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Ninguém percebeu, mas a França superou discretamente o Reino Unido num recorde marítimo de 305 anos.

Homem a analisar mapas náuticos num barco enquanto um submersível remoto navega no mar.

A maioria das pessoas consegue enumerar as grandes marinhas do planeta; muito menos gente sabe nomear os serviços que tornam a navegação realmente possível. Em França, porém, um organismo discreto tem feito exactamente esse trabalho há mais de três séculos - e conserva um recorde que o Reino Unido nunca chegou a deter.

Um recorde com 305 anos de que quase ninguém fala

O Service hydrographique et océanographique de la Marine, mais conhecido por SHOM, está longe de ser um nome popular, mesmo dentro de França. Ainda assim, no meio marítimo é uma referência incontornável. Criado em 1720 com a designação “Dépôt des cartes et plans de la Marine”, manteve actividade sem interrupções desde então.

O SHOM é o serviço hidrográfico oficial mais antigo do mundo ainda em funcionamento - fundado 75 anos antes do Serviço Hidrográfico do Reino Unido (UKHO).

Esta continuidade dá a França um feito que muitos presumem pertencer ao Reino Unido, cuja Royal Navy dominou os mares nos séculos XVIII e XIX. A realidade é menos intuitiva: o Estado francês estruturou primeiro um serviço hidrográfico permanente e, ao contrário de outros países, não o encerrou nem o reconstruiu do zero.

Actualmente, o SHOM está sob tutela do Ministério das Forças Armadas francês. Produz a informação geográfica marítima de referência usada pela navegação civil, por marinhas, por indústrias a operar ao largo e por autoridades costeiras. De cartas em papel a grelhas digitais de batimetria, praticamente todas as entradas seguras em portos franceses dependem, de forma directa ou indirecta, do seu trabalho.

Porque é que uma decisão de 1720 continua a contar em 2026

A França controla uma área marítima gigantesca: mais de 11 milhões de quilómetros quadrados de zonas económicas exclusivas (ZEE), graças aos seus territórios ultramarinos nos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico. Em extensão de mar sob jurisdição, isto coloca-a entre as maiores potências marítimas do mundo, apenas atrás dos Estados Unidos.

Para responder a esta escala, a missão do SHOM assenta em três pilares centrais:

  • Hidrografia para a navegação: levantamento de fundos marinhos, medição de profundidades, identificação de rochedos, destroços e baixos-fundos que colocam embarcações em risco.
  • Apoio à defesa: fornecimento de dados para submarinos, guerra de minas, operações anfíbias e sistemas navais avançados.
  • Apoio à política pública: disponibilização de informação para gestão costeira, planeamento do risco de inundação, vigilância da erosão e adaptação às alterações climáticas.

É aqui que os 305 anos pesam verdadeiramente. Arquivos consistentes de marés, linhas de costa e medições de profundidade permitem a cientistas e decisores comparar séculos de observações. Esta “linha de base” longa ajuda a acompanhar a subida do nível do mar ou o recuo costeiro com uma precisão que poucos países conseguem igualar.

Além disso, a padronização é parte do poder silencioso destes serviços. Ao alinhar cartas e publicações com normas hidrográficas internacionais e com a navegação electrónica moderna (cartografia náutica digital), o SHOM garante que os mesmos dados podem ser usados com segurança em sistemas de bordo, em planeamento portuário e em operações de emergência.

França vs Reino Unido vs Estados Unidos: quem cartografou primeiro os mares?

Os serviços hidrográficos tendem a ficar escondidos atrás das marcas nacionais das marinhas, mas as datas de criação contam, por si só, uma história geopolítica.

País Serviço hidrográfico Ano de criação Continuidade Papel histórico
França SHOM 1720 Ininterrupta Serviço hidrográfico oficial mais antigo ainda activo
Reino Unido UK Hydrographic Office (UKHO) 1795 Sim Pilar da expansão naval britânica
Estados Unidos NOAA / Gabinete de Levantamento Costeiro 1807 Sim Forte orientação científica e civil
Rússia Serviço Hidrográfico da Marinha Russa 1827 Sim Ligado à expansão imperial
Espanha Servicio Hidrográfico de la Armada 1788 Sim Herança da frota imperial espanhola
Japão Departamento Hidrográfico e Oceanográfico do Japão 1871 Sim Nascido na modernização Meiji

Nesta “liga” histórica, a França lidera não por vitórias navais, mas por continuidade institucional. Embora o UKHO tenha ganho enorme influência mundial na produção de cartas, surgiu décadas depois. Já os Estados Unidos consolidaram o seu serviço no século XIX, à medida que cresceram o comércio global e a projecção naval.

Do cobre aos robôs: a modernização do SHOM

O que começou com esboços costeiros feitos à mão e cartas gravadas em chapas de cobre transformou-se numa operação intensiva em dados e cada vez mais automatizada. Hoje, o SHOM já não depende apenas de navios hidrográficos tripulados e equipas numerosas: está a apostar, de forma crescente, em robôs.

A nova geração de drones de levantamento visa passar de missões pontuais para uma recolha de dados quase contínua e de alta densidade.

Nos últimos anos, o SHOM começou a montar uma frota de drones marítimos, tanto para acompanhar o ritmo tecnológico como para responder à pressão por informação cada vez mais precisa e actualizada.

Drones de alta tecnologia a varrer 11 milhões de km² de mar francês

Duas aquisições recentes ilustram a direcção desta evolução. A primeira é o DriX H‑9, um drone de superfície autónomo, de linhas esguias, fabricado pela empresa francesa Exail. À primeira vista parece uma pequena embarcação sem tripulação, mas transporta sensores de sonar de grande capacidade.

O DriX pode operar de forma independente, cobrindo áreas extensas e medindo profundidades com elevada exactidão. Também pode trabalhar em conjunto com um navio hidrográfico maior: enquanto a embarcação principal executa tarefas mais complexas ou operações em águas profundas, o DriX varre zonas rasas e fecha lacunas. O resultado é claro: menos combustível, menos pessoal exposto e mais dados recolhidos.

O segundo sistema, o NemoSens da RTSys, é um drone subaquático compacto concebido para áreas de plataforma continental. Onde navios convencionais enfrentam limitações - águas pouco profundas, geometrias complexas ou zonas ambientalmente sensíveis - o NemoSens consegue passar, mapear, medir e detectar sinais.

Uma frota de robôs SHOM sob a bandeira tricolor

Estas duas plataformas são apenas o início. Juntam-se a um DriX H‑8, entregue em 2025, e deverão ser complementadas em breve por um equipamento de grande porte: um veículo subaquático autónomo Hugin Superior, certificado até 6 000 metros, produzido pela empresa norueguesa Kongsberg Discovery.

Com este conjunto, o SHOM prepara-se para cobrir desde cartografia costeira até mapeamento de mar profundo, sem manter navios de levantamento permanentemente ocupados. A inteligência artificial começa a ganhar espaço, ao organizar enormes nuvens de pontos de sonar, assinalar anomalias e gerar modelos preditivos sobre mudanças no fundo marinho.

Também os métodos de processamento em batimetria - a ciência de medir profundidades - estão a tornar-se mais automatizados. Isto liberta especialistas para o essencial: interpretar o que os dados significam, identificar riscos de deslizamentos em taludes submarinos ou acompanhar a dinâmica de sedimentos junto a praias e estuários.

Um outro vector que se torna cada vez mais relevante é a cooperação técnica. A ligação entre dados hidrográficos, observação da Terra e modelação oceânica favorece parcerias com universidades, centros de investigação e programas europeus de monitorização ambiental, acelerando a validação de modelos e a integração entre medições no mar e previsões costeiras.

Dados como instrumento de poder marítimo

Por trás da corrida a robôs e algoritmos existe uma camada estratégica. A vida contemporânea depende fortemente do fundo do mar: a maior parte do tráfego global de internet atravessa oceanos por cabos de fibra óptica, muitas rotas energéticas passam ao largo, e potenciais recursos minerais encontram-se sob milhares de metros de água.

Ter dados próprios do fundo do mar significa decidir com base em informação que se controla - e não com base no mapa de terceiros.

Neste quadro, depender apenas de cartografia estrangeira ou de dados comerciais cria fragilidades. Ao reforçar capacidade autónoma, a França procura proteger cabos submarinos, assegurar acessos aos seus portos e sustentar direitos sobre recursos dentro da sua ZEE.

E este trabalho não é exclusivamente militar. Autarquias costeiras precisam de cotas altimétricas e dados de nível do mar para definir regras de ordenamento. Seguradoras analisam cartas de risco de inundação. Empresas de energia a planear parques eólicos ao largo avaliam correntes, tipo de fundo e condicionantes de navegação - muitas vezes com base em informação produzida pelo SHOM.

O que “hidrografia” significa, na prática (SHOM e hidrografia)

A palavra hidrografia pode parecer técnica e distante. No terreno, traduz-se em várias camadas de actividade:

  • executar linhas de levantamento no mar com sonar para medir profundidade e caracterizar o fundo;
  • registar marés e variações do nível do mar ao longo de períodos extensos;
  • localizar obstáculos: rochas, destroços, oleodutos e gasodutos, cabos;
  • converter medições brutas em simbologia e cores em cartas;
  • publicar e actualizar essas cartas para navegadores, tanto em papel como em formatos digitais.

Para um comandante de um navio de carga a entrar em Le Havre ou Marselha, anos de trabalho hidrográfico reduzem-se a uma decisão crítica: quão perto o casco pode passar do fundo em segurança durante a maré baixa. Para um comandante de submarino, um erro de poucos metros na profundidade pode significar a diferença entre permanecer discreto e ser detectado - ou entre segurança e colisão.

Riscos, benefícios e o que pode correr mal

A transição para sistemas autónomos tem vantagens evidentes. Robôs conseguem operar mais horas do que humanos, em áreas mais perigosas e com restrições de segurança menos pesadas. Reduzem custos e emissões quando comparados com grandes navios tripulados a navegar continuamente. E podem ser mobilizados rapidamente para novos pontos críticos após uma tempestade ou um deslizamento submarino.

Mas este modelo também traz riscos. Uma dependência elevada de automatização pode mascarar erros se os controlos de qualidade não forem rigorosos. A cibersegurança torna-se um tema central: drones de levantamento e sistemas de controlo podem ser alvo de intrusão, interferência ou bloqueio. E em águas sensíveis, próximas de fronteiras contestadas, a presença de veículos robóticos pode gerar tensões diplomáticas.

Existe ainda o paradoxo da soberania dos dados. Quanto mais ricos e detalhados são os mapas do fundo do mar de um país, mais valiosos se tornam como activo nacional - e mais delicada passa a ser a gestão de acessos. Equilibrar colaboração científica aberta com necessidades de segurança continuará a ser uma dor de cabeça permanente para os serviços hidrográficos.

Como isto mexe com a vida quotidiana, mesmo longe da costa

Para quem vive no interior, um serviço hidrográfico com 305 anos pode parecer irrelevante. No entanto, a sua influência entra pelas rotinas diárias: a aplicação de meteorologia no telemóvel que alerta para uma inundação costeira, o preço de bens importados que chegam sem incidentes em contentor, e até os cabos submarinos que mantêm chamadas de vídeo estáveis - tudo depende, em algum ponto, de dados marítimos fiáveis.

À medida que as alterações climáticas se aceleram, séries temporais hidrográficas longas ajudam governos a medir a velocidade a que as costas recuam e a identificar que zonas baixas podem exigir protecção ou relocalização. Nesse sentido, a decisão de 1720 de centralizar a cartografia naval acabou por se transformar numa ferramenta moderna de resiliência climática.

O público britânico poderá continuar a ver a Royal Navy como o arquétipo da tradição marítima. Mas num nicho muito específico - o mapeamento silencioso e meticuloso do próprio mar - a França mantém um recorde que nem Londres reclamou, e está agora a reforçar esse legado com frotas de máquinas que escutam, mergulham e se conduzem sozinhas.

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