Em plena Casa Branca, Donald Trump apareceu ladeado por aliados para celebrar uma decisão que pode redesenhar a política climática dos Estados Unidos durante uma geração.
O presidente apresentou a iniciativa como uma vitória sobre uma agenda ambiental que classificou de “radical”, apesar de cientistas, democratas e organizações de defesa do ambiente avisarem que o impacto ultrapassará em muito o palco partidário de Washington.
O que é, afinal, a constatação de perigo (e porque a EPA é central)
A expressão constatação de perigo pode soar burocrática, mas a lógica é direta: em 2009, o Governo dos EUA reconheceu formalmente que gases com efeito de estufa - como o dióxido de carbono e o metano - colocam em risco a saúde pública e o bem-estar.
A partir desse momento, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) passou a ter obrigação legal de regular esses gases ao abrigo das leis existentes sobre poluição atmosférica. Foi isso que permitiu construir regras climáticas para automóveis, centrais elétricas e outros setores sem depender de novas leis aprovadas pelo Congresso.
Revogar essa constatação não apaga automaticamente todas as normas em vigor, mas remove o “gatilho” jurídico que sustentava a obrigação de agir. Com isso, cada regulamento passa a poder ser contestado com o argumento de que deixou de existir uma base legal que imponha o controlo de gases com efeito de estufa.
| Antes da revogação | Depois da revogação |
|---|---|
| A EPA tinha de tratar os gases com efeito de estufa como poluição perigosa. | A EPA pode defender que, juridicamente, esses gases já não “põem em perigo”. |
| Existia uma base clara para regras climáticas nacionais. | Novas regras podem enfrentar contestações judiciais mais profundas. |
| Os governos podiam endurecer ou aliviar normas sobre um alicerce comum. | O próprio alicerce fica em disputa, não apenas os detalhes das regras. |
O maior recuo climático de Trump até agora
Trump anunciou que a sua administração vai revogar a constatação de perigo de 2009 - a determinação científica e legal que concluiu que a poluição por gases com efeito de estufa prejudica a saúde pública e o ambiente.
Durante quase 17 anos, essa peça serviu de suporte a regras climáticas dos EUA para automóveis, produção de eletricidade e indústria pesada. Na prática, funcionou como o motor jurídico de tentativas para reduzir emissões de carbono nos setores mais responsáveis pelo aquecimento do planeta.
A constatação de perigo foi a pedra basilar da política climática federal; ao removê-la, atinge-se o alicerce - não apenas as “paredes”.
Num discurso de tom eleitoral, Trump descreveu a medida como um golpe contra aquilo a que chamou a “fraude do Novo Acordo Verde” dos democratas e insistiu que está a proteger a economia de uma “regulação excessiva”. A Casa Branca, por seu lado, tratou a mudança como um dos atos mais marcantes do seu segundo mandato.
Um pêndulo climático que passa a oscilar ainda mais
A política climática norte-americana tem oscilado com cada alternância no poder, mas este passo empurra a oscilação para um nível mais extremo do que o visto até agora.
No primeiro mandato, Trump retirou os EUA do Acordo de Paris e eliminou dezenas de normas ambientais. Joe Biden inverteu o rumo: voltou a aderir a Paris, recuperou várias proteções e lançou incentivos de grande escala para energia limpa.
Agora, Trump não só voltou a sair do Acordo de Paris, como também mirou a arquitetura legal que permitiria a futuros presidentes regular emissões.
Em vez de reescrever regras específicas, a administração foi à raiz legal que permitia que essas regras existissem.
Especialistas em direito do ambiente alertam que a revogação da constatação de perigo pode enfraquecer padrões já existentes para emissões de veículos e para a poluição do setor elétrico, tornando muito mais difícil criar novas proteções climáticas sem reiniciar do zero processos científicos e administrativos prolongados.
Política primeiro, ciência depois
Trump tem um historial de desvalorização da ciência do clima, tendo já descrito o aquecimento global como um “embuste” e uma “fraude”. No evento na Casa Branca, voltou a rejeitar a investigação que sustenta a decisão de 2009, preferindo centrar-se em custos imediatos e em ganhos políticos.
Ao seu lado, o administrador da EPA, Lee Zeldin, apelidou a constatação científica de “santo graal da religião das alterações climáticas” e afirmou que a sua eliminação seria “o maior ato de desregulação na história dos Estados Unidos da América”.
Esse enquadramento encaixa numa narrativa republicana consolidada: regras ambientais são apresentadas como burocracia que sufoca o crescimento, enquanto defensores do clima são retratados como ideólogos - e não como cientistas ou economistas.
O que a administração diz que vai conseguir com a revogação da constatação de perigo
Trump garantiu que eliminar a constatação de perigo vai aumentar a produção de combustíveis fósseis, baixar os preços da energia e reforçar a competitividade industrial. Destacou o setor automóvel, prometendo carros mais baratos e menos limitações sobre modelos a gasolina e gasóleo.
O presidente afirmou que os norte-americanos iriam “poupar milhares” na compra de automóveis novos quando caírem as exigências baseadas no clima.
Também atacou o que chamou de “obrigação de veículos elétricos” associada às políticas de Biden. Na prática, o programa de Biden assentava em benefícios fiscais e numa rede nacional de carregamento, não em impor compras aos consumidores. Ainda assim, essa nuance dificilmente terá espaço em comícios.
- Produtores de combustíveis fósseis ganham mais margem para ajustar emissões e planos de investimento.
- Fabricantes de automóveis ficam sob menor pressão para acelerar modelos elétricos e ganhos de eficiência.
- Estados e cidades podem sentir-se forçados a compensar o vazio com regras próprias.
- Disputas judiciais sobre o dever do Estado em regular a poluição tendem a intensificar-se.
Democratas e organizações climáticas: reação furiosa
Organizações ambientalistas e dirigentes democratas responderam com indignação, defendendo que o recuo aumentará a poluição, agravará impactos climáticos e prejudicará a saúde pública.
Barack Obama - durante cujo mandato foi emitida a constatação de perigo - afirmou que os EUA ficarão “menos seguros, menos saudáveis e menos capazes de combater as alterações climáticas - tudo para que a indústria dos combustíveis fósseis ganhe ainda mais dinheiro”.
Campanhas ambientais sustentam que retirar a base legal da regulação envia um sinal forte à indústria: emitir mais agora e preocupar-se menos com penalizações futuras. Alertam ainda que a decisão pode travar inovação ao voltar a favorecer tecnologias mais antigas e poluentes.
Para os críticos, não se trata apenas de desregulação, mas de um convite para adiar a limpeza enquanto a política o permitir.
Ondas de calor, incêndios e cheias como pano de fundo
O calendário do anúncio é politicamente relevante. Cientistas têm documentado como as alterações climáticas intensificam ondas de calor, secas, incêndios florestais e inundações nos EUA e fora deles.
De temperaturas estivais recorde no Sul e no Oeste, ao fumo de incêndios que recentemente tingiu de laranja os céus da Costa Leste, o tempo extremo deixou de ser um debate abstrato. O setor segurador dá sinais de instabilidade em zonas propensas a cheias e a fogos, e a agricultura enfrenta épocas de cultivo cada vez mais imprevisíveis.
Esse retrato contrasta com a mensagem da Casa Branca, centrada sobretudo no preço dos combustíveis e no custo dos automóveis, e não em subidas do nível do mar ou na redução da neve acumulada.
Uma aposta eleitoral nas intercalares e no “cansaço verde”
A medida funciona também como arma de campanha para as eleições intercalares de novembro, em que está em jogo o controlo do Congresso. Trump e os republicanos apostam que atacar o que chamam de “excesso climático” vai mobilizar a sua base e conquistar eleitores receosos de mudanças económicas rápidas.
Defendem que a agenda climática democrata é desligada da realidade, demasiado agressiva e dispendiosa. O rótulo Novo Acordo Verde, que já serviu para mobilizar progressistas, tornou-se um alvo recorrente em comícios conservadores.
Ainda assim, as sondagens nacionais sugerem um cenário mais complexo. Inquéritos de instituições como a Yale e a Gallup indicam um aumento sustentado da preocupação com o aquecimento global. Quase dois terços dos norte-americanos dizem estar preocupados, e perto de metade considera que enfrentará uma ameaça séria durante a sua vida.
A opinião pública deslocou-se para maior preocupação climática, mesmo com a política em Washington a tornar-se mais dura e polarizada.
Essa distância entre discurso e inquietação pode ser decisiva: jovens eleitores, muitos suburbanos e independentes tendem a dar mais prioridade ao clima do que a base de Trump - e são eles que podem decidir círculos eleitorais disputados.
O que pode acontecer a seguir
Quase de certeza, a decisão acabará em tribunal. Estados governados por democratas, organizações ambientais e possivelmente entidades de saúde deverão contestar a revogação, argumentando que a base científica ficou ainda mais robusta desde 2009.
Se os juízes derem razão à administração, futuros presidentes poderão ser obrigados a refazer todo o processo científico e administrativo para repor uma constatação de perigo - algo que pode levar anos. Entretanto, as emissões continuariam a acumular-se na atmosfera.
É provável que estados como a Califórnia, Nova Iorque e Massachusetts respondam com regras mais exigentes para automóveis, edifícios e eletricidade. O resultado pode ser um mosaico regulatório: empresas sujeitas a orientações rigorosas nuns locais e muito mais leves noutros.
A batalha judicial decidirá não apenas o que esta administração pode fazer, mas quanta margem qualquer futuro presidente terá para agir no clima.
Parágrafo adicional (contexto relacionado): Para empresas e investidores, a instabilidade regulatória cria um problema prático: projetos energéticos e industriais são planeados para décadas. Quando a regra do jogo muda radicalmente de quatro em quatro anos, aumenta o risco, encarece o financiamento e incentiva decisões defensivas - seja adiar investimentos limpos, seja concentrar-se em ativos que aparentem ser politicamente “mais seguros” no curto prazo, mesmo que sejam mais poluentes.
Como isto chega ao quotidiano das pessoas
Para muitos norte-americanos, a regulação de gases com efeito de estufa parece distante, mas as consequências aparecem nas rotinas.
Normas de eficiência automóvel influenciam quantas vezes se vai à bomba. Regras para centrais elétricas afetam se a eletricidade vem de gás, carvão, eólica ou solar. E fenómenos extremos impulsionados pelo clima mexem com tudo, desde o prémio do seguro da casa ao preço dos alimentos.
Os recuos raramente se sentem de um dia para o outro. A degradação do ar é gradual. O risco de cheias sobe pouco a pouco. As ondas de calor parecem ligeiramente piores a cada década. Esse atraso entre decisão e impacto torna a política climática especialmente vulnerável a incentivos de curto prazo.
Parágrafo adicional (contexto relacionado): Há ainda um efeito menos visível: a saúde pública. Mesmo quando o debate se foca no dióxido de carbono, mudanças no mix energético e no controlo de emissões costumam arrastar co-benefícios (ou prejuízos) em poluentes associados, como partículas finas e ozono ao nível do solo, com impactos em internamentos, absentismo laboral e qualidade de vida - custos que acabam por ser pagos pelas famílias e pelos sistemas de saúde.
Conceitos-chave que ajudam a perceber a disputa
Dois termos discretos sustentam grande parte desta discussão: externalidades e bloqueio.
Externalidades são custos escondidos de uma atividade económica que o mercado não reflete - por exemplo, despesas hospitalares ligadas à poluição do ar ou danos em habitações devido à subida do nível do mar.
Quando a regulação enfraquece, quem polui tende a pagar menos e, muitas vezes, o consumidor também paga menos de imediato. Porém, a sociedade absorve uma parcela maior dos custos invisíveis através de problemas de saúde, danos em infraestruturas e perturbações associadas ao clima.
Já o bloqueio descreve como as escolhas de hoje condicionam as opções de amanhã. Aprovar nova infraestrutura fóssil ou produzir automóveis com elevado consumo tende a perpetuar esses padrões durante décadas. Ao retirar a constatação de perigo, o sinal para o investimento inclina-se para sistemas energéticos mais antigos precisamente quando alternativas mais limpas estão a ganhar escala.
Na prática, os EUA estão a fazer uma aposta de longo prazo: aceitar energia fóssil mais barata no presente em troca de riscos climáticos e sanitários mais elevados no futuro. A fatura total não chegará dentro de um único mandato, mas ao longo da vida de quem assistiu a esta volta de honra a partir da sala de estar.
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