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Reconhecer a incerteza pode gerar confiança em vez de enfraquecer a autoridade.

Mulher a tomar notas durante reunião com duas pessoas numa sala de escritório iluminada.

Um médico sénior acabou de levantar os olhos do processo clínico e disse a uma mãe preocupada: «Ainda não sei. O que vamos fazer é descobrir isso em conjunto.» Sem jargão. Sem fingimento de certeza. Apenas aquela frase crua, suspensa no ar.

Os ombros da mãe desceram, mas não por desespero. Por alívio. Pela primeira vez, alguém estava a falar com ela como com uma adulta, e não como com uma criança frágil. O médico começou a desenhar num pedaço de papel: possíveis diagnósticos, exames a realizar, calendários previstos, cenários mais graves e cenários mais favoráveis.

Naquele dia, ninguém saiu com respostas fechadas. Saiu com outra coisa.
Saiu com mais confiança nele do que em qualquer outra pessoa antes.

A estranha verdade: dizer «não sei» pode soar a força

No papel, a autoridade deveria significar ter a resposta certa. O perito. A chefia. A pessoa à frente da sala, com os diapositivos e a voz impecável. Crescemos a pensar que admitir dúvida nos faz perder estatuto.

No entanto, quando observamos conversas reais, muitas vezes acontece precisamente o contrário. O gestor que finge saber tudo provoca olhares de desdém e piadas nas mensagens internas. O político que foge a um simples «ainda não temos a certeza» transforma-se num meme em vinte segundos. O professor que diz: «Boa pergunta, não sei, vamos investigar isso» acaba por ter alunos que realmente escutam.

Hoje, a autoridade não depende apenas do conhecimento. Depende também da forma honesta como falas do que sabes e do que ainda está por apurar.

Investigadores de Harvard realizaram experiências em que os participantes avaliaram «especialistas» perante cenários de incerteza. Os que reconheciam o que não sabiam, explicando ao mesmo tempo o raciocínio, foram considerados mais fiáveis do que os que transmitiam certeza total. Não apenas um pouco mais. De forma clara e significativa.

Vê-se o mesmo na comunicação em saúde pública. Em crises, os comunicadores que dizem «isto é o que sabemos neste momento, e isto pode mudar» recebem menos aplausos imediatos, mas preservam melhor a credibilidade ao longo do tempo. As vozes demasiado confiantes tendem a cair quando a realidade se recusa a obedecer às suas previsões.

Todos conhecemos aquele momento em que um líder prometeu: «Isto vai resultar com toda a certeza», e não resultou. A memória fica. As pessoas não esquecem promessas quebradas. O que recordam com nitidez é a honestidade com que lhes foram explicadas as probabilidades.

Há uma lógica simples por trás disto. Quando finges certeza, estás a reclamar um poder que não tens: controlo sobre um futuro imprevisível. As pessoas sentem essa desconexão, mesmo sem a conseguirem nomear. Parece que te estão a vender algo, e não a falar contigo.

Quando assumes a incerteza, fazes algo mais arriscado e mais humano. Estás a dizer à outra pessoa: não estou aqui para te dominar com o meu saber. Estou aqui para compreender isto contigo. E isso altera a dinâmica, passando de público versus especialista para parceiros diante de um problema, lado a lado.

Nas equipas, esta transparência também evita mal-entendidos que depois custam caro. Um aviso honesto no início de um projecto pode poupar semanas de retrabalho mais à frente. Em contextos presenciais ou à distância, a clareza sobre o que é hipótese e o que é facto reduz ruído, acelera decisões e impede que a confiança seja corroída por suposições.

A confiança não nasce de respostas perfeitas. Nasce de ver como te comportas quando as respostas deixam de existir.

Como falar sobre incerteza sem perder as pessoas

Há uma diferença enorme entre dizer «não sei» e dizer «não sei, e é isto que vou fazer a seguir». A primeira frase soa a beco sem saída. A segunda soa a uma porta. Por isso, o passo prático é sempre ligar a incerteza a uma acção concreta.

Por exemplo: «Ainda não sabemos qual a linha de produto que vai recuperar primeiro. Nas próximas duas semanas, vamos testar três vias: preço, posicionamento e canal. Partilharei os primeiros sinais convosco no dia 15.» A mesma admissão de desconhecimento. Um impacto totalmente diferente.

Esta estrutura funciona em quase todo o lado: na parentalidade, na liderança, na medicina, e até nas amizades. Nomeia o desconhecido. Nomeia o plano. Nomeia o prazo. Mostra que não estás a encolher os ombros e a ir embora; estás a permanecer na luta.

Um dos sítios onde as pessoas mais tropeçam é precisamente na forma de dosar a informação. Ou afogam os outros em ressalvas e probabilidades, até já ninguém conseguir perceber a ideia principal. Ou embrulham tudo em frases vagas como «logo se vê» e «o tempo dirá», que soam a evasão disfarçada de sabedoria.

A ansiedade pode empurrar-te para uma explicação interminável, como se mais palavras pudessem apagar a incerteza. Não podem. Apenas esgotam toda a gente. No extremo oposto, o medo de parecer fraco pode levar-te a uma clareza artificial: «Vai correr bem», «Não há problema», «Temos isto controlado». Às vezes, na verdade, não tens.

Sejamos honestos: ninguém faz isto na perfeição todos os dias. Até os melhores líderes oscilam entre esses dois extremos. A competência está em te apanhares a tempo. Se te ouvires a empilhar desculpas ou a prometer a lua, pára. Desmonta a frase. Diz o que sabes. Diz o que estás a inferir. Diz o que vais verificar.

«As pessoas não perdem a confiança porque um dia ouvem “ainda não sei”. Perdem-na porque fingiste certeza, e a realidade apanhou-te a mentir.»

Essa é a regra silenciosa por trás de muitas relações quebradas, no trabalho e em casa. Pensamos que estamos a proteger os outros ao esconder a incerteza. Na realidade, estamos a roubar-lhes a oportunidade de se prepararem, adaptarem e ajudarem. Quando falas de forma directa sobre risco e dúvida, estás a tratar a outra pessoa como igual, e não como uma criança. No momento pode doer. Ao fim de um ano, compensa largamente.

  • Frase para usar: «Isto é o que sabemos, isto é o que ainda não sabemos, e é assim que vamos descobrir mais.»
  • Usa-a antes de decisões importantes, anúncios ou mudanças.
  • Repete-a o suficiente e as pessoas acabarão por a citar de volta.

Também é útil em comunicações escritas. Um e-mail curto e claro, com o que está decidido, o que continua em aberto e quando haverá nova actualização, costuma reduzir ansiedade mais depressa do que uma mensagem longa e vaga. Em ambientes híbridos, onde as pessoas não conseguem ler a sala pela linguagem corporal, esta precisão ganha ainda mais valor.

A força silenciosa da liderança que admite que continua a aprender

Pensa nos líderes que estarias disposto a seguir para uma situação difícil. Não os polidos das fotografias. Os reais, aqueles a quem enviarias uma mensagem à meia-noite. É provável que não finjam ser invulneráveis. Dizem-te quando estão com medo e o que, apesar disso, estão a fazer.

Esses líderes não guardam a incerteza só para si; partilham-na de um modo que não paralisa. «O próximo trimestre vai ser duro. Eis o que pode acontecer, o que vamos vigiar e onde vou precisar da vossa atenção.» Isso não é fragilidade. É um convite a participar.

Quando um gestor diz: «Avaliei mal este projecto, e foi isto que aprendi», algo discreto muda na sala. As pessoas deixam de esconder as suas próprias dúvidas. As reuniões passam a ser menos sobre encenar confiança e mais sobre trazer a realidade à superfície rapidamente. É aí que a verdadeira autoridade cresce: em espaços onde a verdade pode entrar sem ser retocada pelo ego.

Há um preço nesta forma de liderar. Nem toda a gente vai gostar. Algumas pessoas continuarão a preferir o conforto de respostas simples e assertivas, mesmo quando estão erradas. Se fores tu a dizer: «Está confuso, mas é assim que vamos atravessar isto», podes sentir-te mais lento, menos brilhante, menos digno de citação.

Ainda assim, com o tempo, tornas-te a pessoa a quem todos recorrem quando as coisas estão realmente a arder. A pessoa estável. A pessoa com os pés assentes no chão. A pessoa cujo «vai ficar tudo bem» vale alguma coisa, porque não o disse todos os dias de graça.

Numa época que glorifica opiniões inflamadas e especialistas instantâneos, dizer calmamente «ainda não sei» é uma atitude radical. E, de forma curiosa, também é magnética. As pessoas estão cansadas. Estão saturadas de disparates ditos com excesso de confiança. Uma incerteza real e medida sabe a água fria depois de um dia longo e barulhento.

Ponto-chave Detalhe Vantagem para o leitor
Reconhecer o que ainda não sabes Dizer «isto é o que sabemos, isto é o que ainda falta apurar» em vez de fingir certeza Constrói credibilidade em vez de arriscar desilusões futuras
Ligar a incerteza a um plano Juntar sempre a dúvida aos próximos passos e aos prazos Transforma ansiedade em acção partilhada e sensação de controlo
Dar o exemplo de dúvida honesta como líder Admitir erros, partilhar aprendizagens e pedir contributos Cria uma cultura em que as pessoas dizem a verdade mais depressa e a confiança aprofunda-se

Perguntas frequentes

  • Como posso admitir incerteza sem perder a confiança da minha equipa?
    Junta sempre a um «ainda não sei» um plano claro: o que vais fazer a seguir, quando farás nova actualização e de que forma podem ajudar. As pessoas não precisam que sejas omnisciente; precisam que sejas responsável.
  • Não mostrar dúvida não significa que ainda não estou preparado para liderar?
    Não. Os líderes que fingem saber tudo costumam tomar decisões piores. Mostrar dúvida quanto aos factos, mantendo firmeza nos valores e na acção, é sinal de maturidade, não de fraqueza.
  • E se os meus clientes esperarem respostas absolutamente seguras?
    Podes continuar a ser directo: apresenta a melhor avaliação que tens neste momento e depois explicita as premissas em que ela assenta. Os clientes tendem a valorizar limites claros mais do que promessas brilhantes que acabam por falhar.
  • Como começo a mudar o meu estilo de comunicação?
    Começa por pouco. Na próxima reunião, experimenta uma frase como «Aqui estou confiante; aqui estou a fazer uma hipótese». Repara na reacção das pessoas e constrói a partir daí, em vez de tentares mudar tudo de uma vez.
  • As pessoas não ficam mais ansiosas se eu falar abertamente dos riscos?
    Nalguns casos, sim, pelo menos no imediato. Ao longo do tempo, a ansiedade tende a diminuir quando a realidade é nomeada e partilhada. Os riscos escondidos são os que mantêm as pessoas acordadas às 3 da manhã; os riscos falados podem ser planeados e enfrentados em conjunto.

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