma coisa por dentro. Não é uma revolução mental; é um registo discreto da realidade a que podes voltar quando a memória começa a trair-te.
Pequenos hábitos para começar a deixar o elogio pousar
- Cria uma nota de “conquistas” no telemóvel e escreve uma vitória concreta por semana.
- Faz capturas de ecrã das palavras simpáticas que recebes e guarda-as num álbum escondido.
- Depois de cada projeto, escreve duas frases: o que fizeste e qual foi o impacto.
Também ajuda distinguir humildade de apagamento. Ser humilde não significa negar competência. Significa reconhecer o que fizeste sem fingir que não teve valor. Quando aprendes a fazer essa diferença, o elogio deixa de ser uma ameaça à tua identidade e passa a ser apenas informação útil.
Deixa que o elogio te mude, um momento desconfortável de cada vez
Há qualquer coisa de estranhamente poderosa em escolher não discutir com um elogio. Quando deixas de o empurrar para longe, o reconhecimento deixa de ser um veredicto e passa a ser um dado. Alguém viveu o teu trabalho como valioso. Ponto final. Não precisas de sentir que mereces para que isso seja verdade.
Com o tempo, esses dados vão acumulando-se. Começam a mexer nas bordas de como te vês a ti próprio. Isso não significa que acordes um dia a sentir-te um super-herói. Pode ser muito mais discreto do que isso. Talvez, um dia, depois de uma boa apresentação, notes que passaste apenas dez minutos a entrar em espiral em vez de toda a noite. Isso conta.
Podes permitir que a perceção que os outros têm do teu trabalho seja um pouco mais generosa do que a tua. Também podes mudar de opinião sobre ti próprio, devagar, em privado, antes de alguém se aperceber. Às vezes, a coisa mais radical que podes fazer é simplesmente não discutir com a realidade quando ela finalmente está do teu lado.
| Ponto-chave | Detalhe | Utilidade para o leitor |
|---|---|---|
| Aceitar o elogio | Responder com uma frase curta e preparada, como “Obrigado, estou orgulhoso deste resultado.” | Oferece uma alternativa concreta aos reflexos de auto-sabotagem. |
| Exteriorizar as provas | Criar uma pasta de elogios ou uma nota com conquistas concretas. | Ajuda a contrariar uma memória enviesada nos momentos de dúvida. |
| Separar sensação de realidade | Reconhecer que sentir-se impostor não significa ser incompetente. | Permite aceitar o desconforto sem deixar de avançar. |
Perguntas frequentes
Porque é que me sinto impostor mesmo quando sei que trabalhei muito?
Porque a tua narrativa emocional sobre quem és costuma ficar atrasada em relação às tuas competências reais. O cérebro protege crenças antigas, por isso trata o sucesso novo como algo suspeito, mesmo quando foi conquistado.Devo dizer às pessoas que me sinto uma fraude quando me elogiam?
Não precisas de fazer uma confissão no momento. Começa por dizer obrigado. Mais tarde, com alguém de confiança, podes explicar que o elogio te deixa desconfortável e explorar de onde isso vem.A síndrome do impostor é sinal de que estou no trabalho errado?
Não necessariamente. Muitas pessoas de elevado desempenho sentem-se impostoras justamente nas áreas em que são mais competentes. Usa essa sensação como sinal para observares o teu contexto, não como sentença.A terapia pode mesmo ajudar nisto?
Sim. Um terapeuta pode ajudar-te a perceber a origem da tua insegurança, a desafiar crenças pouco úteis e a praticar novas formas de reagir ao elogio e ao sucesso.Quanto tempo leva a deixar de me sentir assim?
Não há um prazo fixo. Em muitas pessoas, estes sentimentos não desaparecem por completo, mas tornam-se mais silenciosos. Sempre que deixas o elogio pousar sem lutares contra ele, estás a reconfigurar alguma coisa, um pequeno momento desconfortável de cada vez.
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