Uma mulher num café fixa, meio envergonhada, a chávena à sua frente enquanto a amiga lhe diz: “Estás mesmo muito bem hoje.” Há um sorriso rápido e, logo a seguir, vem a resposta clássica: “Oh, não digas isso… hoje só não pareço tão cansada como de costume.” A amiga ri, muda de assunto. E tu sentes: qualquer coisa acabou de ficar fora do sítio.
Quase toda a gente conhece este tipo de momento - aquele em que um elogio fica suspenso no ar, como um balão que ninguém quer tocar. Há pessoas que se iluminam quando são elogiadas. Outras encolhem-se, desvalorizam, fazem uma piada. E há quem só ouça o “mas…” que nem sequer foi dito.
O que muita gente não percebe é que, nesse instante minúsculo em que alguém diz “Que camisa tão bonita!” e tu respondes, a tua autoimagem fica ali, exposta em cima da mesa. Por um segundo apenas. Mas com uma nitidez impressionante.
Como afastas os elogios - e o que isso revela mesmo sobre a tua autoimagem
Quando alguém te diz algo positivo, cá dentro costuma arrancar um programa antigo e bem treinado. Sai um “Não é nada”, ou “Foi só a luz”, ou então mudas imediatamente de tema, como se o elogio fosse uma batata quente. Já quem tem uma autoimagem mais estável tende a parecer muito mais tranquilo: acena, diz “Obrigado”, respira - e deixa o momento existir, sem o apagar.
Este pequeno vai-e-vem diz muito sobre a tua familiaridade com o reconhecimento. Não no sentido de “sou elogiado o tempo todo”, mas no sentido de “eu acredito que sou alguém que pode aceitar elogios”. Quem, lá no fundo, carrega a ideia de que “não chega”, sente-se mais apanhado do que honrado quando recebe um elogio - quase como se alguém tivesse descoberto um segredo: o de que a pessoa não se vê assim.
Em muitas conversas, ouço relatos exactamente deste género. Uma gestora de marketing a quem chamam “demasiado simpática” ri-se e acrescenta: “Sim, e ainda por cima ingénua.” Um professor jovem, elogiado depois de uma aula que correu bem, enumera imediatamente cinco coisas que “ainda correram mal”. Parece um reflexo: assim que aparece a valorização, o centro de controlo interno grita “Alerta, nós não correspondemos a essa imagem!” - e o conflito começa.
O modo como lidas com elogios mostra muito mais aquilo em que tu próprio acreditas sobre ti - não aquilo que tentas encenar para os outros.
Do ponto de vista psicológico, um elogio toca no teu autoconceito: a imagem interna que foste construindo sobre quem és. E essa imagem é surpreendentemente resistente. Se, por dentro, te classificas como “mediano”, “complicado” ou “não suficientemente bonito”, o feedback positivo bate primeiro nessa parede. Não encaixa no sistema. O cérebro procura consistência. Quando o elogio não combina com o teu autoconceito, em vez de soar a presente, pode soar a interferência.
Sejamos honestos: quase ninguém passa as manhãs em frente ao espelho a repetir afirmações em modo automático. A maioria arrasta frases antigas - de infância, da escola, da primeira relação. “Não és lá grande coisa.” “Não sejas convencido.” “Faz-te à vida.” Quando estas frases ficam bem cravadas, cada elogio é comparado com elas sem darmos por isso. E, muitas vezes, o elogio perde.
Um detalhe que hoje pesa ainda mais: no digital, os elogios chegam em formatos diferentes e, por isso, podem disparar defesas diferentes. Um “Parabéns, estiveste impecável” por mensagem ou no Slack pode ser mais fácil de aceitar do que dito cara a cara - precisamente porque há menos exposição. Por outro lado, elogios públicos (num comentário, numa reunião, no LinkedIn) podem provocar vergonha, vontade de minimizar e a urgência de “equilibrar” com autodepreciação.
Do desvalorizar ao aceitar: como treinar a tua autoimagem e o teu reflexo aos elogios no dia a dia
Um início simples e surpreendentemente eficaz é este: sempre que receberes um elogio, segura-te por dois segundos por dentro. Sem piadas, sem justificações - só pausa. Respira. E responde com uma única palavra: “Obrigado.” Sem explicar, sem relativizar, sem disparar logo um “Tu também!”. Deixa um pouco de silêncio a seguir. Ao início, parece estranho, quase como estar demasiado exposto. É precisamente nessa sensação que algo começa a mudar: o teu sistema aprende que o reconhecimento não tem de ser neutralizado de imediato.
Depois, ao fim do dia, podes fazer um registo de elogios (um “protocolo de elogios”). Aponta três situações em que alguém te disse ou mostrou algo positivo - mesmo que indirectamente, por um olhar, um gesto, uma atenção. E acrescenta, em cada uma: como reagi? Afastei? Relativizei? Diminuí? Este ritual demora cinco minutos, mas revela padrões que durante o dia passam depressa demais. Ao escrever, vês com clareza onde a tua autoimagem entra mais em choque com a realidade.
O ponto central é este: não precisas de começar a acreditar em todos os elogios de forma acrítica. Basta olhá-los como uma fonte de informação. As pessoas reflectem-te como te percebem. Nem sempre com precisão, por vezes com filtros, outras vezes com interesses - mas muitas vezes com um núcleo verdadeiro. E se, ao longo de semanas, se repetem feedbacks semelhantes (“pareces seguro”, “és empático”, “trazes calma”), vale a pena abanar a imagem que tens guardada sobre ti.
O erro mais comum neste tema é pensar que é obrigatório “achares-te incrível” para mereceres aceitar elogios. Essa exigência bloqueia tudo. Podes aceitar um elogio mesmo que ainda não consigas vê-lo em ti. Podes dizer, com honestidade: “Obrigado, ainda estou a aprender a ver-me assim.” É vulnerável, directo e, para muita gente, bastante libertador.
Também existe o lado oposto: pessoas que recolhem cada elogio com avidez, mas não guardam nada por dentro - como um coador. Por fora parecem confiantes, publicam o elogio nas histórias, procuram constantemente validação. Por dentro, há uma autoimagem que não acredita em quase nada do que recebe. Com o tempo, isso cansa, porque precisas de cada vez mais confirmação só para ter um instante de descanso.
Muitos de nós fomos educados a desviar elogios para “não ficarmos convencidos”. Quem cresceu a ouvir “não digas obrigado, não é preciso” aprendeu a tratar o reconhecimento como algo óbvio - ou suspeito. Daí nasce um paradoxo: queremos ser vistos, mas quase não suportamos quando isso acontece. Uma saída suave é não lutar, mas observar: “Ok, cá está outra vez o meu reflexo de me diminuir.” Só esta consciência já cria alguma distância.
E há ainda um aspecto que ajuda muito e raramente é dito: aprender a dar elogios de forma clara e específica melhora também a forma como os recebes. Um elogio vago (“és óptimo”) é fácil de rejeitar; um elogio concreto (“gostei de como conduziste a reunião: resumiste bem e deste espaço aos outros”) entra com menos resistência, porque se liga a factos. Ao praticares isto com os outros, o teu cérebro vai ficando mais disponível para reconhecer factos semelhantes sobre ti.
Uma terapeuta disse-me uma vez: “Mostra-me como alguém reage a um elogio honesto - e eu consigo dizer-te muito sobre a história dessa pessoa.”
Se queres lidar com elogios de forma mais consciente, ajuda ter uma checklist curta e brutalmente honesta:
- Com que frequência desvio um elogio com humor ou autoironia?
- Há áreas específicas (aparência, desempenho, carácter) em que o elogio me activa mais?
- De quem consigo aceitar elogios - e de quem tudo me parece imediatamente suspeito?
- Que frases antigas do meu passado aparecem quando alguém me elogia a sério?
- Que elogio dos últimos meses me tocou mesmo - e porquê aquele, em particular?
O que o teu reflexo aos elogios diz sobre ti - e o que podes fazer com isso
No fundo, isto não é uma questão de boas maneiras; é uma questão de proximidade contigo próprio. A forma como lidas com elogios mostra como falas contigo quando ninguém está a ouvir. Se desconfias de ti. Se te vendes por baixo do teu valor sem te aperceberes. Ou se estás, lentamente, a aprender a ver-te como alguém com luz e sombra - e, ainda assim, digno de afecto. Aceitar um elogio não é prova de vaidade; muitas vezes é um acto silencioso de auto-respeito.
Talvez, enquanto lês, encontres traços teus em algumas cenas: no desviar, nas piadas, no “não foi assim tão bom”. Isso não é um defeito; é uma pista. Um convite para não tratares a tua autoimagem como uma verdade fixa, mas como uma narrativa antiga que pode ser reescrita. Não num drama grande - mas em micro-momentos: um “Obrigado” dito com presença. Um “Talvez uma parte disto seja verdade.” Um deixar o elogio ecoar mais dois segundos.
Se te apetecer, podes até fazer um pequeno exercício com amigos ou colegas: durante uma semana, façam elogios de forma consciente - e aceitem-nos. Sem cinismo, sem trocas imediatas. Observa como a atmosfera muda quando a valorização deixa de ser descartada e passa a ser suportada por instantes. Muitas vezes, o ambiente fica mais calmo, mais quente, mais verdadeiro. E, por vezes, só aí percebes o quanto a tua autoimagem está atrás da forma como os outros já te vêem.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Reacção aos elogios como espelho | Afastar, relativizar ou aceitar revela crenças inconscientes sobre o próprio valor | Ajuda a identificar padrões escondidos na autoimagem no quotidiano |
| Pequenos exercícios diários | Pausa breve, dizer apenas “Obrigado”, registo de elogios à noite | Ferramentas práticas para ajustar, com suavidade, a relação com o reconhecimento |
| Reflexão em vez de auto-optimização | Tratar elogios como dados, não como teste de auto-estima | Reduz pressão e promove um olhar mais realista e mais amável sobre si |
Perguntas frequentes
Porque é que me sinto tão desconfortável com elogios?
Muitas vezes, eles chocam com uma autoimagem menos simpática. Se te vês como “não suficiente”, o elogio parece uma contradição e cria tensão em vez de alegria.Devo aceitar elogios mesmo quando não acredito neles?
Sim. Podes tratá-los como uma observação: “É assim que me estás a ver.” Não tens de sentir já como verdade para os receberes com respeito.É arrogante aceitar elogios sem mais?
Não. A arrogância aparece mais quando te colocas acima dos outros. Um “Obrigado” simples costuma indicar tranquilidade interior, não superioridade.Como posso aprender a acreditar nos elogios sobre mim?
Ajuda recolher feedbacks que se repetem e ligá-los a situações concretas: quando é que eu, de facto, agi como foi descrito?E se os elogios parecerem manipuladores?
O teu instinto conta. Podes distinguir entre valorização honesta e bajulação com segundas intenções - e só deixar a primeira aproximar-se de ti.
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