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Formiga com 40 milhões de anos redescoberta em âmbar que foi de Goethe.

Jovem cientista estuda fósseis de insetos em âmbar num laboratório com equipamento moderno.

Numa vitrina pouco chamativa de um museu alemão, um fragmento antigo de âmbar guardava um detalhe que tinha passado despercebido durante gerações.

Conservada há mais de 200 anos e tratada sobretudo como uma curiosidade mineralógica, uma peça da coleção pessoal de Johann Wolfgang von Goethe acaba de revelar algo fora do comum: uma formiga fossilizada com cerca de 40 milhões de anos. Observada com tecnologia de ponta, a descoberta acrescenta novas peças ao puzzle da evolução das formigas e ajuda a reconstruir como eram as florestas europeias do passado.

Do museu à ciência: o âmbar de Goethe e a tomografia por radiação síncrotron

A amostra integra a coleção de âmbar reunida por Goethe no final do século XVIII e hoje preservada no Museu Nacional Goethe, em Weimar. No total, são aproximadamente 40 exemplares, maioritariamente provenientes da região do Báltico. Naquele período, o interesse era essencialmente mineralógico: o âmbar era descrito como uma “substância combustível”, e a hipótese de conter vestígios de seres vivos raramente era explorada com atenção.

Em 2023, uma equipa da Universidade Friedrich-Schiller de Iena e do Centro Helmholtz para Pesquisa com Íons Pesados decidiu reavaliar o conjunto com uma abordagem moderna. Em vez de se ficar por lupas e observação superficial, os investigadores recorreram a microscopia de alta resolução e, sobretudo, à microtomografia por radiação síncrotron - uma forma de tomografia computorizada de altíssima definição, especialmente eficaz para fósseis minúsculos encapsulados em materiais opacos.

Após examinarem 40 amostras (30 delas com tomografia num síncrotron), identificaram três insetos fossilizados. Entre eles, destacou-se uma formiga que, a olho nu, era praticamente impossível de detetar. O exemplar - registado com o código de inventário 1552.b - permaneceu selado no âmbar desde o Eoceno, preservado em três dimensões e sem fraturas relevantes.

Da reserva do museu para um feixe de raios X de alta energia: o fóssil atravessou séculos antes de poder “falar”.

O aspeto decisivo é que nada foi extraído, cortado ou polido. A análise foi inteiramente não destrutiva, um ponto crucial quando se trabalha com coleções históricas e peças montadas (neste caso, desde o século XIX). Assim, preservou-se o objeto tal como chegou até nós, reforçando em simultâneo o valor científico e patrimonial da descoberta.

A formiga fóssil †Ctenobethylus goepperti: anatomia, tentório e prosterno em 3D

A formiga pertence à espécie †Ctenobethylus goepperti, descrita pela primeira vez em 1868 pelo entomólogo Gustav Mayr a partir de outros exemplares em âmbar báltico. Apesar de ser conhecida há mais de um século, a sua anatomia não tinha sido reavaliada com ferramentas atuais - e é precisamente aqui que o novo trabalho muda o panorama.

Com tomografia síncrotron (SR-μ-CT), os cientistas geraram um modelo 3D extremamente detalhado, permitindo observar características raramente preservadas (e ainda mais raramente visualizadas) em formigas fósseis do Cenozóico. Entre os ganhos práticos do método, destacam-se:

  • Reconstrução tridimensional completa sem danificar o âmbar;
  • Identificação de componentes internos delicados na cabeça e no tórax;
  • Reavaliação da posição da espécie na árvore evolutiva das formigas.

Duas estruturas em particular sobressaíram: o tentório (uma espécie de “esqueleto interno” da cabeça que serve de suporte e ancoragem muscular) e o prosterno (na zona anterior do tórax). Estes elementos ajudam a inferir como a formiga sustentava os músculos, como operava as mandíbulas e de que forma se movia.

O fóssil não mostra apenas a aparência: permite inferir parte da biomecânica e da forma como o animal se relacionava com o ambiente.

A reconstrução indica uma cabeça muito recortada e peças bucais robustas, compatíveis com um modo de vida ativo - possivelmente predador ou especializado na exploração de recursos mais difíceis. As patas sugerem boa mobilidade em superfícies irregulares, como casca e fissuras de troncos.

Com base neste nível de detalhe, os autores propõem ainda uma revisão taxonómica relevante: †Eldermyrmex exsectus, espécie descrita em 2019, corresponderia ao mesmo organismo que †C. goepperti. Na prática, isso significa que †Eldermyrmex exsectus deverá ser tratado como sinónimo mais recente, ficando o nome mais antigo como válido. Esta clarificação reduz duplicações e melhora a consistência da classificação de formigas fósseis.

Uma Europa mais quente: a †Ctenobethylus goepperti e as formigas arborícolas

O contexto temporal é o Eoceno médio, aproximadamente entre 47 e 34 milhões de anos atrás. Nessa fase, a Europa apresentava um clima mais quente do que o atual, com florestas mistas de coníferas e árvores de folha larga. O âmbar báltico formou-se a partir da resina dessas árvores, capaz de aprisionar insetos, bolhas de ar e fragmentos vegetais - criando cápsulas naturais de preservação.

As análises filogenéticas aproximam †Ctenobethylus goepperti do género atual Liometopum, um grupo de formigas arborícolas que hoje ocorre na América do Norte e no sul da Europa. Estas formigas tendem a instalar colónias em árvores, com organização social complexa e deslocações frequentes entre ramos e troncos.

Se esta proximidade estiver correta, a “formiga de Goethe” teria um estilo de vida semelhante: colónias em cavidades de madeira, circulação intensa de operárias e interações marcadas com outros organismos da floresta (por exemplo, presas, competidores e fontes de alimento em árvores).

Aspeto †C. goepperti (Eoceno) Liometopum (atual)
Ambiente Florestas quentes do Báltico Florestas temperadas e quentes
Habitat Maioritariamente arbóreo Predominantemente arbóreo
Função ecológica Provável espécie dominante Espécie fortemente influente

A frequência com que †C. goepperti surge noutros âmbares do Báltico sugere que era abundante e amplamente distribuída. Por isso, alguns autores admitem que pudesse atuar como “engenheira do ecossistema”, influenciando o ambiente ao construir ninhos, redistribuir nutrientes e afetar populações de outros invertebrados.

Ao decifrar uma única espécie de formiga fóssil, torna-se possível deduzir aspetos da organização e do funcionamento de florestas inteiras.

A anatomia evidenciada pela tomografia reforça essa hipótese: pernas robustas, articulações eficientes e mandíbulas capazes de capturar presas ou manipular uma dieta variada. Em conjunto com as análises evolutivas, estes dados ajudam a construir cenários mais coerentes sobre a evolução das formigas sociais em períodos de clima quente.

O valor escondido nas reservas: museus como “bases de dados” científicas

O estudo do âmbar associado a Goethe vai muito além de identificar um inseto pré-histórico. Na prática, demonstra como coleções históricas - muitas vezes armazenadas e pouco estudadas - podem conter informação científica por explorar. Durante décadas, muitos destes acervos foram vistos sobretudo como património cultural ou objetos estáticos, com utilidade limitada fora da exposição.

A tomografia por radiação síncrotron altera esse paradigma. Ao usar feixes intensos de raios X gerados em aceleradores de partículas, torna-se possível “fatiar” virtualmente o objeto e reconstruí-lo internamente em 3D. E a abordagem não se limita ao âmbar: aplica-se também a ossos, dentes, sementes petrificadas e outros materiais de difícil leitura.

Uma vantagem fundamental é a segurança para as peças: o fóssil não precisa de ser removido do suporte, nem cortado, nem submetido a polimento. Em objetos únicos e historicamente sensíveis - como os ligados a figuras como Goethe - esta preservação integral faz toda a diferença.

Os museus deixam de ser apenas locais de guarda e passam a funcionar como repositórios de dados científicos à espera de serem ativados.

Um passo seguinte, com impacto ainda maior, é transformar estas reconstruções em “gémeos digitais”: modelos 3D que podem ser arquivados, comparados e partilhados entre equipas, reduzindo a necessidade de manuseamento do original e permitindo revisões independentes. Esta digitalização, quando acompanhada por metadados rigorosos (proveniência, idade estimada, condições de conservação), aumenta a reprodutibilidade e acelera novas descobertas.

Também vale a pena sublinhar um ponto prático: reexaminar coleções exige planeamento e prioridade institucional. Protocolos de triagem - por exemplo, selecionar amostras de âmbar báltico com maior probabilidade de conter inclusões biológicas - podem maximizar resultados e justificar o investimento em tempo de equipamento e processamento de dados.

Porque é que esta história interessa fora da investigação

Para quem não é especialista, uma formiga fossilizada pode parecer um detalhe técnico. No entanto, o caso toca em temas atuais e abrangentes.

Por um lado, reconstruir as florestas do Eoceno contribui para perceber como os ecossistemas reagem a fases prolongadas de aquecimento. As formigas têm um papel desproporcionado no funcionamento ecológico: alteram micro-habitats, influenciam cadeias alimentares e participam na circulação de nutrientes. Saber como grupos próximos das formigas arborícolas se organizaram num planeta mais quente pode ajudar a calibrar modelos usados para interpretar tendências atuais.

Por outro lado, a descoberta ilustra por que motivo é vital manter coleções bem inventariadas e acessíveis. Muitas instituições enfrentam falta de espaço e orçamentos limitados, o que cria pressão para privilegiar apenas o que é “exibível”. Aqui, uma peça discreta - sem grande impacto visual - acabou por apoiar resultados científicos robustos e abrir caminho a novas perguntas.

Conceitos que convém ter no radar

Alguns termos recorrentes neste tipo de estudo:

  • Eoceno: intervalo geológico entre cerca de 56 e 34 milhões de anos atrás, associado a um clima global mais quente do que o atual.
  • Âmbar báltico: resina fossilizada de antigas florestas próximas do mar Báltico, conhecida por preservar insetos em 3D.
  • Tomografia por radiação síncrotron: técnica que usa feixes intensos de raios X produzidos em aceleradores de partículas para gerar imagens internas muito detalhadas de objetos sólidos.
  • Formigas arborícolas: espécies que vivem sobretudo em árvores, utilizando troncos, ramos e cavidades na madeira como abrigo e rota de alimentação.

Um exercício simples para quem visita museus de história natural é imaginar quantas peças - nas vitrinas ou nas reservas - ainda contêm informação inédita. À semelhança da formiga preservada no âmbar de Goethe, um fragmento aparentemente banal pode permanecer silencioso durante séculos e, quando finalmente observado com as ferramentas certas, alterar o que sabemos sobre a vida antiga e a sua ligação ao presente.

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