O horário de sono de que mais gosta pode trazer custos ocultos para a saúde.
Os investigadores estão a analisar de perto se ser uma “cotovia matinal” ou uma “coruja noturna” é apenas uma questão de personalidade ou se, com o tempo, também altera a probabilidade de desenvolver doenças graves.
Cotovias matinais vs. corujas noturnas: de que estamos realmente a falar?
Os cientistas do sono usam o termo cronótipo para descrever a tendência natural de uma pessoa para estar mais alerta de manhã ou ao final do dia.
- Cotovias matinais: acordam cedo, sentem-se cheias de energia na primeira parte do dia e têm sono pouco depois do anoitecer.
- Corujas noturnas: sentem-se lentas logo pela manhã, ganham energia mais tarde e mantêm-se activas até altas horas da noite.
- Tipos intermédios: situam-se algures entre os dois extremos, sem uma preferência muito marcada.
O cronótipo é determinado em parte pelos genes e, em parte, pela idade, pela exposição à luz e pelo estilo de vida. Os adolescentes, por exemplo, tendem naturalmente a deslocar-se para o período da noite, enquanto muitos adultos mais velhos acabam por se aproximar do horário matinal.
Ser coruja noturna não é uma falha de carácter; o problema começa quando o relógio interno e o horário social entram em choque de forma constante.
O que sugere a nova investigação sobre a saúde do coração
Um estudo recente publicado no Jornal da Associação Americana do Coração apontou o dedo ao cronótipo tardio.
Os investigadores constataram que as pessoas com cronótipo vespertino - as corujas clássicas - apresentam muitas vezes um desfasamento circadiano mais acentuado. Isso significa que o relógio interno não está sincronizado com a hora a que trabalham, comem e dormem na vida quotidiana.
Esse desajuste não é apenas incómodo. Pode agravar hábitos de vida e perturbar o funcionamento cardiometabólico, isto é, o conjunto de processos que envolve o coração, os vasos sanguíneos e o metabolismo.
As corujas noturnas tinham maior probabilidade de apresentar sono irregular, padrões alimentares mais pobres e indicadores compatíveis com um risco cardiovascular e metabólico mais elevado.
Porque é que o desfasamento circadiano é tão problemático
O organismo funciona segundo um ritmo de cerca de 24 horas, controlado por um conjunto de neurónios no cérebro chamado núcleo supraquiasmático. Este “relógio-mestre” coordena hormonas, temperatura corporal, pressão arterial e até a forma como as células processam o açúcar e a gordura.
Quando as exigências sociais ou profissionais obrigam alguém a viver contra o seu relógio - como uma coruja noturna com despertador às 6h00 em todos os dias úteis - várias coisas podem acontecer:
- O sono fica mais curto ou fragmentado.
- As refeições passam para horários tardios, muitas vezes com snacks mais calóricos à noite.
- O exercício físico é mais facilmente adiado por causa do cansaço.
- As hormonas que regulam o apetite e a glicemia, como a leptina e a insulina, oscilam na altura errada do dia.
Ao longo de meses e anos, este padrão pode aumentar a pressão arterial, favorecer o ganho de peso abdominal e elevar a resistência à insulina. Todos estes factores aumentam a probabilidade de diabetes e doença cardíaca.
Riscos para a saúde num relance
| Padrão | Mais comum em | Riscos associados |
|---|---|---|
| Acordar cedo, deitar cedo | Cotovias matinais | Melhor controlo da pressão arterial, humor mais estável, gestão do peso mais fácil |
| Deitar tarde, acordar cedo | Corujas noturnas forçadas | Sono curto, stress mais elevado, maior risco cardiometabólico |
| Deitar tarde, acordar tarde | Corujas noturnas em liberdade | Maior probabilidade de comer tarde à noite, menos actividade matinal, possível aumento da glicemia |
As cotovias são automaticamente mais saudáveis?
As pessoas que acordam cedo costumam ter pontuações mais altas em medidas de regularidade do sono. Tendem a receber luz natural de manhã, o que ajuda a fixar o relógio biológico, e geralmente deitam-se antes da meia-noite, altura em que o sono costuma ser mais profundo.
Os perfis matinais também encaixam com mais facilidade nos horários convencionais de trabalho e de escola, pelo que acumulam menos dívida de sono crónica. Isso pode traduzir-se em níveis mais baixos de inflamação e hormonas mais equilibradas.
O que protege as cotovias não é apenas a hora a que acordam, mas o facto de o seu ritmo combinar com a vida diária sem luta constante.
Ainda assim, um despertador cedo não funciona como escudo mágico. Uma cotovia que fume, coma mal e nunca faça exercício pode desenvolver os mesmos problemas cardíacos e metabólicos que uma coruja privada de sono. O estilo de vida e o historial clínico continuam a ser muito importantes.
Porque é que muitas corujas noturnas têm risco mais elevado
O cronótipo vespertino torna-se mais problemático quando o trabalho, a escola ou as responsabilidades familiares exigem um início cedo do dia. Muitas corujas acumulam o chamado desfasamento social: nos dias de descanso dormem de acordo com o relógio interno e, durante a semana, passam para horários muito mais cedo.
Esta mudança repetida é como viajar entre fusos horários duas vezes por semana sem sair de casa. A investigação associou um desfasamento social mais elevado a:
- Aumento do índice de massa corporal (IMC).
- Níveis mais altos de glicemia e resistência à insulina.
- Pressão arterial mais elevada e frequência cardíaca em repouso mais alta.
- Maior probabilidade de fumar e de beber em excesso à noite.
Esses comportamentos surgem muitas vezes sobre uma vulnerabilidade biológica já existente, ligada a um relógio corporal atrasado, o que soma riscos em vez de os isolar.
O que os médicos começam a salientar
Cardiologistas e especialistas em doenças infecciosas que comentam a medicina do estilo de vida sublinham cada vez mais que o horário conta tanto como a quantidade e a qualidade do sono.
Alguns clínicos referem que as corujas aparecem com mais frequência entre doentes com diabetes tipo 2 e hipertensão mal controladas. Também relatam mais vezes cansaço, petiscar tardio e oscilações de humor.
Na prática, muitos especialistas passam a encarar o “quando” dorme e come como parte da prevenção cardiovascular, e não apenas o “o quê” e o “quanto”.
Uma coruja noturna pode reduzir os danos?
A genética torna pouco provável que uma coruja autêntica se transforme numa cotovia radiante. Ainda assim, existem várias estratégias capazes de diminuir o desfasamento e o seu impacto na saúde.
- Estabilizar a hora de acordar: mesmo com um horário mais tardio, a consistência ao longo da semana pode ser protectora.
- Limitar a luz intensa à noite: ecrãs e iluminação interior forte atrasam ainda mais o relógio; reduzir a luz nas duas horas antes de dormir ajuda.
- Antecipar as refeições: evitar refeições grandes, ricas em gordura ou açúcar, perto da meia-noite reduz o esforço sobre o metabolismo.
- Planear o exercício com estratégia: treinos ao fim da tarde ou no início da noite podem ajudar a adiantar ligeiramente o relógio sem estragar o sono.
Além disso, mudanças graduais de 15 a 20 minutos na hora de deitar, a cada poucos dias, combinadas com exposição à luz natural de manhã, podem aproximar o ritmo interno das exigências sociais e reduzir o desfasamento social.
Também pode ser útil manter a regularidade ao fim-de-semana. Dormir e acordar muito mais tarde nesses dias pode desfazer parte do que se ganhou durante a semana e tornar o regresso à rotina ainda mais difícil.
Se o cansaço, as alterações de humor ou a dificuldade em adormecer persistirem, vale a pena falar com um profissional de saúde. Em alguns casos, o cronótipo é apenas uma preferência; noutros, pode coexistir com ansiedade, apneia do sono ou outros problemas que merecem avaliação.
Termos-chave que moldam o debate
Dois termos aparecem com frequência nestes estudos e merecem ser clarificados.
Cronótipo é o padrão individual de ser mais cedo ou mais tarde, influenciado por genes, idade e ambiente.
Desfasamento circadiano descreve a situação em que o relógio interno e a rotina diária real não coincidem. Este desfasamento pode ocorrer em trabalhadores por turnos, em pessoas que viajam frequentemente e em muitas corujas noturnas obrigadas a horários precoces.
Em conjunto, estes factores ajudam a explicar porque é que o mesmo número de horas na cama pode ter efeitos diferentes em duas pessoas com ritmos distintos.
Cenários da vida real: quem está mais em risco?
Imagine dois trabalhadores de escritório de 40 anos. Ambos dormem cerca de seis horas por noite.
O primeiro é um tipo naturalmente matinal, adormece às 22h30, acorda às 4h45, vai a pé para o trabalho e toma o pequeno-almoço cedo.
O segundo é uma coruja noturna que não consegue adormecer antes da 1h30, mas continua a precisar de se levantar às 6h00. Muitas vezes salta o pequeno-almoço, sente-se esgotado de manhã e come em excesso ao fim da noite.
Mesmo com a mesma duração de sono, a segunda pessoa apresenta um risco previsto mais elevado de problemas cardiometabólicos devido ao sono cronicamente curto, ao desfasamento e às refeições tardias.
A combinação de ser coruja noturna, dormir pouco e viver com um horário precoce é o cenário em que o risco para a saúde sobe com mais força.
Por outro lado, um trabalhador independente que seja coruja noturna, mas durma regularmente das 1h00 às 9h00, consuma a maior parte das calorias mais cedo no dia e faça exercício à tarde, pode não apresentar um risco muito superior ao de uma cotovia com hábitos semelhantes.
O que isto significa para as escolhas do dia a dia
Para quem sente que vive preso a um horário que entra em conflito com o relógio biológico, pequenas alterações na forma como organiza o tempo podem trazer benefícios relevantes, mesmo sem acrescentar de imediato mais horas de sono.
Antecipar a última refeição mais pesada para o início da noite, procurar uma hora fixa para acordar todos os dias e apanhar luz natural intensa de manhã são bons pontos de partida. Estas mudanças ajudam a reduzir a distância entre os riscos das cotovias e das corujas, mesmo que o cronótipo de base se mantenha.
No dia a dia em Portugal, onde jantares tardios e rotinas alongadas ao fim-de-semana são frequentes, ajustar apenas 30 a 60 minutos pode já fazer diferença. O objectivo não é mudar quem a pessoa é, mas aproximar a rotina do que o corpo consegue tolerar melhor.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário