Os olhos da enfermeira sobem do ecrã para o homem sentado à sua frente. Tem cerca de 50 e muitos anos, os dedos amarelados pelo tabaco e uma tosse que soa a gravilha. O médico já disse que precisa de cirurgia às artérias entupidas - o tipo de operação que custa dezenas de milhares ao sistema público. No formulário, uma pergunta em negrito destaca-se: «Fuma?» Ele hesita, comprime os lábios e acena que sim. A enfermeira limita-se a suspirar; não está a julgar, está apenas cansada. Lá fora, a sala de espera está cheia: uma mulher grávida a segurar a barriga, um adolescente com o pulso partido, um pensionista ligado ao oxigénio.
No meio desse cenário está a pergunta discreta e desconfortável que quase ninguém quer dizer em voz alta.
As pessoas que escolhem fumar devem ser impedidas de receber certos tratamentos de saúde pública?
Quando o cigarro encontra uma cama hospitalar financiada pelos impostos
Passe por qualquer hospital público às 3 da manhã e verá a mesma imagem. Profissionais a fazer uma pausa rápida, rostos exaustos iluminados pela brasa alaranjada de um cigarro. Um doente de bata, a empurrar o suporte do soro, a esconder alguns tragos junto à zona das ambulâncias. O tabaco está entranhado no quotidiano dos cuidados de saúde, mesmo quando os serviços lutam por camas e os orçamentos estão no limite.
Ao mesmo tempo, políticos e comentadores têm lançado uma ideia que soa brutal: excluir fumadores de certos tratamentos caros. Bypass cardíacos. Transplantes de órgãos. Talvez até terapias avançadas contra o cancro.
Em teoria, o argumento parece simples. Na prática, é bem mais confuso.
Veja-se o Reino Unido, onde algumas autoridades de saúde locais já ponderaram adiar ou restringir operações a fumadores. Numa região, foi dito a doentes com obesidade e a fumadores que teriam de perder peso ou deixar de fumar antes de uma cirurgia de rotina. Em partes da Austrália, as discussões sobre transplantes de fígado para consumidores intensivos de álcool e tabaco reaparecem regularmente.
Em surdina, alguns médicos admitem que, quando dois doentes têm condições semelhantes, acabam muitas vezes por colocar os não fumadores mais acima nas listas de espera para transplante. Do ponto de vista estatístico, o não fumador tem maior probabilidade de viver mais tempo e com melhor qualidade. Dinheiro público, órgãos disponíveis, responsabilidade pública.
Mas basta passar uma tarde numa clínica para essas estatísticas deixarem de parecer linhas organizadas numa folha de cálculo e passarem a ser pessoas reais, com vidas desarrumadas.
Quem defende uma proibição apoia-se em números duros. O tabaco esgota milhares de milhões dos orçamentos públicos de saúde todos os anos através de doenças pulmonares crónicas, problemas cardíacos, AVC e cancros. As cirurgias em fumadores tendem a ter mais complicações, recuperações mais longas e mais idas de volta ao hospital. Esses dias extra numa cama bloqueiam o acesso de outra pessoa a cuidados rápidos.
Do outro lado está uma verdade diferente: quando se começa a racionar com base em «escolhas de estilo de vida», onde é que se para? Negamos uma cirurgia ao joelho a futebolistas amadores que rompem ligamentos por prazer? Recusamos fertilização in vitro a pessoas que começaram a tentar «tarde demais»?
Se formos honestos, ninguém vive uma vida perfeitamente saudável e racional que nunca custe dinheiro ao sistema.
Fumadores, cirurgia e o SNS: onde traçar a linha?
Se existe um caminho intermédio, ele começa provavelmente antes da sala de operações. Alguns hospitais já exigem que os fumadores participem em programas para deixar de fumar antes de uma cirurgia maior - não como castigo, mas como preparação. Deixar de fumar quatro a seis semanas antes de uma operação pode reduzir de forma significativa o risco de complicações, infeções e cicatrização lenta.
A abordagem prática parece-se com isto: o tratamento mantém-se disponível, mas vem acompanhado de condições que aumentam de forma direta a probabilidade de sucesso. Terapêutica de substituição nicotínica, aconselhamento, contactos de acompanhamento. Um calendário na porta do frigorífico, com cada dia sem tabaco a representar mais um passo silencioso em direção a uma anestesia mais segura.
O sistema investe um pouco no início para que o procedimento grande e caro tenha mais hipóteses de resultar.
Há ainda um papel decisivo para os cuidados de saúde primários, as farmácias e as linhas de apoio. Quando o doente sai com um plano claro - medicação para controlar a vontade de fumar, consultas já marcadas e orientação para os dias mais difíceis - a probabilidade de cumprir o objetivo aumenta de forma concreta.
Também conta muito a forma como a mensagem é transmitida. Explicar riscos, prazos e alternativas com clareza, sem humilhação e sem linguagem punitiva, costuma funcionar melhor do que ameaçar com a perda de cuidados. Em saúde, a cooperação tende a produzir mais resultados do que a vergonha.
É aqui que o debate se torna cruel: esquece-se porque é que tanta gente fuma em primeiro lugar. Turnos longos. Ansiedade. Desemprego. Trauma que nunca foi tratado. O tabaco aparece com mais frequência em bairros mais pobres, em empregos que não oferecem terapia, ginásio ou comida fresca e acessível.
Por isso, quando alguém diz: «Os fumadores devem pagar o seu próprio tratamento», o que muitas vezes está realmente a dizer é: «As pessoas com rendimentos mais baixos devem sair discretamente do início da fila.» É um eco duro, mesmo quando não é essa a intenção.
Todos conhecemos esse momento em que sabemos que um hábito nos está a fazer mal e, ainda assim, voltamos a ele porque a alternativa é enfrentar algo mais pesado do que a nicotina.
Os bioeticistas alertam para o perigo de transformar a medicina num sistema de prémios para «bons comportamentos». O dever de cuidar, dizem, não pode depender de condições morais. Um condutor embriagado continua a receber cirurgia de urgência depois de um acidente. Um alpinista que ignorou o tempo continua a ser resgatado da montanha.
«Quando começamos a medir vidas pela virtude, deixamos de fazer medicina e passamos a fazer julgamento», disse-me uma cirurgiã de um hospital público, com a condição de não usar o nome dela.
Ao mesmo tempo, ela tem na secretária um quadro branco com uma lista curta para os seus doentes fumadores:
- Deixe de fumar pelo menos 4 semanas antes da cirurgia - a cicatrização melhora muito.
- Seja totalmente sincero sobre o seu hábito - fumar em segredo pode comprometer o plano anestésico.
- Pergunte que apoio é gratuito na sua área - muitos programas são financiados de forma discreta.
- Traga alguém que o acompanhe - uma pessoa que ajude a ultrapassar a vontade de fumar depois da operação.
É aqui que o debate aterrissa quando se retiram os slogans: menos culpa, mais condições que salvam vidas de forma clara.
Que tipo de sistema público de saúde queremos realmente?
A ideia de impedir fumadores de aceder a alguns tratamentos obriga-nos a olhar de frente para uma verdade desconfortável. O sistema público de saúde está sempre a racionar, mesmo quando ninguém usa essa palavra em voz alta. Só existem tantas camas, tantos cirurgiões, tantas TAC que podem ser feitas num dia. À porta fechada, fazem-se escolhas: quem tem prioridade, quem espera, quem fica de fora.
Basear essas decisões apenas no comportamento passado parece brutalmente simples, quase sedutor na sua dureza. Mas um hospital financiado pelos impostos é um dos últimos lugares onde as pessoas devem ser tratadas como mais do que a soma dos seus erros. Isso não significa que valha tudo. Significa que os critérios devem ser transparentes, clínicos e ligados aos resultados, e não a juízos morais.
Talvez a pergunta verdadeira não seja «Os fumadores devem ser banidos?», mas antes: «Em que condições justas e transparentes deve qualquer pessoa receber cuidados raros e caros?» As respostas a essa pergunta são mais difíceis, mais lentas e menos agradáveis para títulos indignados. Mas são essas respostas que acabam por decidir o que nos acontece no dia em que entramos naquela sala de espera com a nossa história, os nossos hábitos e a nossa esperança numa segunda oportunidade.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Condições baseadas em resultados | Associar o acesso a tratamentos caros a passos comprovados, como deixar de fumar antes da cirurgia | Mostra como a política pode aumentar as hipóteses de sucesso sem recorrer a proibições absolutas |
| Contexto social do tabaco | O tabaco está fortemente concentrado em grupos com mais stress e rendimentos mais baixos | Ajuda o leitor a perceber o lado da justiça social e da desigualdade neste debate |
| Limites éticos | Os hospitais correm o risco de se tornarem tribunais morais se os cuidados forem ligados à “virtude” | Leva o leitor a refletir sobre o tipo de sistema de saúde que quer apoiar |
Perguntas frequentes
Os hospitais públicos podem legalmente recusar tratamento a fumadores?
Na maioria dos países, os cuidados de urgência não podem ser recusados, mas tratamentos não urgentes ou de elevado custo podem ser adiados ou condicionados a critérios clínicos, como deixar de fumar antes de uma cirurgia.Os fumadores custam mesmo muito mais ao sistema de saúde?
Sim. O tabaco está associado a taxas mais elevadas de doença cardíaca, cancro e problemas pulmonares crónicos, o que se traduz em custos de saúde vitalícios significativamente mais altos para os sistemas públicos.Proibir fumadores de aceder a alguns tratamentos é eficaz?
A evidência sugere que proibições rígidas criam desigualdade e desconfiança, enquanto programas que apoiam a cessação antes do tratamento produzem melhores resultados sem excluir pessoas.Os médicos já dão prioridade aos não fumadores na prática?
Em alguns procedimentos, sobretudo transplantes, fatores de estilo de vida como o tabaco podem influenciar a prioridade, porque afetam as hipóteses de sobrevivência, mesmo quando não existe uma «proibição» formal.Qual poderia ser um compromisso justo?
Uma abordagem equilibrada é manter os tratamentos disponíveis, mas exigir esforços de cessação limitados no tempo e com apoio, quando isso melhora de forma clara as probabilidades de sucesso e reduz os riscos.
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