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Quando o otimismo se torna negação

Pessoa segurando caneca com bilhete "solo HOY", caderno aberto e moedas numa mesa com flores num vaso.

Demasiado luminoso. Atrás dela, a cozinha estava um caos, as contas por abrir empilhavam-se no frigorífico e uma mala permanecia meio feita no chão. “Está tudo bem”, riu-se. “Ele vai mudar. Isto é só uma fase. Eu vou manter uma atitude positiva.” O sorriso ficou ligeiramente congelado quando o ecrã ficou preto, porque a bateria se esgotou. O silêncio que se seguiu pareceu mais verdadeiro do que tudo o que ela acabara de dizer.

Elogiamos tanto o optimismo que, muitas vezes, deixamos de o questionar. As pessoas que “mantêm uma atitude positiva” recebem aplausos. As que dizem “isto não está a funcionar” são rotuladas de negativas. Nessa confusão, muita gente desliza em silêncio da esperança para a cegueira. A fronteira entre coragem e evitamento é muito fina.

A maioria de nós nem sequer repara no momento em que a atravessa.

Quando o otimismo se transforma discretamente em negação

O verdadeiro optimismo não fecha os olhos. Enxerga o problema, chama-o pelo nome e, ainda assim, diz: “Há aqui alguma coisa que posso tentar.” A negação, pelo contrário, fecha as cortinas e apresenta-se como “só boas vibrações”. À superfície, ambos podem parecer luminosos. Um faz-nos avançar. O outro mantém-nos presos no mesmo lugar.

A primeira pista costuma estar na linguagem. “Vai correr bem”, sem qualquer plano por trás. “Qualquer coisa há-de aparecer”, enquanto se ignora o envio da candidatura. “Nós estamos bem”, embora ambos durmam virados para paredes opostas. Esse tipo de optimismo aquece por instantes, mas vai desligando a acção aos poucos. É menos esperança e mais anestesia.

A esperança realista é diferente. Deixa a má notícia entrar. Aguenta aquele peso nauseante no estômago. E depois pergunta: “Sabendo que isto é real, o que é que faço agora?” É nessa pergunta que o optimismo se mantém honesto e a negação começa a fissurar.

Pensemos nas carreiras. Um estudo da Gallup indicou que cerca de 60% das pessoas se sentem emocionalmente desligadas do seu trabalho. Muitas repetem a mesma frase em surdina: “Tenho a certeza de que para o ano melhora.” Passam três anos. Nada muda, excepto a energia, que vai sendo drenada um pouco mais a cada mês.

Uma mulher que entrevistei trabalhava doze horas por dia num emprego que detestava. Todas as segundas-feiras dizia a si própria: “Isto é só uma fase difícil.” Não actualizava o currículo, não respondia aos emails de recrutadores, não procurava formação. Ano após ano, a tal fase difícil simplesmente… continuava. Quando acabou por entrar em esgotamento, confessou: “Achei que ser positiva era não me queixar.”

O optimismo dela tinha-se transformado numa narrativa que a impedia de correr qualquer risco. Aí está a armadilha. A crença de que tudo vai melhorar por magia pode dar conforto, mas rouba urgência. Muitas vezes, a negação soa a esperança - só que sem verbos.

Os psicólogos chamam-lhe, por vezes, “positividade tóxica”, mas essa expressão pode parecer demasiado dura para aquilo que, muitas vezes, não passa de medo disfarçado. A negação raramente é maliciosa. Normalmente é o sistema nervoso a fazer o possível para não se afundar. Se cresceste a ouvir “olha para o lado positivo” sempre que alguma coisa doía, o teu cérebro aprendeu um atalho: não olhar para o que magoa de todo.

Isto funciona no curto prazo. Aguentas. Manténs o sorriso nas reuniões, publicas frases motivacionais, brincas com a ideia de que “está tudo bem”. Mas, com o tempo, o corpo começa a cobrar a conta. O sono muda. Reages mal a coisas pequenas. Ficas até tarde a fazer scroll para não pensar. A vida parece funcional no papel, mas há qualquer coisa que, cada vez mais, soa a desalinhada.

Em contraste, a esperança realista pode parecer mais pesada no início. Obriga-te a reconhecer o diagnóstico, a dívida, o padrão na relação, a ansiedade climática, sem maquilhagem nem açúcar. A ironia é esta: quando enfrentas a coisa difícil, mesmo que seja só um pouco, as opções multiplicam-se. Deixas de pensar “Vai correr bem, de alguma forma” e passas a “Aqui estão três coisas que posso mesmo fazer”. É aí que recuperas a tua capacidade de agir.

Também ajuda lembrar que vivemos numa cultura em que a pressão para parecer bem é constante. Nas redes sociais, a vida dos outros parece sempre resolvida, o que torna ainda mais tentador fingir que a nossa também está. Só que a comparação permanente alimenta a negação: em vez de observares a tua realidade, começas a gerir uma versão performativa dela. Paradoxalmente, aceitar essa diferença entre aparência e verdade costuma ser o primeiro passo para voltares a sentir chão.

Como perceber que atravessaste a linha - e como regressar

Um método concreto: faz uma “auditoria à esperança” numa área da tua vida que te incomoda. Não em todas. Só numa. Talvez dinheiro, talvez amor, talvez saúde. Escreve duas colunas curtas: à esquerda, as frases que dizes a ti próprio sobre o assunto. À direita, a evidência dos últimos seis meses.

À esquerda: “No próximo ano vou finalmente pagar o cartão de crédito.” À direita: o saldo não mexeu. À esquerda: “Estamos só numa fase estranha.” À direita: não têm uma conversa calma e sincera há meses. O objectivo não é envergonhares-te. É perceberes onde a esperança é sustentada pelo comportamento e onde está apenas a pairar no ar. Quando não há qualquer movimento, a negação costuma estar instalada.

A partir daí, escolhe um passo pequeno e concreto que combine com a história que queres que seja verdadeira. Um telefonema. Um email. Uma conversa. Um orçamento. A esperança realista vive destas microações, não de transformações dramáticas de um dia para o outro.

Há também algumas armadilhas comuns quando começas a fazer isto. Uma é passar bruscamente da negação para a catastrofização: “Se eu admitir que isto não está a funcionar, tudo vai ruir.” E então ou continuas a fingir, ou explodes a tua vida de uma só vez. Existe um caminho intermédio: pequenas verdades, ditas devagar.

Outra armadilha é delegares a tua esperança noutras pessoas. Esperas que o parceiro mude, que o chefe repare, que o sistema se arranje sozinho. É aqui que a frase “manter uma atitude positiva” pode esconder uma forma silenciosa de passividade. Não és fraco por fazeres isto. És humano. Num dia de cansaço, qualquer pessoa preferia acreditar que não é preciso esforço.

Na prática, ajuda perguntar: o que é que estou realmente a controlar aqui? E o que é que estou apenas a desejar? Quando o teu “optimismo” está todo na coluna dos desejos, deixa de ser um recurso e passa a ser um escudo. Podes ser gentil contigo e, ao mesmo tempo, ser directo sobre isso.

“A esperança não é um bilhete de lotaria que se agarra, sentindo-se com sorte. É um machado com o qual se derrubam portas numa emergência.” - Rebecca Solnit

Esse tipo de esperança precisa de combustível. Cresce na conversa, não no isolamento. Falar com honestidade com uma pessoa de confiança sobre o ponto em que talvez estejas a evitar a realidade pode ser estranhamente aliviador. Dizer em voz alta: “Acho que tenho estado a fingir que isto está bem”, afrouxa o nó.

Também ajuda construir um pequeno kit de apoio para uma esperança realista:

  • Um amigo a quem possas enviar uma nota de voz crua, sem editar.
  • Um recurso prático: uma linha de apoio, um consultor financeiro, um médico, um terapeuta.
  • Um ritual físico que diga “Estou a enfrentar isto”: uma caminhada, um alongamento, um caderno.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Às vezes vais voltar a cair no evitamento. A competência está em reparares que te afastaste e regressares com suavidade, em vez de te julgarem e desistires. É assim que um optimismo saudável acaba, discretamente, por durar mais do que a negação.

Viver com esperança realista, dia após dia

A esperança realista não é um traço de personalidade; é uma prática. Parece pequena, quase aborrecida. É admitir que a tua relação tem padrões que magoam e, ainda assim, acreditar que vale a pena tentar reparar. É reconhecer a ansiedade e marcar a consulta na mesma. É abrir a aplicação do banco quando preferias não olhar e, depois, alterar uma conta.

Este tipo de esperança não significa acordares inspirado todas as manhãs. Muitas vezes é até um pouco banal. Pode parecer actualizar o currículo depois de mais uma semana difícil ou pedir ao parceiro uma conversa a sério, em vez de voltares a engolir o ressentimento. É escolher uma acção honesta em vez de dez fantasias reconfortantes.

Todos nós já dissemos, em algum momento, “eu sabia há meses”, a propósito de uma separação, uma demissão, um diagnóstico ou uma mudança. O conhecimento já estava lá. O que faltava era a coragem para o trazer à luz do dia. A esperança realista é o que permite que esse conhecimento e essa coragem finalmente se encontrem. Quando isso acontece, as histórias que contaste a ti próprio começam a alinhar-se com a vida que estás realmente a viver.

Também há uma componente importante de descanso aqui. Quando estás exausto, o cérebro procura atalhos emocionais e tende a preferir ilusões que aliviem a pressão. Dormir melhor, reduzir o ruído e fazer pausas reais não são luxos: ajudam a distinguir entre fé útil e negação automática. Um espírito descansado vê com mais clareza; um espírito esgotado agarra-se mais facilmente ao que parece confortável.

Pontos-chave sobre o otimismo e a negação

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Identificar a falsa positividade Comparar o que dizes com o que realmente fazes Perceber onde o optimismo está a esconder falta de acção
Fazer a auditoria à esperança Confrontar as frases “vai correr bem” com as provas dos últimos 6 meses Ver com clareza onde a mudança está bloqueada
Instalar uma esperança realista Definir microações, pedir apoio e aceitar os factos Construir uma vida mais alinhada sem perder o impulso interior

Perguntas frequentes

Como sei se estou a ser esperançoso ou apenas a evitar a realidade?
Observa o teu comportamento ao longo do tempo. Se a tua “esperança” não se traduziu em nenhum passo concreto durante meses, é provável que estejas em evitamento e não num optimismo assente na realidade.

Não é focar os problemas o mesmo que ser negativo?
Não, se juntares acção a essa clareza. Nomear um problema de forma directa é, muitas vezes, o primeiro gesto esperançoso, porque abre espaço para soluções reais.

E se encarar a realidade me fizer sentir sobrecarregado?
Reduz a dimensão da tarefa. Enfrenta uma parte de cada vez: uma conta, uma consulta médica, uma conversa. Não tens de resolver tudo de uma vez.

Posso ser optimista e, ao mesmo tempo, admitir que estou a passar dificuldades?
Sim. Isso é optimismo saudável: “Isto está a ser difícil, hoje não estou bem e, mesmo assim, acredito que há caminhos à minha frente.” As duas ideias podem caber na mesma frase.

Como reconstruo a esperança depois de a negação me ter feito perder tempo?
Começa pela autocompaixão e depois procura a área mais pequena em que ainda tens influência. Actua aí. Pequenas vitórias reconstroem a confiança em ti mais depressa do que grandes declarações.

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